Iñiguez, da IE: o desafio das escolas de negócios

Thiago Lavado

Promover a parceria das escolas de negócios europeias com outras escolas ao redor do mundo. Essa é uma das maiores contribuições do espanhol Santiago Iñiguez ao empreendedorismo e ao fomento de novos negócios. Reitor da Escola de Negócios da Universidade IE, onde leciona administração estratégica, ele também faz parte dos quadros de universidades na China, Rússia, Peru, França e até da Fundação Getúlio Vargas. Apaixonado pelo Brasil, ele tem inclusive uma casa no Rio Grande do Norte e esteve em viagem a São Paulo, onde conversou com EXAME Hoje sobre empreendedorismo, o lugar das escolas de negócios nacionais no mundo e como o Brasil pode incentivar o ambiente de negócios e melhorar a formação de novos administradores

Como as escolas de negócios brasileiras são vistas em outros países?

Há um grande número de escolas de negócios brasileiras que têm reputação internacional ou parcerias com outras escolas em outros países. Então, no geral, as escolas de negócios brasileiras são bem vistas. As razões para isso são um crescente número de cursos que são lecionados em inglês, o que ajudou a atrair um maior número de alunos; a qualidade da pesquisa também melhorou nos últimos anos; e, claro, o peso da economia brasileira na América Latina e no mundo, o que faz do país um local atrativo para estudar e procurar por oportunidades de trabalho. Há ainda algumas barreiras para entrada de alunos estrangeiros e emissão de vistos de permanência. Houve um aumento de instituições nos últimos anos, principalmente daquelas estão em busca de maiores lucros e compõem grandes conglomerados de educação, mas elas pertencem a um segmento diferente. Não acho que elas podem concorrer em termos de qualidade com instituições como FGV, Insper, Fundação Dom Cabral ou USP, que são consagradas internacionalmente.

Na comparação com outras escolas de negócios, qual o maior problema das brasileiras?

A questão das escolas de negócios no Brasil é ao mesmo tempo boa e ruim. Elas têm pouca competição interna e o mercado brasileiro é enorme em termos de alunos em potencial. Isso cria um grande número de oportunidades para as escolas aqui, no mercado doméstico. Isso é uma vantagem porque não há a necessidade de competir, pode-se atrair candidatos suficientes do Brasil e as escolas podem tocar seus programas de ensino sem ter a necessidade de focar na demanda internacional. Mas esse é também a desvantagem. Não há estímulos ou motivações para olharem para o mercado estrangeiro e atrair um maior número de inscritos de fora porque há demanda suficiente aqui. Se você comparar as escolas brasileiras com outras no continente, como no Peru, Colômbia e Chile, elas brigam para conseguir estudantes estrangeiros, porque há uma preocupação em atrair esses estudantes e se tornar uma instituição internacional. 

Há uma preocupação de que as universidades públicas e as privadas formem diferentes tipos de pesquisadores e administradores?

Há um espaço para universidades públicas, e isso acontece também na Europa e nos Estados Unidos. Elas podem aceitar e implementar grandes projetos de pesquisa, de longa duração e que demandam grandes investimentos, porque têm o apoio do governo. Elas preenchem um papel em termos de financiar e implementar pesquisas. O setor privado também tem sua importância: ele está próximo dos negócios, pode se relacionar melhor com a educação prática, e é bom em termos empregatícios. Ambos se complementam. As universidades privadas também desenvolvem pesquisa, de uma maneira mais clínica, relacionada com problemas práticos, que afetam as companhias e o mundo dos negócios. Há ainda outro segmento, mais focado no lucro, a que eu me refiro como “grandes varejistas da educação”. Seu papel é prover um bom serviço a custos aceitáveis. Junto do governo, essas instituições podem preencher uma educação de baixo custo, com conhecimento e habilidade, para as massas. Educação é um bem público, similar à saúde e ao meio-ambiente. O governo deveria manter um papel regulador nesse sentido, mas não com grande pressão, porque, afinal, o propósito é que a educação seja inovadora e que os programas possam prover a melhor educação para todos.

O custo Brasil é muito alto para novos empreendedores e para a abertura de negócios. Como melhorar o ambiente empreendedor no Brasil?

Eu acho que há um bom número de empreendedores no Brasil. Jorge Paulo Lemman e as pessoas por trás da Ambev, por exemplo. Há outros exemplos, como a Natura ou a Embraer, que é capaz de competir frente a frente com grandes corporações da indústria aérea. Eu creio que há um espírito empreendedor no Brasil. Para se ir além e ter mais empreendedores é preciso investir em um conjunto de fatores, como desregular o processo de criação de novas companhias, abrir as fronteiras para potenciais investidores e até permitir que empreendedores internacionais venham e criem novas companhias. Isso precisa ser combinado com um incentivo ao empreendedorismo na sociedade. Colocar empreendedores como bons exemplos, em vez de olhar para eles como as pessoas que simplesmente embolsam os lucros. Afinal, eles arriscam suas reputações, fortunas e patrimônios em prol de alguns investimentos. É necessário enfatizar e enaltecer o papel dos empreendedores na sociedade, precisamos ver que são os heróis do nosso tempo. Colocar o empreendedorismo como um valor na primeira infância, nas escolas, é bom nesse sentido, mostrando para as crianças as transformações que a atitude promove no mundo. Empreendedores são pessoas apaixonadas por novas soluções. Isto não é sobre promover a ideia de enriquecimento, mas sobre criar coisas novas que são demandas sociais e incentivar a inovação.

Para onde nossas escolas de negócios deviam olhar como exemplos?

No todo, as escolas brasileiras estão fazendo um bom trabalho. Elaborar programas em parceria com executivos e empreendedores seria uma boa ideia. Por exemplo, na IE nós temos uma parceria com o jornal Financial Times (FT), para aproximar estudantes de companhias e trazer a visão de mundo do FT. Também estamos colaborando com a FGV para treinar administradores nas principais empresas de ambos os países. Há uma necessidade de focar no aspecto prático e clínico da atividade empresarial. A pesquisa não devia se focar somente no aspecto teórico ou em modelos econométricos. Que tipo de setores precisam de promoção? Como promover o empreendedorismo no Brasil? Que regiões podem ser o melhor lugar para um ambiente de startups? Essa são questões que as escolas deveriam lidar melhor. Alguns são ótimas nisso, mas algumas ainda são muito acadêmicas.

Qual o papel que o governo pode cumprir para impulsionar as escolas de negócios?

Algum tipo de papel supervisão o é sempre necessário, mas o que eu mais sinto falta é de menos regulação. Por exemplo, o significado de MBA no Brasil é algo completamente diferente do que significa em qualquer outro lugar do mundo. Às vezes é preciso 15 minutos para explicar para alguém como funciona um MBA no Brasil. Isso é consequência de uma regulação governamental muito dura. Menos regulação é mais inovação. Não estou defendo uma espécie de abordagem libertária da educação, mas sugiro que, em prol do estímulo à inovação, não deveria-se prescrever o conteúdo de um programa educacional, mas supervisionar a qualidade, resultados e impacto na sociedade. A regulação não deve ser a priori.

Se você tivesse que mencionar um tópico para as escolas de negócios prepararem os estudantes no Brasil, qual seria?

O Brasil tem todos os ativos e créditos necessários para se auto-proclamar o lar do ensino e empreendedorismo sustentável. Há as maiores reservas florestais do mundo e também há uma sensitividade na população de que que isso é um bem importante, ao contrário de outros países como os Estados Unidos ou mesmo o restante dos BRICS. A maior parte da população respeita e percebe a importância do meio-ambiente. Se tornar o líder em termos de ensino e empreendedorismo sustentável é algo que o Brasil pode fazer e até já ocorre em certos níveis, com algumas instituições promovendo um bom número de estudos em sustentabilidade. O Brasil pode realizar ações internacionais, regulações e novas companhias a esse respeito. Ninguém pode negar que é um país que pode carregar essa tocha.