Precisamos ver Amazônia pegar fogo para agir?, questiona brasileira na ONU

Apesar do Brasil não participar da Cúpula do Clima, ativista Paloma Costa, estudante da Universidade de Brasília, colocou incêndios na Amazônia em debate

Apesar de o governo brasileiro ter ficado de fora das declarações oficiais de autoridades durante a Cúpula do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), uma vez que não apresentou nenhuma proposta de aumentar suas ambições no combate às mudanças climáticas, uma jovem brasileira teve a chance de se manifestar nesta segunda-feira, 23. E em um espaço de honra.

Após a abertura oficial da cúpula pelo secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, a ativista Paloma Costa, de 27 anos, estudante de Direito da Universidade de Brasília, coordenadora de clima da ONG Engajamundo, que só trabalha com jovens, se dirigiu aos líderes mundiais ao lado da mais popular das jovens ambientalistas, a sueca Greta Thunberg.

Paloma, que também é membro do Instituto Socioambiental, lembrou em sua fala o líder indígena Ailton Krenak. “Os povos indígenas vêm resistindo há anos. E nós? Vamos ser capazes de resistir?”, indagou sobre a capacidade da humanidade de se adaptar às transformações que o planeta vem sofrendo.

Mas, disse ela, usando brincos indígenas (para lembrar aqueles que quase não estão presentes na ONU), a juventude está mobilizada: “Não vamos trabalhar com empresas que desmatam, não vamos ficar quietos. Já mudamos nossos hábitos, mas vocês não estão seguindo a gente”, desafiou Paloma.

Em seu discurso, a ativista lembrou que o mundo assistiu horrorizado às queimadas da Amazônia. Segundo Paloma, todos oraram pela floresta e pelos povos indígenas, mas faltam ainda ações concretas.

“Precisamos ver a Amazônia pegando fogo para agir? Desde a minha primeira greve climática, meio bilhão de árvores foram destruídas na Amazônia, e as pessoas me perguntam se eu tenho medo de defender a floresta. Os defensores do meio ambiente estão em risco, mas eu não tenho medo. Eu tenho medo de morrer por causa da crise do clima.”

Educadora ambiental e cicloativista, Paloma tem um projeto chamado Ciclimáticos no Brasil, por meio do qual ela já percorreu, de bicicleta, mais de 500 km por comunidades já afetadas pela mudança do clima, como populações indígenas.

Como parte da Engajamundo, ela ajudou a organizar a cúpula jovem do clima, que ocorreu paralelamente à cúpula principal, e foi escolhida pessoalmente pelo secretário-geral da ONU para abrir o evento. “Acredito que fui escolhida, considerando esse momento da crise ambiental do Brasil, justamente por ser brasileira, mulher e trabalhar com povos indígenas”, disse ao Estado depois de falar à assembleia.

Paloma contou que buscou na própria experiência uma forma de conseguir emocionar os líderes mundiais. “Sei que há índios aqui neste momento, mas quantos são? Cadê eles nos espaços de decisão? Cadê a gente? O governo brasileiro disse que não vai revisar suas metas (de redução de emissões de gases de efeito estufa). Mas nós estamos no Brasil, fazendo nossa parte, não dando desculpas”, disse a ativista.

Ela, que vem trabalhando em projetos de educação climática para crianças e adolescentes, disse que tenta levar ao Ministério da Educação (MEC) uma proposta de incluir a metodologia no currículo. “Nossos líderes vêm aqui e não encaram de forma séria a questão climática. Como se já não estivesse afetando a gente”, afirmou. Ela lembrou que, no caso do Brasil, falar em floresta e em clima são coisas conectadas. “Pensar em uma economia florestal vai ajudar na questão climática”, disse Paloma. “Manter a floresta em pé é que vai garantir a soberania”, afirmou.

Ao lado de Paloma, a sueca Greta Thunberg também discursou. “Como vocês ousam?”, perguntou, sobre a inação dos países em reduzir emissões de gases de efeito estufa. “Isso tudo está errado, eu não deveria estar aqui, deveria estar na escola do outro lado do oceano. Vocês roubaram os meus sonhos e minha infância com palavras vazias”, disse.

Greta começou em agosto do ano passado um movimento silencioso, faltando às aulas nas sextas-feiras para pedir ao governo sueco ações mais efetivas. Seus atos influenciaram jovens em todo o mundo, que engrossaram as chamadas “Fridays for Future”.