Secco, da USP: agora é a vez do moderado Haddad num PT radical

Para o professor de História da USP e autor do livro “A História do PT”, no futuro, o partido terá que se articular em torno da ideia de Lula

Oficializado como candidato do PT às eleições presidenciais nesta terça-feira, Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, passa agora a ter que conciliar sua imagem moderada com um programa partidário dos mais radicais.

A análise é do Lincoln Secco, professor de História da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro “A História do PT”.

Segundo Secco, Haddad ficará de fato colado à imagem de Lula no primeiro turno mas, caso passe ao segundo turno, pode suavizar o discurso para conquistar eleitores menos identificados com o PT.

“Acredito que ele foi escolhido em parte por causa disso”, afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista:

EXAME – Fernando Haddad foi confirmado candidato do PT nesta terça-feira, prazo máximo dado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e após meses de, nos bastidores, já se saber que ele seria o ungido. Como o senhor interpreta essa estratégia do Lula?

Lincoln Secco – Teve duas razões, a primeira foi política, porque se tratava do principal líder que estava na prisão e que, caso não fosse candidato, ficaria relativamente esquecido.

A segunda é uma razão eleitoral. Os números das pesquisas demonstram que foi uma tática que deu certo. Se o Lula tivesse ficado de fora da disputa e esquecido, ele não teria o potencial eleitoral que tem hoje. Antes de ele ser preso, ele já era o líder nas pesquisas e deve ter subido entre 10 e 15 pontos desde então.

Eu acredito que um partido que tem 29% da preferência partidária, segundo o Ibope, e 24%, segundo o Datafolha, dificilmente não teria um candidato no segundo turno. Desde 1989, o PT ocupa a primeira ou segunda posição na eleição. Se o Haddad não for, a esquerda certamente terá o nome do Ciro Gomes. O cenário mais provável é entre extrema direita e esquerda, com Bolsonaro aparentemente consolidado.

Não é desonesto com a militância? Porque o último Datafolha, por exemplo, mostra que entre os que declararam voto no Ciro Gomes (PDT), 11% achavam que ele era o indicado por Lula. 43% sabiam que era o Haddad, mas 38% não sabiam quem era o indicado pelo Lula.

É uma pergunta bem difícil de responder. E que os líderes do PT que deviam responder. Mas pensando exclusivamente do ponto de vista político, deixando questões morais de lado, o desafio do PT agora é fazer uma parte do eleitorado aceitar a ideia de que uma eleição sem Lula não é fraude e que agora teremos uma eleição, sem Lula, mas com candidato do PT.

Pode ter uma parcela do eleitorado que resista por causa disso. Mas a maior parte vai se decidir por algum candidato, e provavelmente o candidato indicado pelo PT. Mas de fato isso é um problema.

Hoje mesmo no rádio, antes de Haddad ser oficializado, a propaganda do PT apresentou o próprio Haddad dizendo “no dia 7, vote 13”. Passa a impressão de que o desejo do partido é que o eleitor chegue na urna e só vote 13, sem saber que 13 significa Haddad e não Lula…

As pessoas vão saber que o Lula não é mais candidato. No primeiro turno, Haddad vai mesmo ficar muito colado na figura do Lula, mas no segundo turno ele tende a ter um pouco mais de autonomia, porque se houver esse cenário do PT enfrentar a extrema direita é inevitável que o Haddad apresente mais as credenciais dele próprio.

No primeiro turno, Lula e o PT são essenciais para Haddad conquistar os votos necessários. Mas no segundo turno, ele vai ter que conquistar eleitores que não são petistas, e eu acredito que ele foi escolhido em parte por causa disso.

Haddad tem um perfil muito diferente de quadros históricos do PT, ele é um intelectual, de São Paulo, com trânsito no PSDB, moderado.

Como vai ser para o Haddad ter que justamente conciliar esses dois lados, de ser o candidato do Lula, mas também um político com trânsito no mercado financeiro e em outros partidos?

Os políticos em geral fazem isso, mas o Lula fazia muito isso. O desafio de Haddad na verdade nem é esse. O desafio é conciliar a imagem moderada dele mesmo com um programa do PT que é mais radical das últimas eleições.

Desde 1989 um programa radical foi sendo moderado ao longo dos anos, mas agora, por tudo que aconteceu em 2016, pela própria polarização, o PT apresentou um programa bem mais radical. Esse será o desafio, diferente daquele de Lula e Dilma.

Em que sentido os desafios são diferentes?

Na época do segundo mandato do Lula e, depois, da Dilma, o PT não precisava se radicalizar, ao contrário, ele era governo. Agora na oposição, ele se constituiu de novo como um partido radical. É difícil com uma militância mobilizada sobre essa nova forma fazer um giro brusco e encontrar um tom moderado.

Em que aspectos o programa do PT é mais radical?

O PT está mais radical tanto na linguagem quanto nas propostas. O próprio José Dirceu disse isso em uma entrevista, que hoje o PT faz uma campanha mais radical.

No programa, há propostas vistas como radicais: uma reforma tributária, questionamento direto do teto dos gastos públicos, mudança do imposto de renda, enfim. E, se houver esse cenário de Bolsonaro e Haddad no segundo turno, serão duas forças políticas com alta rejeição.

Mas todo adversário contra o Bolsonaro no segundo turno tem uma vantagem que de qualquer forma ele é o campeão de rejeição e não consegue moderar o seu discurso.

Haddad até hoje era contestado dentro do PT como substituto de Lula, principalmente por uma ala ligada à presidente Gleisi Hoffmann. Então além de conciliar sua imagem com o programa do PT, haverá ainda o desafio de unir o próprio partido?

Há quem diga que ele não foi nem a primeira escolha. Mas há meses ele entrou para a corrente do Lula, a CNB. Antes, Haddad era muito próximo da outra corrente, a “Mensagem ao Partido”, ligada ao ex-governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro.

Essa passagem dele para a corrente majoritária do PT já foi um sinal que ele se preparava para assumir o lugar do Lula e contornar essas resistências que você apontou, seria difícil lançar um candidato que não fosse dessa corrente majoritária.

O PT nunca foi um partido unificado, mas tende a se unificar em momentos eleitorais. Essa própria tática do Lula de manter seu nome até o final foi questionada pelos outros governadores petistas do Nordeste. Mas o Lula é o principal cabo eleitoral do partido e ninguém vai se contrapor às diretrizes dele.

Lula, mesmo da prisão, vem ditando as cartas e o comportamento do PT apesar de o partido ainda ter alguns quadros relevantes, como o ex-senador Jacques Wagner. O que explica a transformação de Lula em líder incontestável e absoluto do partido?

Envolve a própria constituição histórica do partido, o Lula é desde a fundação o líder inconteste. Mas a liderança dele em vários momentos foi negociada.

Depois que ele virou Presidente da República e elegeu e reelegeu a sucessora, aumentou ainda mais o poder dele no partido. Essa passagem dele pelo governo fez com que se tornasse uma pessoa incontornável nas decisões eleitorais. Nesse sentido, a explicação é mais eleitoral.

Muito embora ainda seja cedo pra dizer isso, mas tem outro lado que é de que o Lula pode ter se tornado uma espécie de símbolo popular, como o peronismo na Argentina, particularmente no Nordeste. Nesse caso não é tanto o que ele diz, mas o que ele representa.

Hoje no PT as lutas internas continuam existindo, mas elas se dão em torno de um eixo que é o próprio Lula, ele mesmo disse, “eu sou a ideia”. E a ideia as pessoas interpretam como querem. Ele disse isso e logo depois foi preso, entrando relativamente em silêncio, escrevendo cartas, mas não mais falando diretamente com a população, o que só reforça a ideia do mito.

Essa dependência em relação a Lula é ruim para um eventual governo Haddad?

Primeiro tem que ganhar. Mas o mesmo problema que ele terá no segundo turno terá de forma ampliada no governo, porque vai ter uma grande pressão das bases sociais do PT para resolver os problemas imediatos, porque as pessoas que voltaram a dar a preferência ao partido (passou de 9% em 2016 para 29% agora) identificam o PT com o período do Lula, de pleno emprego, políticas sociais funcionando…

Será um governo à sombra do Lula. Por mais que o Haddad tenha um personalidade própria, e ele tem, ele foi ungido pelo Lula, se for eleito vai ser por causa do Lula e, num eventual governo, o Lula vai ser uma sombra na prisão. Ele vai ter que fazer um governo conciliador.

Em 2015, numa entrevista ao El País, o senhor afirmou que o maior erro do PT foi justamente a estratégia conciliadora do Lula. Se lá foi um erro, hoje é uma necessidade?

No caso do Haddad vai ser uma necessidade, mas só se concilia se o outro lado quer. A aposta dele vai ter que ser a sociedade está cansada do conflito, da polarização. A sociedade civil brasileira está estressada desde 2013, a política invadiu o cotidiano, o que é ótimo, mas não é o tradicional do Brasil.

Minha [visão] é que o Lula de certa forma engendrou uma espécie de peronismo no Brasil e se isso é verdade, o Brasil vai continuar fortemente polarizado, porque a sociedade argentina é assim até hoje.

E a dependência do Lula para o PT? O partido não deveria estar preocupado em formar novas lideranças?

Essa eleição invariavelmente já criou uma nova liderança nacional para o PT. Haddad, mesmo que não ganhe nesta eleição, já se torna o eventual candidato da próxima, ele já é a nova liderança do PT.

Sobre se a dependência é ruim para o partido:  na verdade, no curto prazo – e os políticos vivem de curto prazo -, tudo que leva a glória é bom e não ruim, qualquer um gostaria de ter um cabo eleitoral como esse, que é líder mesmo preso. O PT vai ter que se articular em torno da ideia do Lula, da interpretação da ideia do Lula, e não em torno do Lula de fato.

Após o mensalão, muita gente decretou a morte do PT. Com a Lava Jato e o Petrolão, voltaram as previsões que seria o fim do PT. Atualmente, o partido é um dos competitivos para vencer as eleições e voltou a crescer na preferência dos brasileiros. O que explica essa resiliência?

A história, em primeiro lugar, porque o PT foi fruto de um momento único da história recente que foram as greves do ABC e a redemocratização. O partido também soube se implantar em quase todos os municípios do Brasil, tem uma grande capacidade eleitoral e geográfica.

Mas a razão conjuntural imediata deriva não de qualidades do PT, mas de qualidades negativas do governo Temer. A partir de 2016, outras forças de esquerda que gostariam de superar o PT recuaram, pela própria situação do país, o alto desemprego, a crise econômica e política. Os movimentos populares, como o movimento sindical, se refugiaram em torno de movimentos mais tradicionais, e o PT é o movimento de esquerda mais tradicional do país.

Christopher Garman, diretor da consultoria Eurasia para a América Latina, disse ao Financial Times que o que salvou o PT foi o impeachment de Dilma e a prisão de Lula. O senhor concorda com essa frase?

Em grande parte eu concordo, porque a oposição aos governos do PT foi muito açodada, muito apressada… Se o PT fosse hoje governo, com a crise que ele vivia em 2016, certamente o PSDB teria uma vaga no segundo turno.

Eu costumo dizer que o PSDB abriu a porta do zoológico e agora não consegue fechar a jaula das feras. A direita na verdade foi quem mais pagou por esse processo todo. Além disso, o cálculo do eleitorado sobre os escândalos de corrupção envolvendo o PT já foi feito.

O que era para colar no PT já colou, agora escândalos de corrupção atingem algumas figuras e outros partidos, e nesse aspecto a figura do Haddad ajuda o PT, a imagem dele é um político impoluto, intelectual.

O senhor mencionou que a direita foi quem mais pagou eleitoralmente, mas na prática a esquerda pagou com o impeachment de uma presidente e a prisão de outro…

Sim, de fato, e ainda dois ex-presidentes do PT presos, José Dirceu e José Genoino, além de dois ou três tesoureiros. Na prática pagou bem mais, mas tem um pouco a ver com timing. Como eu falei, a oposição ao PT foi muito açodada.

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  1. Saiu um que está preso e entra outro acusado de corrupção…onde vai parar a politica desse pais? Misericordia!!!!!