Polícia apura se racha de facções levou a massacre em Manaus

Investigação apura se o fim de uma aliança entre a Família do Norte e o Comando Vermelho, do Rio, tem relação com o massacre que deixou 55 mortos

São Paulo — Autoridades policiais do Amazonas investigam se o fim de uma aliança entre as organizações criminosas Família do Norte (FDN) e Comando Vermelho (CV), do Rio, tem relação com o massacre que deixou 55 mortos em quatro unidades prisionais do Amazonas esta semana.

As execuções teriam sido causadas por um racha interno, entre duas alas da FDN. Ao mesmo tempo, a Família do Norte e o CV disputam pontos de venda de droga, em Manaus e no interior do Estado, além de uma das maiores rotas de escoamento de cocaína no País.

A FDN domina o tráfico no Rio Solimões, que abastece as Regiões Norte e Nordeste com cocaína do Peru e da Colômbia. Em 2015, a Polícia Federal identificou que FDN e CV haviam se aliado na região para barrar a expansão do Primeiro Comando da Capital (PCC) na Amazônia.

A rivalidade entre as três maiores facções criminosas do País – o PCC, de um lado, e a FDN e o CV de outro – foi apontada como motivação para a onda de assassinatos nos presídios do Amazonas em 2017, quando houve 56 mortes. Na época, a ofensiva da FDN foi contra detentos do PCC.

Mas a parceria de Comando Vermelho e da Família do Norte teve fim em 2018 e, segundo o Ministério Público do Amazonas, as facções se mantêm em guerra permanente no Estado. O governador, Wilson Lima (PSC), disse que o envolvimento do CV na disputa interna da FDN é investigado. “É uma situação que estamos levantando. O que há, de fato, é que um grupo criminoso rachou.”

As mortes desta semana são atribuídas a um ataque de presos alinhados ao traficante e um dos líderes da FDN João Pinto Carioca, o João Branco, contra membros da Família do Norte leais a José Roberto Barbosa, o Zé Roberto da Compensa, outro chefe da facção amazonense. A polícia apura se Branco teria se realinhado ao CV para isolar Compensa da liderança do grupo. Branco e Compensa estão em presídios federais.

Os ataques foram precedidos, há 15 dias, pela Operação Anúbis, que prendeu quatro membros do CV em Manaus. Eles são acusados de matar três jovens, também filiados à facção carioca, por fornecer drogas à FDN. Um dos mandados de prisão tinha como alvo um preso do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), onde 19 morreram nesta semana.

O porta-voz da Presidência da República, Otávio Rêgo Barros, destacou que a inteligência do governo não detectou possibilidade de que o confronto migre dos presídios para as ruas ou ocorra em outros Estados. Sérgio Moro, ministro da Justiça e da Segurança, disse nesta terça-feira, 28, em evento em Portugal, que uma briga de facções “pode ocorrer em qualquer lugar do mundo, embora não devesse”.

Transferência

Um total de 29 presos envolvidos nas chacinas deve ser transferido para penitenciárias federais, a pedido do Estado. Até esta terça, a transferência de 9 presos havia sido feita, e a de mais 20, confirmada.

Nesta terça-feira, o governador pediu a Moro a permanência da Força Nacional no Amazonas por mais um ano. O Estado ainda recebeu 20 homens da Força-tarefa de Intervenção Penitenciária, de um total de 100. Eles treinarão agentes carcerários para emergências.