Por segurança na Copa, Brasil busca expertise dos EUA

País quer evitar uma repetição dos protestos violentos que eclodiram durante a Copa das Confederações

Rio de Janeiro/Brasília – Os EUA estão assumindo o papel de liderança para ajudar o Brasil a treinar forças de segurança para evitar uma repetição dos protestos violentos que eclodiram durante um torneio de aquecimento para a Copa do Mundo, no ano passado.

Os EUA forneceram e pagaram 39 programas para assuntos como controle de multidões, segurança marítima e controle de fronteira, disse William Marcel Murad, diretor de projetos especiais da Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos do Ministério da Justiça, que está coordenando a segurança para o evento esportivo mais assistido do mundo.

A segurança entrou no foco desde a Copa das Confederações, no ano passado, que desencadeou as maiores manifestações em uma geração no maior país da América do Sul.

Durante o evento de aquecimento para a Copa do Mundo, a polícia usou gás lacrimogêneo, balas de borracha e granadas de percussão ao enfrentar os manifestantes em cada uma das cidades que recebeu jogos.

“Temos esse curso que tenta capacitar todas as forças policiais para lidarem melhor com protestos violentos”, disse Murad.

Canadá, Reino Unido, França, Alemanha e Japão também forneceram assistência significativa ao Brasil, que reuniu uma lista do que cada país precisa oferecer em termos de treinamento de segurança.

O Brasil está obtendo ajuda dos EUA mesmo após a presidente Dilma Rousseff cancelar uma visita de Estado a Washington, em setembro, sob a alegação de que os EUA espionaram autoridades brasileiras.

O Brasil planeja empregar 150.000 militares e policiais para o torneio com duração de um mês, que começa em 12 de junho. Os jogos de futebol serão realizados em 12 cidades, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a Manaus, capital do Amazonas.

Treinamento marítimo

Com diversas cidades-sede ao longo da costa do Brasil e em Manaus, à margem do Rio Amazonas, o curso americano sobre terrorismo marítimo mostrou-se particularmente útil, disse Murad.

A Copa do Mundo será o maior evento esportivo já realizado no Brasil e dois anos depois o Rio de Janeiro se tornará a primeira cidade sul-americana a receber uma Olimpíada.

A assessoria de imprensa da Embaixada dos EUA em Brasília confirmou, via e-mail, sem dar mais detalhes, que está fornecendo ao país sede treinamento para condução da Copa do Mundo.

Murad disse que todo o treinamento é organizado e financiado pelos EUA, que realizou programas desde 2012. Ele disse que o Brasil não possui informações sobre quem oferece os cursos.

“Nossa maior parceira para a Copa do Mundo, neste momento, é a Embaixada dos EUA”, disse Murad. “Eles tinham maior disponibilidade e ofereceram mais cursos do que os outros países”.

Dilma tem previsão de receber o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, em 17 de junho, depois que Biden comparecer ao jogo entre EUA e Gana, em um sinal de que as tensões podem estar diminuindo.

“Eu não tenho que pensar nisso”, disse Murad, sobre o relacionamento do Brasil com os EUA. “Trata-se de outro nível de governo. Nosso foco é técnico”.

Treinamento dos EUA

As autoridades brasileiras foram criticadas pela mídia do país por enviar 24 oficiais de polícia para um exercício na Carolina do Norte conduzido pela Academi, uma empresa de capital fechado anteriormente chamada Black Water, que forneceu segurança para os EUA durante a Guerra do Iraque.

Alguns brasileiros continuam desconfiados em relação aos EUA devido a suas conexões com a ditadura militar que governou o país entre 1964 e 1985, disse David Fleischer, professor de Ciências Políticas da Universidade de Brasília.

“Isso deixa um gosto ruim na boca do brasileiro porque nos anos 60 e 70 houve muitos treinamentos dados, não apenas pelos EUA, mas também pelo Reino Unido e pela França”, disse Fleischer, em entrevista por telefone.