Temer: vou pra lá, vou pra cá

Se o governo Dilma era isolado e mal articulado, o de Michel Temer já se mostrou diplomático demais. Nesta quarta-feira, o presidente interino deu mais uma prova de que não está no Planalto para fazer inimigos. Depois de sofrer pressão de artistas no Brasil inteiro e até em Cannes e de ser aconselhado pelos senadores José Sarney e Renan Calheiros, Temer deve voltar atrás e recriar o Ministério da Cultura.

Para tentar reverter as críticas de só ter homens em seu governo, Temer convidou mulheres como Marília Gabriela, Daniela Mercury e Bruna Lombardi para assumir o que seria a Secretaria Nacional de Cultura. Todas negaram. A rejeição foi tanta que Temer acabou anunciando um homem mesmo: Marcelo Calero, de 33 anos, secretário de Cultura da cidade do Rio de Janeiro.

No Brasil, o extinto Ministério da Cultura estava à frente de projetos populares, como o vale-cultura e a lei da meia-entrada para estudantes. A Lei Rouanet, que trabalha com incentivos fiscais, aprovou e apoiou mais de 8.500 projetos no ano passado e repassou mais de 6 bilhões de reais em investimentos. Entre 2003 e 2013, o orçamento da pasta cresceu 500%, para 3 bilhões de reais (o orçamento da Educação é de 100 bilhões de reais). Um dos argumentos para recriá-la é que, mundo afora, a tendência é dar mais espaço à cultura nos governos, e não o contrário. Recentemente, Chile e Argentina criaram ministérios independentes para a área.

A recriação do ministério ainda não foi decidida, mas é mais um episódio que mostra a falta de pulso do novo presidente. Após reação dos militares, Temer mudou o ministro da Defesa. Desistiu de rever o tamanho do SUS. Está indeciso quanto a novos impostos. A pressão de Cannes foi só o começo — ainda vêm por aí sindicatos, professores, aposentados, mulheres, estudantes, empresários. Certamente não é hora para indecisão.