Você está comendo atum de verdade?

Claire Martin

“A maioria das pessoas não dá muita bola para a gestão de dados”, afirmou Jared Auerbach, dono da Red’s Best, uma distribuidora de frutos do mar com sede em Boston. E a maioria das pessoas também não associa isso com a pesca. Mas Auerbach e alguns outros empreendedores do ramo estão utilizando a tecnologia para revelar os detalhes pouco conhecidos sobre como os peixes são pescados nas águas norte-americanas.

Além das lagostas do Maine, dos caranguejos de Maryland e dos camarões do Golfo, os peixes são geralmente ignorados por pessoas que muitas vezes são obcecadas pela origem de seus alimentos, ainda que boa parte dos frutos do mar façam longos trajetos. Até recentemente, os clientes não queriam saber de onde os peixes vinham, o que significa que os restaurantes e as lojas não sentiam a necessidade de fornecer esse tipo de informação.

Boa parte do que era vendido era vista apenas como “um filé comum, sem pele e devidamente embalado”, afirmou Beth Lowell, que trabalha no departamento de prevenção a fraudes com frutos do mar no Oceana, grupo internacional de defesa da conservação dos oceanos. “Os frutos do mar estão atrasados nos quesitos rastreabilidade e transparência”.

O pior é que muita gente não tem ideia do que está comendo, mesmo quando acha que sim. Em uma investigação recente sobre fraude com frutos do mar realizada pela Oceana, a organização comprou peixes vendidos em restaurantes, mercados, redes de sushi e supermercados e, em seguida, realizou testes de DNA com a carne. Eles descobriram que 33 por cento dos peixes estavam com rótulos incorretos de acordo com as diretrizes do governo federal. Peixes rotulados como snapper e atum eram os que tinham maior probabilidade de pertencer a espécies diferentes da indicada.

Há muitos anos, a Red’s Best desenvolveu um software para acompanhar a origem dos peixes que compra de pescadores artesanais no litoral da Nova Inglaterra. A Sea to Table, uma empresa familiar fundada em meados dos anos 1990 com sede no Brooklyn e que fornece frutos do mar para chefs e universidades, também desenvolveu um software próprio para acompanhar a origem de seus produtos e permitir que os clientes vejam o trajeto percorrido por aquilo que compram. Já a Wood’s Fisheries, de Port St. Joe, na Flórida, é especializada na pesca sustentável de camarões e utiliza um software chamado Trace Register.

Além disso, a partir deste semestre, o público será capaz de observar as práticas da indústria internacional da pesca por meio de uma parceria entre a Oceana, o Google e a SkyTruth, uma ONG que utiliza imagens aéreas e de satélite para estudar as mudanças na paisagem terrestre. A iniciativa, conhecida como Global Fishing Watch, utiliza dados de satélite para analisar as práticas dos barcos de pesca – incluindo tendências gerais e informações sobre embarcações específicas.

Logo depois que Auerbach fundou a Red’s Best em 2008, percebeu que as regulamentações do governo e a forma como a pesca comercial estava utilizando a tecnologia estavam colocando em risco a existência da pesca artesanal. Ainda assim, os barcos menores viajam distâncias mais curtas e pescam menos peixes, o que, segundo ele, melhora a qualidade do pescado. “Queremos que as pessoas comam mais peixes locais e rastreáveis”, afirmou.

Assim como a maioria das outras distribuidoras de frutos do mar, ele contava com um antiquado sistema de quatro cópias em papel carbono que era tão complicado que, com frequência, o obrigava a conferir a papelada madrugada adentro.

“O barco recebia uma cópia no ponto de descarga. O governo recebia outra cópia. Eu arquivava uma cópia. E então incluía os preços”, contou Auerbach. Quanto ao pagamento dos pescadores: “Eu precisava preencher os cheques, conferir seus número com a papelada e depois enviar tudo pelo correio. Era um verdadeiro pesadelo e, daquele jeito, seria impossível crescer”.

Agora é o software da Red’s Best que faz todo o trabalho. Por exemplo, todos os dias um motorista da empresa estaciona seu caminhão em um dos longos estaleiros de Woods Hole, Massachusetts, e os pescadores podem carregar anchova, robalo listrado, bonito, mariscos, caranguejos e outros frutos do mar. Mas, ao invés de blocos enormes e folhas de papel carbono, o motorista usa um tablet à prova d’água e uma impressora Bluetooth.

“Ele coloca os dados sobre a pesca diretamente na internet e todos os nossos funcionários no país inteiro têm acesso em tempo real aos peixes que estão sendo colocados no caminhão”, afirmou Auerbach. Quando os peixes chegam à Red’s Best em Boston, são imediatamente colocados no estoque e os dados são enviados ao governo federal.

A empresa cola um rótulo de rastreabilidade em cada caixa de peixe. Esse rótulo conta com um código de barras que pode ser escaneado por smartphones para revelar quem pescou o peixe, onde e como. Uma página de internet é criada automaticamente. Os compradores, geralmente atacadistas de produtos de alta qualidade do país todo, e seus clientes podem escanear o adesivo e descobrir a história por trás do peixe.

Auerbach, que tem 100 funcionários, acredita que a empresa irá vender cerca de 9.000 toneladas de frutos do mar este ano, pescados quase exclusivamente por cerca de 1.000 pequenas embarcações.

Com o tempo, a Red’s Best espera vender diretamente para o consumidor. “Por exemplo, um atum está sendo descarregado neste instante em Provincetown, Massachusetts, e você compra meio quilo do peixe para ser entregue na sua casa amanhã. Quero que esse atum chegue até o fim da cadeia de fornecimento.”

Em outras palavras, o peixe iria idealmente viajar da central da empresa em Boston até a geladeira da casa do cliente. Atualmente, as pessoas já podem comprar os peixes da Red’s Best na loja da empresa no Mercado Público de Boston e em diversas feiras livres. Os peixes também podem ser enviados pela AmazonFresh e, em breve, pela FedEx.

“Eu tenho os dados. Também tenho os peixes e sei que as pessoas querem comprá-lo.” A Sea to Table também espera começar a vender os peixes diretamente aos consumidores ainda este ano.

Contudo, o produto da pesca local pode sair mais caro do que os americanos estão habituados a pagar, o que explica em parte o grande volume de fraudes com frutos do mar no país.

“As empresas de pesca norte-americanas são muito bem geridas e estão crescendo bastante. Mas o consumidor dos EUA foi treinado a comprar alimentos baratos e os frutos do mar importados são realmente baratos, já que são pescados de forma ilegal, não reportada, nem regulamentada”, afirmou Michael Dimin, fundador da Sea to Table. O resultado são os pescados insustentáveis que enchem os mercados e supermercados dos Estados Unidos.

“Para nós, o segredo é a rastreabilidade. Se pudermos saber de onde o peixe vem, passamos a tomar decisões informadas”, afirmou Dimin.

Auerbach reconhece que alguns produtos da pesca local são caros, mas afirma que muitas variedades menos conhecidas são acessíveis. “É verdade que halibutes e vieiras são para os ricos. Mas cação, arraia, pargo e cavala não são nada caros, são saudáveis e deliciosos.”

©  2016 New York Times News Service