SP, Rio e BH têm atos hoje em defesa de Glenn e da liberdade de imprensa

Ato no Rio foi organizado pela Associação Brasileira de Imprensa e tem presença confirmada de Wagner Moura, Camila Pitanga, Renata Sorrah e Marcelo D2

São Paulo — A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) organiza um ato para a tarde desta terça-feira (30), no centro Rio de Janeiro, em solidariedade ao jornalista Glenn Greenwald, à equipe do site The Intercept Brasil, do qual ele é editor, e em defesa da liberdade de imprensa.

Os atores Wagner Moura, Camila Pitanga e Renata Sorrah, o cantor Marcelo D2 e o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ) confirmaram presença no encontro, que está marcado para começar às 18h30, em um auditório com capacidade para 500 pessoas na sede da ABI.

De acordo com a associação, as recentes declarações do presidente Jair Bolsonaro sobre o jornalista representam “uma ameaça aos jornalistas brasileiros e às liberdades de imprensa e expressão, garantidas pela Constituição brasileira”.

Além do Rio de Janeiro, há atos marcados em outras cidades brasileiras, como em São Paulo, que está previsto para acontecer no vão do MASP, e em Belo Horizonte, na Praça Sete de Setembro.

Nas últimas semanas, Bolsonaro afirmou que Greenwald pode “pegar uma cana” por conta das mensagens que vêm sendo divulgadas há quase um mês envolvendo o hoje ministro da Justiça, Sergio Moro, e procuradores da operação lava Jato, principalemnte Deltan Dallagnol.

Na ocasião, ele foi questionado sobre a portaria 666, que trata da “deportação sumária” de “pessoas perigosas”, editada na semana passada por Moro, que foi vista por críticos como uma represália a Greenwald. Tanto o ministro, quanto o Ministério da Justiça negam a intenção.

“Não se encaixa na portaria o crime que ele está cometendo, até porque ele é casado com outro homem e tem filhos adotados brasileiros”, disse o presidente.

A legislação brasileira veda a deportação de estrangeiros casados com brasileiros ou que tenham filhos brasileiros. Greenwald é casado com o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ).

“Malandro. Para evitar um problema desse, casa com outro malandro e adota crianças aqui no Brasil”, atacou Bolsonaro. O jornalista e o deputado são casados há 15 anos.

“A ABI está acompanhando o caso e tomará medidas, no campo judicial, caso a portaria seja usada para atingir Greenwald, em mias um caso de arbítrio e de atentado à liberdade de imprensa”, escreveu o presidente da associação, Paulo Jerônimo, em nota. 

Em outra fala, o presidente disse que, no seu entender, o jornalista “cometeu um crime”. “Em qualquer outro país, ele estaria já em uma outra situação. Espero que a Polícia Federal chegue realmente, ligue os pontos todos”, afirmou.

Em depoimento, um dos hackers presos, o Walter Delgatti Neto, conhecido como Vermelho, disse que repassou conversas da Lava Jato ao editor do The Intercept de forma não remunerada.

O presidente Jair Bolsonaro, no entanto, colocou dúvidas nessa versão.: “No meu entender, isso teve transações pecuniárias”. Até hoje, contudo, não há nenhuma informação oficial de pagamento de Greenwald ao invasor.

Questionado repetidamente ontem por um jornalista em coletiva de imprensa sobre qual teria sido o crime cometido por Glenn, o porta-voz da Presidência, Otávio Rêgo Barros, não soube responder.

Entenda os vazamentos

Desde o dia 09 de junho, o Intercept vem revelando uma série de conversas privadas que mostram Moro e procuradores, principalmente Deltan Dallagnol, combinando estratégias de investigação e de comunicação com a imprensa no âmbito da Operação Lava Jato.

Segundo as revelações, o ex-juiz sugeriu mudanças nas ordens das operações, antecipou ao menos uma decisão e deu pistas informais de investigações nos casos envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O site é de Glenn Greenwald, um jornalista americano vencedor do prêmio Pulitzer por ter revelado, em 2013, um sistema de espionagem em massa dos EUA com base em dados vazados por Edward Snowden.

Como as revelações vieram a público por uma reportagem, ainda será necessária uma extensa investigação, provavelmente conduzida pela Polícia Federal, para confirmar as implicações jurídicas.

O vazamento de informações sigilosas no âmbito da Lava Jato tem sido comum desde o início da operação em 2014.