Tudo que pesa contra Aécio

O senador foi citado na delação de Joesley Batista por pedir R$ 2 milhões; saiba quais são as outras acusações contra o tucano

O senador Aécio Neves (PSDB) conseguiu um feito raro nesta quinta-feira, ao assumir a dianteira na acirrada competição pelo posto de político mais enrolado do país. Em poucas horas, assistiu ao seu afastamento do mandato de senador pelo Supremo Tribunal Federal, à prisão preventiva de sua irmã, Andrea Neves, e de seu primo, às buscas da Polícia Federal em vários endereços ligados a ele e à decisão de seu partido de tirá-lo da presidência.

A série de bombas que caíram sob a cabeça de Aécio se deram depois da revelação do jornal O Globo de que o tucano teria sido gravado pedindo 2 milhões de reais a Joesley Batista, do grupo J&F, para custear sua defesa na Operação Lava-Jato.

A revelação do empresário, em acordo de delação premiada, é mais uma para a coleção de acusações que pesam contra o tucano, um dos campeões de inquéritos da lista do ministro do Supremo Edson Fachin, divulgada em abril. Abaixo, as denúncias contra Aécio — e onde sua família entra nessa história.

Propina para pagar a propina

Na noite desta quarta-feira 17, o jornal O Globo revelou que o empresário Joesley Batista teria gravado, no dia 24 de março, o tucano pedindo 2 milhões de reais sob a justificativa de que precisava pagar despesas com sua defesa na Lava-Jato. Os dois teriam se encontrado no Hotel Unique, em São Paulo.

O diálogo gravado dura 30 minutos, de acordo com o jornal. Nele, o pedido de ajuda financeira foi aceita e o empresário quis saber quem seria o responsável por pegar as malas com a quantia. Joesley teria proposto ele próprio entregar, caso Aécio fosse buscar o dinheiro em mãos. “Mas se você mandar alguém de sua confiança, mando alguém da minha confiança”, afirmou o empresário, segundo o colunista do Globo, Lauro Jardim. A isso, Aécio teria respondido: “Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação. Vai ser o Fred com um cara seu. Vamos combinar o Fred com um cara seu porque ele sai de lá e vai no cara. E você vai me dar uma ajuda do caralho”. Fred é o apelido do primo de Aécio, Frederico Pacheco de Medeiros, que foi um dos coordenadores da campanha do tucano à presidência em 2014 e diretor da Cemig.

Familiares presos

A irmã mais velha de Aécio foi presa preventivamente na manhã desta quinta-feira pela Polícia Federal, que cumpria mandado expedido pelo ministro Edson Fachin. Segundo o Globo, Andrea teria sido a responsável pela primeira abordagem a Joesley Batista, por telefone e WhatsApp, antes do encontro do empresário com Aécio, no qual o tucano teria sido gravado pedindo 2 milhões de reais.

Os agentes da PF realizaram buscas em um apartamento de Andrea, em Copacabana, na Zona Sul do Rio. O imóvel teria pertencido a Tancredo Neves, avô de Aécio e Andrea. Segundo o Globo, os policiais precisaram de ajuda de um chaveiro para entrar no apartamento, mas Andrea não estava lá. Ela foi encontrada em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte.

Na delação premiada ex-deputado federal Pedro Corrêa (PE), ex-presidente do PP, realizada em março do ano passado, Andrea foi citada como uma das operadoras de propina, responsável por conduzir movimentações financeiras ligadas a Aécio. Ela teve papel central na carreira política do irmão. Na campanha pela presidência, em 2014, participou ativamente: ajudava a interpretar pesquisas, seguia de perto tudo o que os marqueteiros faziam, opinava sobre os programas de televisão e até acompanhava o trabalho da equipe na ilha de edição. No mesmo ano, foi ela a encarregada de tentar salvar a imagem do candidato ao governo de Minas, Pimenta da Veiga. Sem sucesso.

Nesta manhã desta quinta-feira, o primo de Aécio, Frederico Pacheco de Medeiros, também foi preso pela PF. Fred, como é conhecido, estava em sua casa, no condomínio Morro do Chapéu, também em Nova Lima. Teria sido ele o designado por Aécio para pegar os 2 milhões de reais pedidos a Joesley Batista.

Outras revelações de Batista

Além da gravação, a delação de Joesley Batista traz outras revelações sobre Aécio. O empresário afirmou ter pago propina de cerca de 60 milhões em 2014 para o tucano por meio de emissão de notas fiscais frias a diversas empresas, segundo o jornal O Globo. Batista revelou ainda que comprou o apoio de partidos políticos para apoiar Aécio em sua campanha à presidência da República.

Lista do fim do mundo

Em abril, o ministro Edson Fachin autorizou a abertura de cinco inquéritos contra Aécio por lavagem de dinheiro, cartel, corrupção ativa, corrupção passiva e fraude em licitações. Os pedidos, encaminhados ao STF pela Procuradoria Geral, foram feitos com base na delação premiada dos executivos da Odebrecht, que ficou conhecida como “delação do fim do mundo”. O tucano foi citado nos depoimentos de Marcelo Odebrecht, do ex-diretor de Relações Institucionais, Cláudio Melo Filho; do ex-diretor da empreiteira em Minas Sérgio Luiz Neves; do ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura, Benedicto Júnior; e do ex-vice presidente da Odebrecht S.A Henrique Serrano do Prado Valladares.

Em um dos pedidos, Janot pede a abertura de investigação sobre Aécio e o senador Antonio Anastasia por suspeita de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, com base na revelação dos delatores de que, em 2010, foram pagos 5,4 milhões de reais em “vantagens indevidas” para a campanha de Anastasia ao governo de Minas, a pedido de Aécio.

Outro inquérito foi solicitado para apurar o repasse, em 2014, de mais “vantagens indevidas” para as campanhas do próprio Aécio à presidência e de “vários outros parlamentares”. Outro pedido dá conta da denúncia feita pelos colaboradores de pagamentos feitos, a pedido de Aécio Neves, em seu favor e de outros aliados. Há ainda um quarto pedido para investigar indícios de corrupção, formação de cartel e fraude de licitações na construção da Cidade Administrativa, a nova sede do governo mineiro, que custou cerca de 2 bilhões de reais e foi construído quando Aécio era governador do estado.

Janot também pediu a abertura de investigação para apurar o pagamento de um suborno para que o tucano favorecesse os interesses da Odebrecht, em conluio com a Andrade Gutierrez nas obras das usinas do Rio Madeira, Santo Antônio e Jirau. Em seu depoimento, Henrique Valladares afirma que os valores “pagos em cada giravam em torno de 1 a 2 milhões de reais, sendo implementados por meio do Setor de Operações Estruturadas, identificando-se o beneficiário pelo apelido ‘Mineirinho’” — o codinome de Aécio em planilhas da Odebrecht.

Mais inquéritos

Antes da lista de Fachin, Aécio já estava sendo investigado em outros dois inquéritos autorizados no Supremo. Um deles apura as suspeitas de ter apagado dados do Banco Rural antes de repassá-los a CPI dos Correios, aberta em 2005. O objetivo da manipulação dos dados teria sido esconder o mensalão mineiro. O outro inquérito aborda o suposto recebimento de propina por contratos em Furnas.

Citações arquivadas

Em março, atendendo a pedido da PGR, Fachin mandou arquivar as citações do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado sobre Aécio. Em sua delação premiada, Machado contou sobre um esquema de corrupção que teria sido armado em 1998, quando ele ainda era líder do PSDB no Senado, para eleger Aécio à presidência da Câmara. Segundo Machado, o tucano teria recebido 1 milhão de reais em dinheiro vivo na época. Por terem ocorrido entre os anos 1998 e 2000, os fatos relatados já haviam sido prescritos, tendo se esgotado o prazo para a punição.