SP relembra 50 anos de Stonewall em Parada LGBT no domingo

Evento em SP deve reunir mais de 3 milhões de pessoas e marca o aniversário dos protestos nos Estados Unidos, que fortaleceram o movimento em 1969

A 23ª  Parada LGBT de São Paulo, considerada a maior do mundo, acontece neste domingo, 23, na capital paulista, com um clima de retrocesso no ar. Em maio, o governo retirou incentivos ao turismo LGBT. Em abril, Jair Bolsonaro afirmou que o Brasil “não pode ser o país do turismo gay”.

Esta edição do evento brasileiro, que começa na Avenida Paulista às 10h, comemora os 50 anos da revolta de Stonewall, que catalisou os movimentos LGBT ao redor do mundo. No dia 28 de junho de 1969, o bar gay Stonewall Inn, em Greenwich Village, em Nova York, nos Estados Unidos, foi invadido por uma corriqueira batida policial para multar o estabelecimento. Na época, no estado, estabelecimentos não podiam vender álcool a homossexuais e homens não eram autorizados a vestir menos do que três peças de roupas tipicamente masculinas.

Na ocasião, contudo, a truculência policial foi maior que o habitual e os frequentadores do estabelecimento, em sua maioria travestis e drag queens, enfrentaram a polícia. Alguém atirou um jornal em chamas dentro do bar, que começou a pegar fogo. Os policiais, que tentavam conter o incêndio, decidiram também usar as mangueiras de água contra a multidão que protestava na rua.

Esse episódio deu início a seis noites de protestos nos Estados Unidos e é considerado um divisor de águas para o movimento. A data é hoje considerada o dia internacional do orgulho LGBT. “Infelizmente, nada mais atual lembrar os 50 anos de Stonewall, exemplo de força, resistência, luta de direitos e respeito, em um ano em que a gente vê diretor de banco ser demitido porque contrata atores da comunidade LGBTI”, disse o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, em referência a uma peça publicitária do Banco do Brasil, vetada pelo governo de Jair Bolsonaro.

Eventos como a Parada LGBT são importantes para dar visibilidade à causa. Segundo o relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), de janeiro a 15 de maio deste ano, o Brasil registrou 141 mortes de pessoas LGBT. Foram 126 homicídios e 15 suicídios, o que representa a média de uma morte a cada 23 horas.

A nova edição do Atlas da Violência, organizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), também mostra que o número de violências registradas contra a população LGBTI+ aumentou no país de 2011 a 2017, ainda que haja uma escassez de informações sobre esse grupo social.

Reagindo a essa realidade, o Supremo Tribunal Federal (STF), no começo de junho, atingiu maioria em uma votação para criminalizar a discriminação contra a lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais. A partir de agora, mortes em razão de orientação sexual e identidade de gênero serão homicídios qualificados.

Como explicou Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em entrevista a EXAME, esse tipo de lei é importante, especialmente em um contexto em que políticos e cidadãos se gabam de ser racistas e homofóbicos, para o estado determinar o que aceita ou não na sociedade. “Mas, como na violência contra a mulher, a lei sozinha não vai resolver todos os problemas que estão assentados em questões muito mais profundas da sociedade, que só serão superadas com educação e debate”, aponta a pesquisadora.

Por ora, a medida surtiu algum efeito. Essa semana, em resposta à decisão do STF, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva anunciou que passará a punir, seja com multa ou perda de pontos, clubes de futebol cujas torcidas atuarem de forma homofóbica nos estádios.

Se, de fato, as multas ocorrerão, é outra história. Mas, como coloca Samira, é importante que as autoridades brasileiras determinem que tipo de sociedade desejamos ser.