Perillo tentará provar à CPI que não negociou com Cachoeira

O depoimento do tucano também deve aumentar a intensidade do embate entre PT e PSDB na comissão

Brasília – O governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), vai tentar provar à CPI do Cachoeira na terça-feira, num dos depoimentos mais aguardados pela comissão desde abril, que não fez negócios com o empresário Carlinhos Cachoeira, preso há mais de três meses acusado de chefiar uma rede de jogos ilegais.

O depoimento do tucano também deve aumentar a intensidade do embate entre PT e PSDB na comissão, já que nas últimas semanas a CPI mista têm aprofundado suas investigações sobre a venda de um imóvel de Perillo no condomínio Alphaville, em Goiânia, numa estratégia traçada pelo relator, deputado Odair Cunha (PT-MG), e por petistas para encurralar o goiano.

Numa reunião na tarde desta segunda-feira, a bancada do PT que integra a comissão se reuniu e definiu que focará sua atuação em perguntas que possam revelar a relação do governador do PSDB com Cachoeira.

A CPI mista foi criada justamente para investigar as relações de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com agentes públicos e privados. Esse é o segundo político de destaque ouvido pela CPI. O primeiro foi o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), que se manteve calado e enfrenta processo no Conselho de Ética do Senado e pode ser cassado por manter estreita relação com o empresário.


“Nós vamos manter nosso foco na organização criminosa (de Cachoeira). O Perillo tem que explicar o que já saiu contra ele. A cota de indicações (dele) no governo de Goiás, a venda da casa, o controle que o Cachoeira exercia no Detran. Essas acusações que a Polícia Federal fez”, disse o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) à Reuters.

Mas Perillo está há dias preparando explicações para todas essas questões, segundo um aliado tucano que pediu para não ter seu nome revelado.

O governador levará à CPI cópias dos cheques que recebeu pelo imóvel e comprovantes bancários mostrando que eles foram depositados e compensados na sua conta. Além de comprovar sua tese sobre como se deu o negócio, a estratégia também serve para se antecipar a um pedido do relator para quebrar o sigilo bancário, fiscal e telefônico do tucano.

Perillo vai contradizer ainda a versão apresentada na semana passada pelo empresário goiano Walter Paulo Santiago, que afirmou na CPI que comprou o imóvel do governador por 1,4 milhão de reais e pagou em dinheiro vivo, por intermédio do ex-vereador do PSDB, Wladimir Garcez.

O governador disse que nunca recebeu o dinheiro e que na verdade Garcez é que revendeu o imóvel a Santiago. Perillo sustenta que fechou negócio diretamente com Garcez.

Quando foi preso, em fevereiro, Cachoeira residia nessa casa, o que alimenta a suspeita da CPI e da Polícia Federal de que o governador tenta encobrir a venda para o alvo das investigações parlamentares. A PF inclusive diz que os cheques repassados a Perillo eram de um sobrinho de Cachoeira. Até agora, a CPI ouviu pelo menos três versões diferentes de depoentes para essa negociação e pretende dirimir suas dúvidas na terça.

Esse é a expectativa inclusive do líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR). “Espero que amanhã (terça) tenhamos o fim desse capítulo, porque temos outros mais importantes pela frente”, disse à Reuters, acrescentando que aguarda explicações do governador aliado e que isso não é fácil “para ninguém” que fica nessa exposição política.

GRAMPO

Perillo também vai reafirmar que não tem proximidade política, empresarial ou pessoal com Cachoeira, segundo o tucano que falou sob condição de anonimato. “Ele vai argumentar que se a PF investigou Cachoeira por tanto tempo e encontrou apenas um telefonema entre os dois. É sinal de que eles não tem qualquer relação de proximidade”, disse o tucano.

Entre os grampos telefônicos feitos pela PF, há uma conversa telefônica entre os dois em que Perillo deseja “feliz aniversário” a Cachoeira.

Hospedado desde domingo em Brasília, Perillo tem intensificado contatos políticos com parlamentares do PSDB e de outras legendas, inclusive do PT. Nas conversas tenta prestar explicações antes do depoimento e faz elogios ao governo Dilma, num gesto para evitar um ataque mais forte dos partidos da base aliada do governo.

O tucano vai evitar um embate político com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de estar convencido de que virou alvo da CPI a pedido do petista. Mas Perillo deve dizer que é alvo de disputa política e, por isso, foi convocado.

Os petistas também têm dito que não entrarão nesse debate, mas não descartaram na reunião desta segunda que se necessário vão defender Lula.