Projeto no Rio de Janeiro une proteção ambiental e inovação social

Iniciativa BIG 2050 fomenta e capacita soluções sociais para os problemas ambientais da paradisíaca e turística Baía da Ilha Grande

São Paulo – A zona costeira brasileira estende-se por mais de 8,5 mil quilômetros ao longo de 17 estados e mais de quatrocentos municípios. Ela abriga uma grande diversidade de ecossistemas, que vão de estuários, dunas de areia e restingas à manguezais e recifes de corais entre outros ambientes que são, muitas vezes, extremamente frágeis, importantes do ponto de vista ecológico e donos de uma rica biodiversidade.

Ao mesmo tempo, essas regiões servem de fonte de sustento de populações costeiras tradicionais, atraem centenas de milhares de turistas todos os anos e, com eles, toda uma infraestrutura de serviços, que acabam gerando pressões crescentes no ambiente, com prejuízos para a natureza e as pessoas.

Não precisa ser assim. Da idílica Baía de Ilha Grande, que engloba as turísticas praias de Paraty e Angra dos Reis, no Estado do Rio de Janeiro, vem um exemplo inspirador de estratégia de gestão ambiental que concilia desenvolvimento local e preservação com ajuda da própria sociedade: a Iniciativa BIG 2050.

Fruto de uma cooperação entre a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e o Instituto Estadual do Ambiente (INEA), a Iniciativa BIG 2050 promove a conservação e o uso sustentável da baía por meio de duas frentes: o Radar BIG e o Desafio BIG. Ela se baseia na atuação do Projeto Gestão Integrada do Ecossistema da Baía da Ilha Grande, iniciado em 2012 e finalizado em 2017, e busca expandir trabalhos semelhantes no médio e longo prazo na região.

Duas frentes

O Radar BIG 2050 é uma plataforma de monitoramento dos serviços ecossistêmicos da Baía da Ilha Grande que permite identificar as maiores sensibilidades na saúde ambiental da região. Congrega dados de parceiros de monitoramento como a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, sociedade civil organizada, órgãos governamentais e setor privado,  mais de 20 indicadores ambientais e socioeconômicos e um grupo de especialistas de diferentes áreas de pesquisa e gestão que analisam os resultados e definem alvos prioritários de atuação.

Nesta semana, o Radar divulgou o monitoramento ambiental atualizado da Baía, que trouxe dois pontos de preocupação: a redução na balneabilidade das praias da região e incidências frequentes de necrose e branqueamento parcial entre as amostras de corais nativos analisadas.

Já o Desafio BIG é um mecanismo de incentivo focado na promoção de ações inovadoras de conservação e proteção da saúde ambiental da região. Seu foco principal é “atacar” aspectos relacionados às ameaças aos serviços ecossistêmicos da região. Com base no resultado do Radar, são definidos os alvos de atuação que orientam chamadas à sociedade para a cocriação de soluções ambientais. As propostas selecionadas recebem financiamento e capacitação para atuar sobre os alvos, melhorando a saúde ambiental do território.

Em 2017, o desafio contou com 160 soluções inscritas, das quais 32 foram aprovadas na segunda etapa, 13 na terceira, e 11 soluções foram apoiadas na fase final. As soluções são tão diversas quanto os desafios e reúnem projetos de turismo comunitário, ações que valorizam o modo de vida caiçara, trabalhando com novas perspectivas que incorporem o valor da conservação; projetos de apoio à cadeia produtiva da maricultura (produção de algas marinhas) e iniciativas de combate à poluição por óleo combustível dos barcos.

“Quando abrimos o edital, surgiram várias soluções inovadoras para temáticas diversas, que nem imaginávamos. Isso mostra que dentro da sociedade há pessoas que querem ser protagonistas em questões ambientais e que trazem perspectivas de negócios sustentáveis”, conta ao site EXAME, Tiago Rocha, gerente do Projeto BIG junto à Organização das Nações Unidas.

“E isso é ótimo, porque é necessária uma visão holística para resolver problemas socioambientais complexos”, acrescenta. Nessa  primeira rodada do desafio, 8 soluções receberam um aporte de 50 mil reais e três receberam 20 mil reais. O mais legal é que todas as ideias e projetos apresentados desde a primeira etapa passaram por capacitação, mentoria e construíram uma rede de relacionamentos importantes na seara de negócios sustentáveis. Então mesmo quem não recebeu aporte aprendeu no processo.

“O desafio é conseguir com que esse modelo seja mais disseminado na sociedade, começando na escola. É muito importante para gente criar uma ambiente favorável para inovação social. A solução e protagonismo pode vir de dentro da sociedade em nível local, afinal a preservação do meio ambiente e seu uso sustentável estão ligados à qualidade de vida das pessoas”, afirma Rocha.

Para aprimorar os sistemas de monitoramento ambiental e realizar o próximo desafio para identificar mais soluções locais, o Projeto BIG está em busca de recursos. Sua primeira fase, entre 2012 e 2018, contou com 3 milhões de dólares do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e uma contrapartida de 27 milhões de dólares do governo fluminense para ações em várias áreas, que vão desde o planejamento institucional até o fortalecimento das áreas protegidas da região.

Para os próximos anos, a ideia é criar um fundo filantrópico, que capte recursos de doações de outras fontes, além de buscar financiamento no setor público. A ideia é que esse modelo possa ser sustentável economicamente, e, para isso, segundo Rocha,  seriam necessários 2 milhões de reais por ano para alavancar soluções de negócios sustentáveis e projetos que contribuam para a preservação local.