Um olho no Nordeste, outro no Congresso

No anúncio econômico do governo de Michel Temer, anunciado ontem, há projetos para resolver as contas públicas no curto prazo, outros para sinalizar um caminho futuro e um punhado de propostas sob medida para conquistar o Congresso e a população. Entre elas, está a promessa do ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, de finalizar até dezembro e inaugurar em janeiro de 2017 as obras da transposição do Rio São Francisco.

É uma ação pode ajudar Temer a ganhar corpo nas difíceis articulações no Congresso. Na Câmara, apenas 56% dos deputados do Nordeste votaram a favor do impedimento de Dilma Rousseff. Aproximar-se dos parlamentares nordestinos e de sua população pode ser decisivo para Temer. “O anúncio surpreendeu. A ideia pode ser interessante. Poderão dizer: ‘Lula tentou, Dilma não conseguiu e nós estamos entregando’”, diz o cientista político André César Pereira, da Hold Assessoria Legislativa.

O ministro da Integração Nacional, Helder Barbalho, foi encarregado de dar prioridade ao projeto. Ontem, se reuniu com parlamentares e empresas que tocam as obras para discutir seu andamento. Deputados e senadores da região têm insistido no tema. O Nordeste passa pela pior seca dos últimos 50 anos e centenas de municípios decretaram estado de emergência.

Temer poderá inaugurar a obra que foi uma das principais bandeiras do PT. Anunciada em 2004 e iniciada em 2007 pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a transposição era para ter sido entregue em 2010. Desde então, vem sendo adiada. Em agosto de 2015, ficou para 2017. O custo saltou de 4,5 para 8,2 bilhões de reais. A ONG Contas Abertas contabiliza 9,5 bilhões de reais. Em dezembro, a Polícia Federal prendeu quatro pessoas na operação Vidas Secas, que investiga desvios de 200 milhões de reais. Entre eles o presidente da empreiteira OAS, Elmar Varjão. Fazem parte das obras Mendes Júnior e Galvão Engenharia, encrencadas na Lava-Jato.

Estudada desde 1847 pelo intendente de Crato, no Ceará, Marcos Antônio de Macedo, e depois por D.Pedro II, a obra contempla Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Paraíba.