Um governo, vários projetos

Esta terça-feira escancarou mais uma vez as dificuldades de comunicação do governo. A bomba da segunda foi um vídeo em que o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, antecipava, numa conversa informal de campanha em Ribeirão Preto, uma nova fase da Lava-Jato. Depois, Moraes explicou que tinha falado em termos genéricos e, após conversa com o presidente Michel Temer na manhã de hoje, foi mantido no cargo. Conversas na mesma linha serão feitas com Geddel Vieira Lima, da Secretaria de Governo, Ricardo Barros, da Saúde, e Ronaldo Nogueira, do Trabalho.

O problema do titular da Justiça é mais embaixo, como ficou claro em revelação feita poucas horas após sua reunião com Temer. Moraes se encontrou com o superintendente da Polícia Federal em São Paulo, Disney Rosseti, na última sexta-feira, dois dias antes de falar demais no interior paulista. Segundo a assessoria do ministro, o encontro durou uma hora e tratou de tráfico de drogas e armas, fiscalização de empresas de valores e legislação sobre guarda de armas em bancos. A Polícia Federal havia informado, ainda ontem, que Moraes é avisado apenas a não deixar Brasília em dias de operação. Mas Rosseti, por obrigação de função, é informado com antecedência das operações em sua circunscrição.

A suspeita da oposição, portanto, de que Moraes pode estar interferindo nas operações, e que a Lava-Jato está sendo usada politicamente às portas das eleições municipais, ganha força. Os defensores do governo defendem que, mesmo que Moraes soubesse da operação, há uma diferença muito grande entre saber e interferir.

Em entrevista à radio Jovem Pan nesta terça, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, afirmou que o governo trabalha para a união do discurso, mas que projetos pessoais podem influenciar. “Falam mais para o seu público e menos para o público do governo”, afirmou. Moraes quer suceder Geraldo Alckmin no governo de São Paulo em 2018. Novos episódios como os dessa semana não devem ajudar.