Recado a quem? Bolsonaro não verá canonização de Irmã Dulce

O presidente alegou compromissos de agenda para não ir ao Vaticano; para o biógrafo da beata, a ausência pode ser vista como um desprestígio aos católicos

Enquanto uma comitiva de políticos começa a desembarcar no Vaticano para a canonização da beata baiana Irmã Dulce, evento que acontecerá no próximo domingo 13, o presidente Jair Bolsonaro, que se considera católico mas levanta a bandeira evangélica na política, anunciou que não irá comparecer à cerimônia de santificação. Em seu lugar, de acordo com o Planalto, irá o vice-presidente Hamilton Mourão. 

Em julho, o porta-voz da Presidência da República Otávio Rêgo Barros havia confirmado o comparecimento de Bolsonaro na canonização que será conduzida pelo Papa Francisco, alegando que a presença reforçaria o compromisso do presidente “na importância de o Brasil ser um Estado laico”. Na última quarta-feira, entretanto, a presidência informou que devido a compromissos de agenda, Bolsonaro não irá nem ao Vaticano nem a Salvador, em outra comemoração marcada para dia 20 – alguns consideram a decisão uma forma de agradar sua base evangélica e a primeira-dama.

Para não fazer feio com os católicos, entretanto, há previsão de que na tarde de sábado 12 o presidente compareça à festa da Padroeira de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida, SP.  “Em razão até de uma impossibilidade de que ele participe da cerimônia para a Santa Irmã Dulce em Salvador no dia 20, o presidente entendeu a importância de se fazer presente em eventos de fé católica”, disse o porta-voz da presidência. 

Nascida em 1914 em Salvador, irmã Dulce foi uma freira que dedicou sua vida aos desfavorecidos, ficando mais tarde conhecida como beata dos pobres. A ela, primeira santa nascida no Brasil, são atribuídos milagres como a cura de hemorragias e cegueira, sendo considerada um ícone católico na Bahia. 

Para o jornalista Graciliano Rocha, autor da biografia “Irmã Dulce, a Santa dos pobres”, o não comparecimento de Bolsonaro pode ser recebido como um desprestígio por parte da comunidade católica. “O presidente ir ou não é uma decisão pessoal, mas como o Brasil é o maior país católico do mundo, é muito provável que uma parcela da população se sinta desprestigiada. Isso também desconsidera o Vaticano em termos de política internacional, que embora seja um microestado, tem sua relevância como referência para o catolicismo global”, diz.

A canonização ocorre na mesma semana do sínodo da Amazônia, onde o Papa Francisco ressaltou que ideologias podem ser uma arma perigosa. “Irmã Dulce está sendo canonizada junto ao sínodo da Amazônia, o que demonstra uma preocupação da igreja com as populações locais e com o bioma. Esse é um ponto que tem suscitado muitas críticas a Bolsonaro no âmbito internacional, o que pode justificar, em parte, a ausência do presidente”, finaliza Graciliano.