BRASIL

Quatro estopins para a volta do temor eleitoral no 11 de setembro

A terça-feira foi intensa como passaram a ser os dias 11 de setembro. A cotação do dólar bateu 4,15 reais, marca próxima à máxima histórica. A bolsa de São Paulo caiu 2,33%, maior tombo desde a crisa da lira turca, no mês passado. Na versão de 2018, por trás da turbulência no mercado financeiro neste 11 de setembro está a possibilidade cada vez mais real de um candidato de esquerda vencer as eleições deste ano. Na análise de cinco espectadores atentos ao cenário político brasileiro, ouvidos por EXAME, há quatro estopins:

1) O lançamento oficial da candidatura do petista Fernando Haddad

Com 9% de intenção de votos na pesquisa Datafolha divulgada na segunda, Fernando Haddad tem tudo, a partir de agora, para ser ainda mais beneficiado com a transferência do capital político do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e brigar por uma vaga no segundo turno. “No último Datafolha, 30% do eleitorado lulista declarou estar disposto a seguir a orientação de seu líder. Se isso de fato acontecer Haddad assume a segunda colocação no primeiro turno com chances reais de ganhar o segundo”, diz Carlos Pereira, cientista político da Fundação Getulio Vargas no Rio de Janeiro.

2) O efeito limitado do atentado sobre a campanha de Bolsonaro

Na visão de muita gente, o presidenciável do PSL errou ao perder a oportunidade de usar a violência que sofreu como mote a um discurso mais moderado. Basta lembrar que, na primeira foto pública no hospital Albert Einstein, Bolsonaro fez o usual gesto de arma com as mãos. A comoção com o atentado elevou a intenção de voto no candidato: na pesquisa Ibope de 11 de setembro, Bolsonaro está com 26%, quatro pontos a mais que na pesquisa anterior, de 3 de setembro. O problema é que a rejeição ao nome dele permanece alta — 41% dos entrevistados não votariam nele de jeito nenhum segundo o Ibope, só três pontos abaixo da pesquisa anterior e antes do atentado.

O resultado: Bolsonaro é um candidato ótimo no primeiro turno, mas ruim no segundo, em que perde ou está praticamente empatado com os concorrentes. “O mercado está raciocinando que a esquerda já tem lugar garantido no segundo turno, com Haddad ou Ciro Gomes (PDT) e a direita está com um candidato fraco para combatê-los. Por isso, o antipetismo reinante agora pode acabar dando espaço a uma vitória de esquerda no segundo turno”, diz o economista Celso Toledo, da consultoria LCA.

3) O receio do diagnóstico da esquerda para tirar o país da crise

Com propostas que apelam ao intervencionismo estatal para animar a economia, como a do candidato Ciro Gomes (PDT) de fazer a União atuar para limpar o nome de brasileiros endividados, ou de utilizar até 10% das reservas cambiais num fundo de investimentos em infraestrutura, da chapa petista, o receio é de que a esquerda, chegando ao poder em 2019, não tenha um mandato para conduzir uma agenda de ajuste fiscal na linha do que vem sendo adotada no governo Temer.

“Negar que há uma crise fiscal e que é preciso fazer a reforma da previdência é uma negação absoluta da realidade”, diz Carlos Ari Sundfeld, professor de Direito constitucional na Fundação Getulio Vargas. “A negação da realidade já aconteceu em 2014 na campanha de Dilma Rousseff e o mercado já viu as consequências disso.”

4) A anemia de Alckmin

O ex-governador de São Paulo segue patinando nas pesquisas — no Ibope de 11 de setembro, ele manteve os 9% da pesquisa passada. O tempo estendido de rádio e tevê do candidato por ora não tem colaborado. Os escândalos de corrupção do PSDB, vide a prisão do ex-governador do Paraná Beto Richa, também em 11 de setembro, tampouco. Para completar o enrosco, a superpopulação de candidatos que mais ou menos adotam bandeiras de centro-direita de Alckmin — João Amoêdo (Novo), Álvaro Dias (Podemos), Henrique Meirelles (MDB) — torna a competição acirradíssima nesta seara.

O candidato, apesar dos pesares, ainda tem um discurso alinhado com o mercado financeiro no diagnóstico para tirar o país da crise — seguir o ajuste fiscal e colocar reformas como a da previdência e a tributária na pauta. Além disso, é um candidato com mais chances de vencer o PT no segundo turno do que o altamente rejeitado Bolsonaro. “Alckmin é o completo oposto de Bolsonaro. A viabilidade dele no primeiro turno está muito comprometida. Mas, no segundo, ele é altamente competitivo. A questão é como chegar lá”, diz o cientista político Fernando Schüler, professor da escola de negócios Insper.

Conclusão

O quadro atual está longe de ter alguma definição. Há grandes chances de uma onda de voto útil num candidato visto pelo eleitorado como alguém capaz de bater um segundo turno de candidatos com posturas polarizadas (Bolsonaro numa ponta, Haddad noutra) às vésperas do primeiro turno. “É um pouco do que aconteceu na França no ano passado, em que diante de uma candidata radical como Marine Le Pen os eleitores impulsionaram a candidatura moderada do atual presidente Emmanuel Macron. Há ainda chances de acontecer o mesmo por aqui”, diz o economista Joel Pinheiro da Fonseca, do Insper.

Nesta quarta-feira, a bolsa voltou a subir, e o dólar está em queda, impulsionados pelo desempenho melhor de Bolsonaro no Ibope na comparação com o Datafolha. Embora o temor da esquerda no poder tenha pautado o 11 de setembro de 2018, muita emoção ainda está por vir até os brasileiros irem às urnas.