Projeto dá visibilidade aos principais leitores do Brasil: os presidiários

Detentos chegam a ler nove vezes mais que a média dos brasileiros; veja o mini documentário sobre projeto

São Paulo — O brasileiro médio lê quatro livros por ano, segundo a última pesquisa “Retratos da leitura no Brasil”, encomendada pelo Instituto Pró-Livro e divulgada em 2016. Um presidiário do Distrito Federal, único local até hoje no qual foi feito esse tipo de levantamento, chega a ler três livros por mês, ou 36 livros por ano — nove vezes a média do brasileiro.

Em alguns estados, a leitura de cada livro, comprovada por uma resenha, desconta quatro dias da pena a que o detento foi condenado, na chamada remição.

A partir deste incentivo, Elisande de Lourdes Quintino, da Fundação Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel (Funap), conduz um projeto de leitura e produção de resenhas, chamado “Leitura Liberta“, no Complexo Penitenciário de Hortolândia, no interior de São Paulo.

A editora Carambaia, especializada na publicação de livros desconhecidos do mercado editorial brasileiro, encontrou aí a oportunidade de levar suas obras aos “maiores leitores do Brasil”.

Em parceria com o projeto de Elisande e com a Artplan, distribuíram seus títulos entre os presidiários, e publicaram as resenhas produzidas em seu site.

Além da produção das resenhas, a editora ainda fechou uma parceria com a Videocubo para a produção de um mini documentário sobre a importância da leitura para os detentos.

Para o vídeo, o diretor da Videocubo, Diogo Dias de Andrade, explicou que preferiu deixar de fora os relatos que mostravam os motivos da prisão dos detentos, na tentativa de humanizá-los, e para mostrar que as vidas das pessoas que cometeram crimes não se resumem ao ato que as levou à prisão.

O diretor de Trabalho e Educação do Centro de Progressão de Pena de Hortolândia, Marcos Antonio de Medeiros, conta que a estratégia funcionou: um dos detentos saiu da sessão de gravação emocionado, contando para ele que nunca se imaginou “dando opinião sobre um livro”.

O ilustre desconhecido

O livro preferido dos presos, neste projeto, foi “Homens em Guerra”, do autor húngaro Andreas Latzko.  A obra foi um dos primeiros títulos lançados pela Carambaia, e narra a percepção de um autor que participou da Primeira Guerra Mundial.

Depois dela, Elisande Quintino narra que foi “convocada” pelos próprios detentos para analisar “O menino do pijama listrado”, de John Boyne, outro livro com temática de guerra, desta vez passado na Segunda Guerra Mundial.

Fabiano Curi, diretor-executivo da Carambaia, conta que a seleção dos livros para o projeto levou em conta grandes temas universais que poderiam ressoar com a experiência pessoal dos presidiários, como o isolamento e a violência.

Depois do contato com a leitura e das aulas para produção de resenhas, no projeto coordenado por Quintino, vários detentos já vieram procurá-la pedindo ajuda para publicarem suas histórias de vida, contadas por eles mesmos.

Leia trechos das resenhas e assista ao documentário:

Corações cicatrizados, de Max Blecher

Tudo acontece quando o autor com o pseudônimo de Emanuel vai para uma cidade chamada Berck, no litoral do Canal da Mancha, para um tratamento de longo prazo (…). Não é uma leitura agradável, pois são fatos muito tristes e o autor nos coloca dentro de sua enfermidade, no momento em que ele não pode mais ficar em pé. Nesta parte a editora nos surpreende, pois coloca o livro na posição horizontal, nos dando uma experiência desafiadora.

Claudinei Lemos de Oliveira

Memórias de um empregado, de Federigo Tozzi

Cada vez que assistia a um casal se despedindo na plataforma dos vagões, relembrava a despedida do seu grande amor (…), o qual escreve enormes cartas, dia após dia. Uma obra sublime. Sua escrita é perfeita. E Federigo Tozzi é um autor que merece estar nomeado entre os melhores.

Reginaldo Wuilian Tomazela

Homens em guerra, de Andreas Latzko

O vencedor de uma guerra não luta, comanda (…), e este não teme nada exceto uma coisa: o fim da guerra (…). Os horrores da guerra, a saudade da família, os traumas dos sobreviventes, quem perde e quem ganha em um conflito sob a ótica de quem esteve lá. (…) Recomendo para todos que têm estômago para ler e aprender sobre realidade, visto que muito do que é relatado no livro não difere muito do que é relatado no nosso noticiário atual.

Wilson de Souza Jr

 

Veja o mini documentário produzido para o projeto: