Presidente da Enel sobre Goiás: Queremos diálogo, mas tribunal é opção

O principal executivo da distribuidora Enel Brasil fala à EXAME sobre a crise com o governo de Goiás e uma eventual batalha jurídica

São Paulo — O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), entrou em guerra aberta com a distribuidora de energia Enel. Em 2016, a companhia italiana foi a única interessada na concessão da antiga distribuidora Celg, que tinha os piores resultados de todo o Brasil. De lá para cá, a empresa investiu cerca de 2 bilhões de reais para melhorar a infraestrutura e os índices de qualidade de fornecimento de energia.

Porém, para o governador de Goiás, os resultados não foram suficientes. A meta de Caiado, agora, é tirar a Enel do comando e retomar o controle da distribuidora. A Enel, no entanto, não está disposta a desistir da concessão. “Preferimos o diálogo. Mas se for para defender os nossos direitos, iremos para os tribunais”, diz o italiano Nicola Cotugno, presidente da Enel Brasil.

Em entrevista à EXAME, Cotugno defende os resultados conquistados desde o início da concessão. Mas admite que precisa melhorar. “É um processo contínuo de melhora. É um trabalho de anos e não de meses”, diz ele.
Para o executivo, nem esse caso abala a confiança da companhia italiana com os investimentos no Brasil. Não à toa, segundo Cotugno, a empresa anunciou que investirá 24 bilhões de reais nos próximos três anos. Confira, a seguir, a sua entrevista.

Como começou a disputa com o governo de Goiás? E como o senhor definiria o atual momento?

O ponto de partida é importante. Compramos uma empresa que era considerada a pior do Brasil pela ANEEL por vários anos. Era uma distribuidora em que o investimento não cobria nem a depreciação. Então, a empresa estava perdendo valor. A decisão foi federalizá-la e privatizar. No primeiro leilão ninguém ofereceu propostas, pois era um ativo muito difícil. No segundo, a Enel foi a única empresa que se apresentou e ofereceu algo muito próximo do valor mínimo. Compramos com a intenção de valorizá-lo, obviamente. Mas uma mudança leva tempo. Começamos a investir cerca de 800 milhões de reais por ano para melhorar a qualidade do serviço. São três vezes mais do que os aportes feitos anteriormente. E começamos a reduzir o tamanho dos problemas. A interrupção de energia por ano, por exemplo, caiu 45%, para 23,5 horas.

Mas o índice de interrupção ainda é o dobro da média brasileira.

Correto, mas antes era quatro vezes a média brasileira. Temos as metas nos contratos de concessão. No contrato, por exemplo, até agora precisaríamos ter baixado as interrupções para 30 horas. Estamos bem abaixo da meta. Mas sabemos que é preciso melhorá-la. A questão é que são 220 000 quilômetros de rede, fora todos os equipamentos. É um trabalho de anos e não de meses.

Em quanto tempo a Enel acredita que será possível alcançar a média brasileira?

É um processo contínuo. Em São Paulo (a empresa comprou 73% da Eletropaulo em 2018), por exemplo, temos indicadores de excelência. Isso não significa que não vamos investir para melhorar a rede. Por isso, temos metas regulatórias. Em Goiás, estamos aportando valores muito mais relevantes do que no ano passado e apresentando resultados muito importantes e bem-sucedidos.

Então, por que a relação com o governo se deteriorou tanto?

Há críticas muito pesadas em relação à performance. Porém, ela está muito melhor do que nos anos anteriores. E essa discussão tem que ser feita com dados certos. Temos reguladores que estão avaliando os resultados segundo os planos. Mas aí virou uma discussão política e midiática. E esse clima tem afetado a percepção dos clientes. Não queremos entrar em uma luta com o governo, mas não podemos esquecer as avaliações qualitativas que mostram que há uma melhora. Estão falando que a tarifa de Goiás é uma das mais altas do país, mas é abaixo da média de todo o Brasil. Também comentaram que estamos demitindo pessoas, mas contratamos 1 800 funcionários, um aumento de 20% da força de trabalho. Também estamos treinando centenas de eletricistas juntamente com o SENAI.

Como que está o diálogo com o governo federal sobre esse caso?

O próprio ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, falou que a anulação da concessão é inconstitucional. Estamos abertos a conversar com o poder concedente, que é o Governo Federal, e o estado de Goiás. A empresa está certa de que está cumprindo com as obrigações.

Ao mesmo tempo, o governo de Goiás entrou com uma representação na Procuradoria Geral da República. Também há uma CPI correndo na Assembleia Legislativa do estado. O quanto isso impacta a empresa?

A empresa está disposta a manifestar e expressar as razões pelas quais acredita que essas ações não têm fundamento. Vamos enfrentar o processo jurídico para esclarecer isso. Obviamente, preferimos o diálogo. Mas se para defender o direito, precisaremos ir para o tribunal, nós iremos. Em agosto, firmamos uma parceria assinando um termo adicional para acelerar os projetos e iremos aumentar 25% da capacidade do estado nos próximos três anos. É um plano bem agressivo. Começamos obras que entrarão em funcionamento até lá. Vamos suprir a demanda reprimida que tinha antes em muito pouco tempo.

O governador Caiado disse à EXAME que o processo de privatização foi uma negociata. Afirmou ainda que se a Enel tivesse um setor de compliance jamais teria comprado a Celg. Qual é a sua opinião sobre essas declarações?

Essas declarações não têm fundamento. Foi um leilão público e gerenciado pelo Ministério das Minas e Energia. Achar que isso não é correto é um ataque ao país. Acreditamos lá atrás e seguimos acreditando no Brasil. Vamos investir 24 bilhões de reais nos próximos três anos. Queremos seguir trabalhando e melhorar o sistema elétrico de Goiás e não vamos diminuir os nossos aportes na região. Os resultados serão a melhor maneira de mostrar que o trabalho é bem feito.

Os investidores estrangeiros estão preocupados com essa situação? E a matriz?

A Enel acredita totalmente no Brasil. Como eu disse, anunciamos um investimento bilionário. É claro que desse caso específico, é uma percepção distinta. É uma pena pensar que teremos que ir para tribunais quando estamos conscientes de que estamos fazendo um bom trabalho. Quanto ao mercado, o tema da segurança jurídica é uma das grandes preocupações dos investidores de virem para o Brasil.

Ainda é possível resolver essa questão fora dos tribunais?

Assinamos esse termo de compromisso. Agora, depende do governo abrir a porta para discutir o problema de um jeito mais objetivo. Mas esse é o último recurso que temos e que tem muito valor. Estamos prontos para defender tudo aquilo que fizemos.

O governador diz que todas as decisões são lentas e tomadas de Roma, em alusão à matriz da Enel. Como o senhor enxerga essa crítica?

Somos parte de um grupo italiano e algumas decisões precisam ser tomadas em conjunto. As decisões operacionais e específicas de Goiás são tomadas lá. Obviamente, temos uma coordenação global, mas que não afeta a operação. As decisões estratégias que são tomadas lá fogem da realidade de Goiás. Não existe uma descoordenação. Muitos também falam que somos estatais, mas é uma empresa que tem apenas 22% de controle estatal. Somos uma corporation e a maior distribuidora privada do mundo.

Qual é o impacto dessa crise na operação da Enel no Brasil?

Isso está impactando na reputação da empresa e na percepção dos clientes. Eles não estão percebendo a real melhora que estamos trazendo para o sistema. Por isso, precisamos trabalhar para ter uma aproximação com o cliente ainda mais intensa para explicar tudo o que fizemos e o que vamos fazer. Temos que mostrar as obras que estão sendo feitas e o que estão

Vocês estão interessados em outras concessões no Brasil, mesmo com todos os problemas que estão acontecendo?

Seguimos com um grande interesse no Brasil. Estamos de olho em outras oportunidades que podem surgir. Agora, no entanto, não temos nenhum plano específico.