Os mitos sobre transição de carreira

Confira algumas ideias falsas propagadas no ambiente corporativo e que desestimulam muitas pessoas a darem novos rumos para suas carreiras

São Paulo – Um anúncio de mudança de carreira muitas vezes é seguido por uma avalanche de críticas, desconfiança e muitas perguntas de colegas, amigos e parentes.

Tudo bem que não é mesmo fácil deixar uma atividade consolidada e partir para o novo. “As pessoas enfrentam barreiras para mudar porque criam vínculo com a profissão, com o cargo ocupado e com o salário que recebem”, diz a coach Susana Azevedo que deixou de trabalhar como executiva na indústria de automóveis para apostar no trabalho de coach executivo e pessoal, há 13 anos.

De acordo com a especialista, algumas ideias pré-estabelecidas, muitas vezes, acabam se tornando “algemas” que impedem muitas pessoas insatisfeitas de darem um novo rumo para suas carreiras. Confira quais são e como se livrar deles:

1 “Vou desperdiçar todo o conhecimento adquirido até aqui”

Não, não vai. “Tudo o que a pessoa fez antes serve de bagagem para o que ela pretende fazer”, diz Susana. A especialista lembra que nosso cérebro não é um computador passível de formatação. “Não limpamos nossa memória”, diz. 

Em maior ou menor escala os conhecimentos que você já possui serão úteis tanto durante o processo de transição quanto após a consolidação de uma nova atividade, na opinião de Susana. 

Maria Beatriz Henning, da consultoria Exceed concorda. Quando decidiu abandonar a sua carreira em um banco no início de 2001 e apostou no trabalho com recrutamento de talentos – voltado principalmente para o mercado financeiro – ouviu muita gente dizer que desperdiçaria seus conhecimentos.

“As pessoas falavam isso. Mas você usa seus conhecimentos de uma forma diferente. Não sinto que todo o meu conhecimento técnico foi desperdiçado, pelo contrário foi o que me diferenciou no mercado”, explica.

2  “Só quem está em início de carreira pode mudar”

Um bom salário, um cargo no alto escalão de uma organização e o sucesso são as principais barreiras que uma pessoa mais experiente terá que enfrentar ao decidir mudar de carreira. “O sentimento de perda de status é a maior armadilha, neste caso”, diz Susana.

Por isso, é muito comum ouvir que os mais jovens é que podem se dar ao luxo de mudar de carreira porque têm muito menos a perder. “É fato que os mais novos podem arriscar mais”, diz Susana. 

“O que acontece é que os mais novos são mais destemidos por conta da idade”, diz Maria Beatriz. No entanto, isso não quer dizer que profissionais em nível sênior não possam mudar também. “É claro que para um profissional mais experiente sair da zona de conforto demanda mais coragem, mas essa pessoa está muito mais preparada para fazer isso”, diz Maria Beatriz.

“Uma pessoa mais velha tem tanto ou até mais probabilidade de ter sucesso se souber se planejar e usar corretamente a experiência que tem”, diz Susana. De acordo com a especialista, planejamento é essencial. “É preciso ver, pensar, se preparar, fazer colchão financeiro, buscar o apoio da família”, recomenda.


3 “Quem muda de carreira não é comprometido com objetivos”

Ser considerada uma pessoa que não é capaz de manter seus objetivos e que fica pulando de “galho em galho” também é uma ideia falsa propagada pelos corredores de escritórios, na opinião de Susana. 

“O que acontece é que as pessoas têm que escolher a carreira muito, com 16, 17 anos. Não há condição de fazer uma escolha definitiva nessa idade, é cruel”, diz Maria Beatriz, lembrando que os jovens muitas vezes não têm capacidade de avaliar e acabam seguindo caminhos tidos como certeza de sucesso. 

“Na minha geração dizia-se muito que havia apenas duas formas de obter sucesso: trabalhando em banco ou em consultoria estratégica. Mas depois de fazer metrado e ser exposta a outras teorias percebi que havia vida além daquilo”, diz ela.

De acordo com Susana, antes de partir para transição de carreira “A primeira coisa é saber o que a fez pensar em mudar e o que ela quer obter no curto, médio e longo prazo”, diz Susana. Foi o que Maria Beatriz fez. “A minha transição foi muito pensada, não foi algo de supetão”, conta a hoje especialista em recrutamento de executivos. 

“Eu sentia insatisfação, mas não sabia explicar porque gostava do tema mercado financeiro. Fiz aconselhamento de carreira e decidi que sair do banco seria a melhor coisa e depois descobrir que queria fazer o que faço hoje”, conta Maria Beatriz. 

4 “Satisfação no trabalho é mito, o que vale é pagar as contas”

Se muitas vezes a motivação para uma transição é a insatisfação com a carreira atual, é comum ouvir que a própria satisfação é um mito. Pensar que quem tem um salário alto é feliz única e exclusivamente por conta disso é um clichê de carreira que muita gente repete e não deveria. 

De acordo com Susana não é uma questão ter um ou outro. “As pessoas precisam pensar em como construir uma situação em que tenha segurança financeira e encontrem satisfação no que fazem”, diz. “Quando você faz o que gosta a probabilidade de ganhar bem é maior”, diz Maria Beatriz.

A questão, diz Susana, é fazer uma transição planejada e calcada também na expectativa de segurança financeira. Por isso ter uma reserva financeira é muito importante para atravessar este período mais tranquilamente.

“Você paga um pedágio e é natural que pague porque você é remunerado pelo que entrega de resultado”, diz Maria Beatriz. Se de executivo sênior você passa ao nível júnior por conta de uma transição, isso vai se refletir no salário.

“O problema é que as pessoas querem resultados imediatos, querem tudo para amanhã. Em uma situação de mudança é preciso esperar um ou dois até começar a ver os resultados”, diz a coach.