Rio não será Londres até 2016, diz Paes

Olimpíada precisará de uma operação "sofisticada" para superar as fragilidades de infraestrutura da cidade, disse o prefeito carioca

Rio de Janeiro – A Olimpíada de 2016 vai ser realizada dentro das limitações do Rio de Janeiro, sem a mesma oferta ampla de mobilidade dos Jogos de Londres, e precisará de uma operação “sofisticada” para superar as fragilidades de infraestrutura da cidade, disse o prefeito carioca, Eduardo Paes.

É padrão para as autoridades olímpicas e dos países-sedes dos Jogos dizer que a última Olimpíada é sempre a “melhor de todos os tempos”, mas a primeira cidade sul-americana a receber os Jogos Olímpicos reconhece que Londres está em um outro patamar em termos de infraestrutura.

O Rio de Janeiro não terá condições de, em quatro anos, chegar ao mesmo nível de preparação da capital britânica, segundo Paes.

Linhas expressas de ônibus estão sendo construídas –a primeira delas já está em operação– e o metrô será ampliado até a Barra da Tijuca, o epicentro dos Jogos de 2016.


Mas o Rio vai depender das faixas exclusivas de trânsito para a “família olímpica” e da redução no ritmo da cidade, com a implementação de feriados e férias escolares para não sofrer um colapso na mobilidade, uma vez que muitas ligações continuarão sendo restritas, apesar da nova infraestrutura de transporte.

“Temos que aprender a operar com o que a gente tem. O nosso desafio é maior, a gente tem uma infraestrutura muito pior que a deles (Londres), não teremos uma infraestrutura igual à deles em 2016”, disse o prefeito em entrevista à Reuters em seu gabinete.

“Teremos (uma infraestrutura) muito melhor do que hoje, mas teremos que fazer uma operação muito mais sofisticada devido às nossas fragilidades de infraestrutura”, afirmou o prefeito.

Paes reconhece que Londres é uma cidade que está “em outro patamar”, com mais infraestrutura, com uma rede de metrô já instalada.

“A gente não vai virar Londres até 2016”, afirmou o prefeito, que recebeu a bandeira olímpica na cerimônia de encerramento dos Jogos de Londres, no dia 12 de agosto.

As quatro linhas de BRT (Bus Rapid Transit) que serão feitas para os Jogos foram a solução encontrada pelo Rio para melhorar a integração entre as regiões da cidade, incluindo o aeroporto internacional e a Barra da Tijuca, uma vez que as duas linhas de metrô têm alcance limitado e já operam superlotadas nos horários de pico.

A ligação mais rápida entre a zona sul e o Parque Olímpico da Barra, no entanto, será pela linha olímpica de trânsito, que não permite a passagem de carros comuns e ameaça piorar os congestionamentos. Outra importante ligação a ser realizada pela faixa exclusiva será entre a Vila de Mídia –acomodação principal dos jornalistas, que vai ser erguida na região portuária– e a Barra.

Em Londres, além da linha olímpica, o público e todos os participantes do movimento olímpico tinham à disposição 11 linhas de metrô, um serviço de trens urbanos e um trem de alta velocidade inaugurado para os Jogos que liga o centro da cidade com o Parque Olímpico em apenas sete minutos.

“Como membro da família olímpica eu tinha um carro à disposição em Londres, mas preferia andar de metrô. Era mais fácil, mais rápido e mais confortável”, disse Paes, reconhecendo que no Rio não vai existir a mesma facilidade.


“Falta muita coisa para fazer, ninguém está dizendo que viramos o paraíso na terra porque não seria verdade dizer isso.”

Celebração – O prefeito, que é candidato à reeleição este ano e se vencer terá um segundo mandato até o fim de 2016, aponta Barcelona como o exemplo de cidade olímpica que o Rio quer seguir.

Foi inspirado no modelo da capital catalã, que é considerada a cidade que até hoje mais soube tirar proveito dos Jogos Olímpicos para evoluir, que Paes propôs ao Comitê Olímpico Internacional (COI) levar parte dos Jogos para a região portuária, que vai passar por um processo de total reformulação.

Como o projeto olímpico vencedor do Rio na eleição de 2009 não incluía o porto, não foi possível levar o centro de mídia e algumas instalações esportivas para a região portuária. Apenas a Vila da Mídia será erguida no local, que já está em obras e vai receber também navios de cruzeiro que servirão de acomodação durante os Jogos.

“Eu estiquei muito a corda para levar o maior número de coisas para a zona portuária e o que está lá está suficiente porque o projeto se viabilizou, a conta está paga… O fato de o Rio receber as Olimpíadas animou tanto a cidade que a operação (zona portuária) fechou rápido”, disse.

Paes garante que todas as obras com previsão de mais de três anos para ficarem prontas já estão em andamento. A principal delas, o Parque Olímpico, está em fase de demolição das arquibancadas do autódromo de Jacarepaguá, que vai dar lugar à maioria das instalações olímpicas (16 modalidades).

Um novo autódromo será construído em um terreno do Exército em Deodoro, como parte do acordo para a demolição do atual circuito, mas ainda há entraves burocráticos, e as obras não têm prazo de início.

Seguindo um padrão adotado por Londres, a maior parte das arenas olímpicas do Rio será temporária, uma forma de evitar que as construções se tornem ‘elefantes brancos’ depois dos Jogos.

Para o Pan-Americano de 2007, o Rio já construiu definitivamente o estádio olímpico João Havelange, o Parque Aquático Maria Lenk, a Arena da Barra da Tijuca e reformou o Maracanãzinho, enquanto o Maracanã está sendo reformado para a Copa do Mundo de 2014. Todos esses locais serão usados na Olimpíada.

“Por mais que o temporário também seja caro, o custo no tempo é muito menor. Às vezes dá uma certa indignação gastar 150 milhões para fazer um equipamento que vai durar 15 dias, mas seria muito mais caro deixá-lo como permanente”, afirmou o prefeito.

O orçamento definitivo dos Jogos ainda não foi fechado, o que foi alvo de cobrança do COI durante os Jogos de Londres, mas o valor estimado na proposta de candidatura, de 28,8 bilhões de reais, fica em linha com os cerca de 30 bilhões de reais gastos por Londres.

Com o custo elevado e sem a mesma infraestrutura, o Rio coloca como um aspecto que não requer qualquer investimento o seu diferencial para fazer os Jogos: a festa do povo.

“Nisso a gente é campeão mundial. A celebração no Rio é sempre muito maior do que em qualquer lugar.”