Temer participa de cúpula latina sob expectativa de guinada diplomática

Região não deve ser prioridade durante o governo de Bolsonaro, que pretende se distanciar da linha adotada pelo Brasil nos últimos anos

O presidente Michel Temer participará hoje, na Guatemala, da 26ª Cúpula Iberoamericana, que reúne 22 países, sendo 19 das Américas do Sul e Central. A agenda prevê a participação em duas sessões com chefes de Estado, além de um encontro com o presidente anfitrião, Jimmy Morales Cabrera. Com a viagem ao exterior, Rodrigo Maia (DEM-RJ) assumiu interinamente a presidência — reeleito, ele não precisou arrumar uma viagem de última hora para fora do país, como foi forçado a fazer até outubro.

O tema da reunião deste ano é “Uma Ibero-América próspera, inclusiva e sustentável” e vai na contramão da linha que a equipe do governo do presidente eleito Jair Bolsonaro pretende seguir. Em entrevista recente, o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, disse que o Mercosul não está na lista de prioridades, dando a entender que haveria uma mudança na condução da política externa em relação às diretrizes dos governos petistas.

O futuro ministro de Relações Exteriores, Ernesto Henrique Fraga Araújo, ainda não deu indicações claras sobre o futuro da pasta no novo governo, mas a avaliação da equipe de Bolsonaro é que, nos últimos anos, o Itamaraty foi aparelhado e que sua atuação ficou limitada a países mais de esquerda. O diplomata chefia há dois anos o departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos da pasta.

Sob sua gestão, o Itamaraty deve priorizar os Estados Unidos aos vizinhos latinos. Num de seus textos que mais circularam nos últimos dias, intitulado Trump e o Ocidente, Araújo afirma que o presidente americano atua “na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das nações ocidentais”.

No fim de novembro Trump deve ser a grande estrela do encontro do G20, que reúne os 20 países mais ricos, em Buenos Aires. Mas não da forma como esperava: o encontro já vem sendo chamado de G19 vs. Trump. Ao aproximar-se do americano, o Brasil corre o risco de afastar-se não só de seus vizinhos, como das economias mais desenvolvidas do mundo.