Temer: entre palavras e gestos

O presidente Michel Temer afirmou nesta segunda-feira que só vai afastar em definitivo do governo os ministros que se tornarem réus na Operação Lava-Jato. Aqueles que tiverem denúncia aceita serão suspensos temporariamente. Pela lógica, portanto, Moreira Franco, ministro da Secretaria-Geral da Presidência citado na Lava-Jato, fica exatamente onde está. A não ser, claro, que o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, decida pela sua saída — a decisão deveria ser tomada ainda nesta segunda-feira. “Não há nenhuma tentativa de blindagem. A questão é muito séria. E retorno: se alguém converter-se em réu, estará afastado independentemente do julgamento final”, disse o presidente.

É um posicionamento que rompe com a inércia do governo, que avaliou, caso a caso, situações de ministros envolvidos em escândalos, como os afastados Romero Jucá e Geddel Vieira Lima. Desde março de 2015, quando a Lava-Jato chegou ao Supremo, a Corte aceitou apenas três denúncias no caso, a mais famosa delas de Eduardo Cunha (PMDB), em março de 2016. Pelo ritmo com que caminham os inquéritos no Supremo, pode-se interpretar que Temer não afastará ninguém, pois seu mandato terminaria antes. O fator de decisão, mais uma vez, será a delação dos 77 executivos da Odebrecht. Edson Fachin, novo relator dos processos da Lava-Jato no Supremo, não deve acelerar as tomadas de decisão.

Neste contexto, a declaração de Temer serve para dar sinais de que o governo não está determinado a melar a Lava-Jato, apesar de todos os sinais em contrário dados nos últimos dias. Nesta segunda, o governo deu mais uma mostra de que vai partir para o ataque: o Planalto pediu, e conseguiu, que o jornal Folha de S. Paulo não publique informações sobre a tentativa de um hacker de chantagear a primeira-dama, Marcela Temer. O caso pode ter influenciado a escolha de Alexandre de Moraes para o Supremo.

Questionado, Michel Temer disse nesta segunda não haver censura na liminar que proibiu as reportagens da Folha. Também disse, mais uma vez, que não vai interferir na Lava-Jato. Eis o problema: há uma enorme distância entre o que o governo diz e o que faz nos bastidores.