Rosana Pinheiro: Estou pessimista pela política, mas confio na resistência

Antropóloga brasileira, hoje professora na University of Bath, fala a EXAME sobre o livro "Amanhã Vai ser Maior", que analisa o Brasil pós Junho de 2013

São Paulo — A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado estuda desde 1999 as classes populares no Brasil. Entre 2009 e 2018, investigou a inclusão pelo consumo em uma das maiores periferias de Porto Alegre, onde acompanhou como a crise econômica, desde 2014, afetou a vida das pessoas de baixa renda e moldou suas visões políticas.

Duas décadas de pesquisa depois, Rosana, que se define como “progressista, intelectual pública e feminista”, decidiu narrar sua experiência no livro “Amanhã Vai ser Maior” (Editora Planeta, 2019).

Tomando como ponto de partida as Jornadas de Junho de 2013, ela descreve e tenta entender cronologicamente não só como se deu a eleição de Jair Bolsonaro, mas como é o Brasil de hoje.

Depois de ter sido denunciada duas vezes durante suas aulas no curso de sociologia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), por citar Paulo Freire, ela deixou o país neste ano para atuar como professora de Desenvolvimento Internacional, na University of Bath, na Inglaterra. Ela também já foi professora da Pós-Graduação em Desenvolvimento Internacional na Universidade de Oxford.

No Brasil para o lançamento do livro, ela conversou com EXAME sobre os erros da esquerda nos últimos anos, a guinada conservadora e as expectativas para o futuro. Leia os principais trechos: 

EXAME: Há muito trabalho de campo em “Amanhã Vai ser Maior”, e as histórias reais são um dos diferenciais do livro. Qual é a importância dessa abordagem?

Rosana Pinheiro-Machado: Isso é exatamente o que tento trazer como diferencial, que é a vivência de rua e de como lidar com as pessoas de carne e osso. Muitos livros foram publicados com análises do período, para discutir o início do colapso da democracia, mas todos têm uma abordagem institucional, com foco na Operação Lava Jato e na atuação dos partidos.

O que busquei foi sair dessa análise, que, em grande medida não funcionou, porque o sistema colapsou e as análises não deram conta. O que estava acontecendo, fora do sistema institucional, era uma insatisfação popular.

O establishment intelectual não adotou ferramentas para entender o século XXI, por isso a importância da etnografia. Parte do livro vem do meu trabalho de campo, ao lado da minha parceira de pesquisa Lucia Scalco, mas também de uma Rosana acadêmica, que fala para universitários, coletivos e jovens e que participa de manifestações desde 2013.

A minha intenção era ler a pulsão das ruas e uma nova movimentação de direita que estava fora do radar institucional. Desde cedo vimos o bolsonarismo crescer, porque notávamos uma ausência e um vácuo nas periferias, que certamente seria preenchido de alguma forma.

As Jornadas de Junho são o ponto de partida para a compreensão do Brasil de hoje. Quais foram os principais erros da esquerda e da direita sobre 2013? 

Eu tenho duas leituras sobre o PT durante 2013. A primeira é o fato de as lideranças do partido não terem lido a demanda das ruas, a pulsão que foi criada por eles próprios, os filhos rebeldes, fruto de uma geração de anos petistas.

O PT não entendeu que havia demanda por mais democracia e classificou as manifestações como golpistas. Mas lá haviam pautas naturalmente de esquerda, como críticas à repressão policial e aos abusos envolvendo a Copa do Mundo, que foram vistas como marchas golpistas e coxinhas.

Ao mesmo tempo, a minha segunda leitura é de que é difícil culpar o PT por tudo que aconteceu. Hoje temos mais conhecimento de que houve uma armadilha institucional [em referência à Vaza Jato, série de reportagens sobre abusos por atores da Lava Jato]. Assim, não posso culpar unicamente o PT. Mas colocar a responsabilidade do PT na leitura de 2013 não significa culpá-lo.

Já a direita foi oportunista e aproveitou o vácuo social e politico e a revolta, e viu nesse processo uma brecha para uma guinada anti-democrática.

Na linha do tempo do Brasil pós junho de 2013, qual evento foi o mais importante na sua visão?

O ponto fundamental é a greve dos caminhoneiros de 2018. Foi nesse episódio que toda a ambiguidade do Brasil no século XXI, em que trabalhadores sucateados reivindicam direitos, se mostrou.

Nesse momento, o apoio da esquerda teria sido fundamental, porque eles reivindicavam valores que deveriam ir de encontro com uma esquerda que se diz humanista, mas quer um trabalhador ideal que já é sindicalizado e formado politicamente.

Não. O trabalhador brasileiro é reflexo da nossa sociedade, fundamentalmente com raízes autoritárias, que não estudaram direito, não sabem exatamente o que foi a Ditadura. A esquerda, ao invés de se unir, entregou esses trabalhadores a quem não fez essa distinção, do que eles acreditavam ou não.

A ausência de uma ofensiva em redes sociais, canibalizada pela direita, foi um fator?

Sim, mas isso porque a direita entrou com uma máquina de dinheiro. Mas antes das redes de notícias falsas, que são imbatíveis, ela conseguiu acesso organicamente, como o MBL (Movimento Brasil Livre), que chegou com uma estética moderna, com o uso de memes, e atraiu muita gente para a política.

A esquerda ainda está aprendendo a lidar com as redes, mas é preciso focar nas demandas dos trabalhadores e adotar uma estética moderna, popular e atraente, que fale dos problemas reais da população com verdade.

O livro aponta que o governo Bolsonaro atua em uma lógica fascista. Hoje, acompanhamos os protestos no Chile e uma obsessão do governo brasileiro em reprimir qualquer iniciativa semelhante. É possível que o Brasil se junte a esse fenômeno? 

Eu penso que o Brasil tem tudo para explodir a qualquer momento e uma das coisas que mostro no livro é que uma fagulha, um pequeno acontecimento, pode explodir tudo. O movimento #EleNão atingiu pessoas de espectros diferentes da política, de vários partidos, que tinham em comum a indignação. Se isso acontecer, haverá uma repressão forte, com certeza.

O governo Bolsonaro tem um discurso internacional em que ele se coloca como um democrata, mas se houver manifestações, ele vai proibir. Mas esse é o grande desafio, porque o povo não tem que ter medo de tomar as ruas.

Ao mesmo tempo, não vejo que a população está parada: professores, estudantes, coletivos e cientistas estão se manifestando, mas é preciso de uma oportunidade que motive as pessoas a irem para a rua. Assim, é possível ou não que o Brasil repita o que acontece no Chile.

O livro também aborda o papel da imprensa. Após a eleição de Bolsonaro, é possível identificar uma mudança nesse posicionamento? 

De forma geral, vejo que houve um certo silenciamento da imprensa hegemônica sobre a eleição de Bolsonaro, que fala sobre “doisladismos” e sempre colocou Bolsonaro de um lado e PT do outro.

Mas estamos de falando de um lado anti-democrático, que revive o Ato Institucional nº 5 para reprimir protestos. Do outro, apesar de eu não ser petista – espero que isso tenha ficado claro no livro – eu consigo ver que os governos do PT foram democráticos.

Então, há uma balança completamente desequilibrada. Estamos observando um avanço conservador destruindo direitos indígenas e quilombolas, o meio ambiente e as instituições democráticas, em um colapso jamais visto. É urgente que a mídia dê nome aos bois.

Você cita no a necessidade de esperança no futuro e escuta das vivências das mulheres negras e indígenas. Foram eleitos ao mesmo tempo um presidente de extrema-direita e um número recorde de mulheres. Como esses movimentos conversam e qual deve prevalecer?

Primeiro, gostaria de notar que essa tem sido uma dinâmica vista no mundo todo, como nos Estados Unidos, mas essas ondas ainda estão em disputa e devem ficar assim por muito tempo.

No Brasil, estamos em uma situação feia: de uma lado uma nova juventude, com protagonismo periférico, mas do outro lado, o ataque é brutal.

A minha preocupação é a de que a minha geração consiga trabalhar na resistência e garanta um futuro democrático. Não adianta projetarmos a mudança nesses movimentos jovens, precisamos fazer isso agora.

Desde que você terminou o livro, você tem sido otimista ou pessimista com o futuro?

Terminei o livro em junho e só vejo as pessoas cada vez mais adoecidas. Quando nos encontramos para lançamento ou discussões, as pessoas se sentem melhor. Mas sigo com a ideia de que há adoecimento e que a única forma de reverter isso é estarmos juntos. Foi para isso que escrevi o “Amanhã Vai ser Maior”.

Estou muito pessimista com o cenário político, mas muito confiante (porque não gosto da palavra otimista) na força da resistência. E para mim, a única maneira para vivermos isso é recriando o coletivo e o olho a olho.