Com a tesoura afiada, Joaquim Levy vai comandar a Fazenda

Com formação liberal, substituto de Guido Mantega na Fazenda é próximo de Armínio Fraga, mas já trabalhou no governo Lula. Sua primeira tarefa será conseguir se fazer ouvir por uma equipe de desenvolvimentistas

São Paulo – Confirmando as expectativas, o carioca Joaquim Levy será o ministro da Fazenda do segundo mandato de Dilma Rousseff. O anúncio acaba de ser feito em nota publicada pelo blog do Planalto. Junto com Nelson Barbosa, novo ministro do Planejamento, ele fará parte de uma equipe de transição até a posse ainda sem data definida. 

Fora do bolsão de apostas de possíveis nomes para substituir Mantega até meados da semana passada, os rumores em torno do nome de Levy animaram o mercado. Na última sexta-feira, quando a posse do hoje CEO do Bradesco Asset Management já era dada como certa, a Bolsa registrou sua maior alta em três anos.

As nuances de otimismo não são infundadas. Em 2003, quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha a dura missão de conquistar o mercado, Levy, então secretário do Tesouro Nacional, foi um dos responsáveis pela política de ajuste fiscal que garantiu credibilidade aos primeiros anos do governo petista. Ele também tem passagens pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Central Europeu. Veja o currículo do novo ministro. 

Se ele seguir o mesmo discurso que defendeu no passado, a expectativa é que, sob sua batuta, o Ministério da Fazenda adote um tom mais alinhado com os anseios do mercado. Entre os líderes do PT, o futuro ministro da Fazenda teria até  ganhado o apelido de “Joaquim mãos de tesoura”  graças às suas propostas ortodoxas, segundo informações do jornal O Estado de S. Paulo

E é exatamente neste ponto que reside um dos principais desafios internos que Levy terá para frente. Formado em Engenharia Naval pela Universidade Federal do Rio De Janeiro (UFRJ), o futuro  ministro tem doutorado em economia pela Universidade de Chicago – de tradição liberal.

(Thomas Lee/Bloomberg)

Para analistas, este perfil ortodoxo pode torná-lo um “estranho no ninho” já que a nova equipe econômica de Dilma é formada majoritariamente por desenvolvimentistas – incluindo a própria presidente.

“Vejo Levy como um ponto isolado dentro de uma equipe heterodoxa”, disse Sérgio Rodrigo Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, em entrevista a EXAME.com.

A resistência de uma ala do PT à escolha de Levy para o cargo de Mantega pode ter influenciado o adiamento do anúncio da nova equipe econômica. A expectativa era de que a presidente apresentasse os novos ministros na última sexta-feira.

Ligações tucanas e petistas

Durante a corrida presidencial, o futuro ministro da Fazenda de Dilma teria se posicionado ao lado de Aécio Neves (PSDB). Segundo a Folha de S. Paulo, Levy seria próximo de Armínio Fraga, indicado para assumir o Ministério da Fazenda caso o tucano fosse eleito, e teria feito algumas sugestões para a área fiscal durante o processo de elaboração do programa de governo.

Ele também colaborou com um artigo sobre política fiscal para um documento da organização CDPP, de orientação liberal, que criticava ponto a ponto a “nova matriz econômica” reforçada no governo Dilma.

Indicado para a Fazenda em um eventual governo de Aécio, Fraga teria sido professor de Levy ( (Thomas Lee/Bloomberg) )

Levy começou sua carreira no governo federal durante o último mandato do tucano Fernando Henrique Cardoso. Em 2000, ele foi nomeado Secretário-Adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda e, no ano seguinte, assumiu o cargo de economista-chefe do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão.

Na última terça-feira, Aécio ironizou a nomeação. “O mais adequado é a consideração que fez Armínio Fraga, que disse que via na indicação de Joaquim Levy algo como se um grande quadro da CIA fosse convocado para dirigir a KGB”, afirmou em referência à rivalidade entre as agências de inteligência dos Estados Unidos e da Rússia.

O novo ministro, no entanto, não é novato em um reduto petista. Durante a gestão de Antonio Palocci na Fazenda, Levy foi alçado ao cargo de Secretário do Tesouro Nacional – onde ficou até 2006. 

Neste período, atuou na política de ajuste das contas públicas do governo Lula que levou a um nível de superávit primário que até hoje não foi superado. Além disso, ele zerou a cobrança de Imposto de Renda para investidores estrangeiros e conseguiu garantir que o Tesouro Nacional ficasse responsável pelas emissões de títulos da dívida externa do Brasil. Até então, esta era uma atribuição do Banco Central.

Em abril de 2006, Levy assumiu o cargo de vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mas deixou o posto em novembro do mesmo ano em meio a supostas divergências com o então presidente da instituição, Luis Alberto Moreno – de acordo com relatos feitos à Agência Estado na época.

Na ponta do lápis 

No ano seguinte, foi nomeado secretário da Fazenda do Rio de Janeiro, durante o governo de Sérgio Cabral (PMDB). Especialista em contas públicas, Levy criou um modelo de gestão fiscal que garantiria arrecadação recorde ao governo do estado nos anos seguintes, segundo o jornal O Globo. Há relatos de que as suas “mãos de tesoura” foram implacáveis durante este período, de acordo com o jornal Folha de S. Paulo. 

Três anos depois, Levy assumiu a diretoria do Bradesco Asset Management, braço de gestão de recursos do Bradesco – que teve um crescimento de cerca de 70% no volume de fortunas administradas durante sua gestão.  A indicação do executivo para a Fazenda teria partido do próprio presidente do conselho do Bradesco, Lázaro Brandão – que teria vetado a ida de Luiz Carlos Trabuco, plano de A de Dilma para o cargo. ( ( (Thomas Lee/Bloomberg) ) )

Ao que tudo indica, o mercado está satisfeito com a nomeação. Resta saber agora qual ao grau de liberdade que o novo ministro terá para comandar a pasta – e quais são os cortes que vêm por aí. 

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