Todas as bondades de Temer

“Nada mais saquarema que um luzia no poder”. A frase do político Holanda Cavalcanti, durante o Segundo Reinado, que expõe a pouca diferença entre os partidos políticos da época, serviria bem ao Brasil de hoje. Dois dias após as pesquisas mostrarem uma rejeição de 70%, o presidente interino Michel Temer resolveu conceder um reajuste de 12,5% no Bolsa Família — bem acima dos 9% prometidos por Dilma Rousseff.

Seus ministros garantiram que o acerto não impactará os cofres públicos. Na prática, serão mais 270 milhões de reais mensais que o governo desembolsará. Ainda ontem, o presidente liberou os 2,9 bilhões previstos para o estado do Rio de Janeiro. E o Senado ainda aprovou reajustes de 41% para o Judiciário e o Ministério Público, que devem custar 28 bilhões de reais até 2019 para a União. Na semana passada, Temer celebrou um acordo com os estados para alongar suas dívidas. Custo: 50 bilhões. No total, as bondades do presidente já somam 125 bilhões de reais, segundo o jornal O Estado de S. Paulo.

Temer é o presidente do realismo, que anunciou um rombo de 170 bilhões de reais na meta fiscal do governo, ou do populismo, que vai afrouxando, uma a uma, as “bandeiras” de sua gestão?

Na terça-feira, estava planejada a sanção da Lei das Estatais, que endurece as regras para indicações nas empresas públicas. Por pressão das boquinhas aliadas, Temer planeja rever os critérios e vetar alguns itens da lei. A próxima medida de bondade deve ser com os municípios, que desejam uma alívio com as mesmas condições oferecidas aos governadores.

Políticos podem ter coloridos diferentes, mas baseiam seu sucesso no denominador comum da governabilidade – e ela depende da aprovação das ruas e do Congresso. Enquanto o Senado não definir a situação interina de Temer, o pêndulo entre o real e o ideal deve continuar.