Quem são os 35 deputados que se elegeram “sozinhos”

Senado aprovou o fim das coligações partidárias nas eleições proporcionais. Medida pode amenizar efeito que, hoje, elege candidatos com poucos votos

São Paulo – Dos 513 deputados federais que foram eleitos para ocupar a Câmara dos Deputados entre 2015 e 2018, apenas 6,8% tiveram votos suficientes para serem eleitos “sozinhos”. Isto é, só 35 deputados alcançaram a marca de votação necessária para não precisar dos votos de seus partidos e coligações. Os outros 477 eleitos foram puxados pelos votos dados à legenda ou a outros candidatos de seu partido ou coligação. 

Nas próximas eleições, no entanto, esse efeito pode ser amenizado. Isso porque o Senado aprovou nesta terça-feira em primeiro turno, o fim das coligações partidárias nas eleições proporcionais – que elegem deputados federais, estaduais, distritais e vereadores.

A proposta ainda precisa ser aprovada em segundo turno no Senado para depois seguir para apreciação da Câmara dos Deputados. Pela proposta, somente serão admitidas coligações nas eleições majoritárias, que são as que elegem senador, prefeito, governador e presidente da República.

A coligação é a união de dois ou mais partidos que decidem apresentar juntos candidatos para uma determinada eleição.

A PEC foca nas eleições proporcionais porque é nela que se aplica o quociente eleitoral: número mínimo de votos que o candidato deve conseguir para se eleger. Este valor é obtido pela divisão do número de votos válidos no estado pelo número de vagas na Câmara a que tem direito cada estado.

Por exemplo, o estado de São Paulo tem direito a 70 deputados. Dividindo-se os 21,2 milhões de votos válidos que o estado registrou pelas 70 vagas, tem-se o quociente eleitoral de 303,7 mil. Este é o número de votos necessários para um candidato se eleger por conta própria em São Paulo.

Dos 70 eleitos, apenas cinco deputados alcançaram esta votação, entre eles Celso Russomano (PRB), Tiririca (PR) e Marco Feliciano (PSC). Todos os outros 65 deputados eleitos para representar o estado paulista foram puxados pelas votações de seus partidos e coligações. 

Em 11 estados e no Distrito Federal, nenhum deputado alcançou o quociente eleitoral nesta eleição, o que significa que todos foram eleitos por votos na legenda. São eles: Acre, Alagoas, Amapá, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Piauí, Rio Grande do Norte, Roraima, Rio Grande do Sul e Tocantins.

Veja na lista abaixo quais são os 35 deputados que conseguiram se eleger com os próprios votos.

Deputado Partido Estado Quantos votos recebeu Quociente eleitoral do estado
Artur Bisneto PSDB AM 250.896 207.301
Lucio Vieira Lima PMDB BA 222.164 170.299
Genecias Noronha SD CE 221.567 198.501
José Guimarães PT CE 209.032 198.501
Moroni DEM CE 277.774 198.501
Daniel Vilela PMDB GO 179.214 178.398
Delegado Waldir PSDB GO 274.625 178.398
Gabriel Guimarães PT MG 200.014 190.918
Misael Varella DEM MG 258.363 190.918
Odair Cunha PT MG 201.782 190.918
Reginaldo Lope PT MG 310.226 190.918
Rodrigo de Castro PSDB MG 292.848 190.918
Zeca do PT PT MS 160.556 159.612
Delegado Eder Mauro PSD PA 265.983 220.896
Aguinaldo Ribeiro PP PB 161.999 161.402
Pedro Cunha Lima PSDB PB 179.886 161.402
Veneziano PMDB PB 177.680 161.402
Eduardo da Fonte PP PE 283.567 179.329
Felipe Carreiras PSB PE 187.348 179.329
Jarbas PMDB PE 227.470 179.329
Pastor Eurico PSB PE 233.762 179.329
Christiane Yared PTN PR 200.144 188.841
Chico Alencar PSOL RJ 195.964 165.558
Clarissa Garotinho PR RJ 335.061 165.558
Eduardo Cunha PMDB RJ 232.708 165.558
Jair Bolsonaro PP RJ 464.572 165.558
Leonardo Piccian PMDB RJ 180.741 165.558
Sheridan PSDB RR 35.555 29.738
Esperidião Amin PP SC 229.668 211.033
João Rodrigues PSD SC 221.409 211.033
Bruno Covas PSDB SP 352.708 303.738
Celso Russomano PRB SP 1.524.361 303.738
Pastor Marco Feliciano PSC SP 398.087 303.738
Rodrigo Garcia DEM SP 336.151 303.738
Tiririca PR SP 1.016.796 303.738

O “efeito Tiririca”

O modelo atual de eleição para a Câmara dos Deputados propicia o chamado “efeito Tiririca” em que votos em um candidato também ajudam a eleger outros do grupo de partidos que se uniram.

O deputado Tiririca (PR) foi o segundo mais votado em São Paulo, com pouco mais de 1 milhão de votos. Seus votos elegeram também mais dois candidatos que tiveram votações muito abaixo do quociente eleitoral: Capitão Augusto (46,9 mil votos) e Miguel Lombardi (32 mil), ambos do PR.

No caso de Tiririca, como o PR não se coligou com nenhum outro partido, ele só ajudou a eleger partidos da mesma legenda. Isto é, mesmo com o fim das coligações, este tipo de candidato puxador de votos continuará tendo efeito.