Um raio-x dos casos e das ações de prevenção ao suicídio no Brasil

Números mostram que mortes por suicídio aumentaram 2,3%, mas ações para mudar o cenário estão em desenvolvimento

São Paulo — Em 2016, o Brasil registrou 11.433 mortes por suicídio. O índice é 2,3% maior em comparação com o ano anterior, quando foram registradas 11.178 mil vítimas. 

No entanto, é possível que esses números sejam maiores. Segundo Fátima Marinho, diretora da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, há um “subdiagnóstico” de 20% em mortes por suicídio no país.

A estimativa leva em conta casos de “intenção não determinada”, quando não se sabe se foi um acidente ou realmente uma decisão premeditada de tirar a própria vida. 

Os dados foram apresentados pelo Ministério da Saúde, nesta quinta-feira (20), durante uma entrevista coletiva em Brasília.

Para fazer o levantamento, o órgão federal usa o banco de informações do Instituto Médico Legal e boletins policiais de todos os estados brasileiros.

De acordo com Luiz Scocca psiquiatra no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) 97% das pessoas que se suicidam nos dias de hoje têm alguma doença mental.

“Isso mostra que é necessário tratarmos das doenças da mente, como depressão e transtornos de personalidade. O suicídio é um problema de saúde pública e as ações de prevenção são essenciais”, explica.

Quem são as vítimas

Os registros mostram que a população masculina tem uma maior taxa de mortalidade nos casos de suicídio.

Entre os homens, tirar a própria vida é a terceira causa com mais vítimas no país (atrás de violência e acidentes de trânsito), com um crescimento de 20% nos últimos dez anos. Entre as mulheres, é a oitava.

Já a população feminina é a que mais apresenta tentativas de suicídio, mas a que tem menor mortalidade.

“As mulheres tentam, mas não necessariamente querem morrer. Há uma questão familiar, onde a mãe tem um papel fundamental na estrutura e isso é determinante para elas”, explica Fátima.

No entanto, a especialista afirma que é preciso analisar mais profundamente todas as variáveis para compreender com mais precisão esse cenário.

Por distribuição de idade, os jovens são as principais vítimas. A faixa etária com maior número de casos se estende entre 15 e 29 anos.

Já em relação a raça, a população branca é a que mais morre. Em média são 5,9 casos por 100 mil habitantes. Entre os negros e pardos, o índice médio é de 4,7 para 100 mil habitantes.

Em dez anos, estados do Norte e do Nordeste apresentaram um crescimento expressivo de casos de suicídio.

Entre as mulheres, houve alta no Amazonas (88,3%), Rondônia (65,5%) e Alagoas (45,8%). Já entre os homens, o aumento foi em Rondônia (120%), Maranhão (58,8%) e Piauí (48,8%).

Suicídio entre indígenas dispara

A morte de indígenas por suicídio no Brasil é a que mais preocupa os agentes de saúde do governo. A média de casos mortais por 100 mil habitantes chegou a 15,2 no levantamento de 2016. Além disso, os adolescentes, de 10 a 15 anos, representam 40% dessa estimativa.

Na coletiva, Luana Kumaruara, presidente distrital do Conselho Local de Saúde Indígena, explicou que determinantes sociais são fatores responsáveis pela alta taxa de suicídio nesses povos. “A violência, os estigmas e os preconceitos que os indígenas sofrem são algumas das causas.”

Ela afirmou que hoje há 10 mil agentes fazendo a prevenção do suicídio em praticamente todas as aldeias do Brasil. “Todos eles são indígenas e vivem nos territórios”, finalizou.

Ações de prevenção

Recentemente, o Ministério da Saúde liberou 6,5 milhões de reais para desenvolver pesquisas e ações de prevenção ao suicídio.

O dinheiro tem sido distribuído em pesquisas sobre risco de suicídio em pessoas portadoras do vírus do HIV, projetos na área de prevenção no SUS e atendimento humanizado para pessoas que tentaram tirar a vida.

Além disso, Rio Grande do Sul, Amazonas, Piauí, Mato Grosso do Sul e Roraima receberam, cada um, um incentivo de 1,4 milhão de reais para desenvolver ações de prevenção, porque as taxas de suicídio nessas regiões se descolam do restante dos estados.

A gratuidade das ligações para o Centro de Valorização da Vida (CVV) também surtiu efeito positivo. Em 2017, o centro recebeu 2 milhões de ligações de brasileiros em busca de ajuda. O número é o dobro do registrado em 2016.

Para Luiz Scocca da USP, falar sobre o assunto é uma das melhores atitudes para auxiliar quem tem pensamentos suicidas. “O medo e o tabu sobre o tema está acabando. É preciso falar disso, na mídia, claro que com seus cuidados, nas famílias e nas escolas”, conclui.

*Caso você — ou alguém que você conheça — precise de ajuda, ligue 188, para o CVV – Centro de Valorização da Vida, ou acesse o site. O atendimento é gratuito, sigiloso e não é preciso se identificar.