Paulo Guedes e o candidato Bolsonaro são “dupla inesperada”

Ao anunciar conversas com o doutor pela Universidade de Chicago, o berço do liberalismo, o deputado reforça dúvidas sobre sua campanha

O deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) vinha batendo à porta de economistas liberais para sustentar sua campanha à Presidência da República há pelo menos dois meses. Outrora crítico da abertura de mercado e de planos econômicos liberais, ele deu uma guinada em favor do eleitorado. Seus 4,85 milhões de seguidores no Facebook são entusiastas da redução do estado e da privatização de estatais como uma das formas de combate à corrupção. Bolsonaro procurava alguém que encampasse essa agenda e lhe desse credibilidade. Na última segunda-feira, durante evento da revista VEJA, anunciou seu tutor: o economista Paulo Guedes.

Aos 68 anos, Guedes é doutor em economia pela Universidade de Chicago, maior referência no campo liberal do pensamento econômico, e tem carreira fundamentada no setor privado. Fundador e ex-sócio do Banco Pactual — hoje BTG Pactual — também acumula a fundação e controle do grupo BR Investimentos, que faz parte da Bozano Investimentos. Procurado, o economista não deu entrevista, mas confirmou a aproximação com Bolsonaro. “Quer saber se a ordem encontrou o progresso? Sim, procede. Bolsonaro falou a verdade. Conversamos duas vezes”, diz Guedes.

Após a revelação do nome de Guedes como possível ministro da Fazenda, o deputado federal voltou a mostrar sua polêmica visão de país no evento da revista VEJA. Criticou publicamente a abertura de mercados, com ênfase na entrada de investidores chineses no Brasil, dizendo que os asiáticos estão “comprando o Brasil” em vez de fazer negócios. Mais uma vez jogando para o populismo, defendeu a atuação dos 20 policiais violentos identificados por reportagem do jornal O Globo pelo envolvidos na morte de 10% do total de mortes entre 2010 e 2015. “Policial que não mata não é policial”, disse. Em outro momento, perguntou: “Se o Kim Jong-Un [ditador norte-coreano] lançasse uma bomba H em Brasília e só atingisse o Parlamento, você acha que alguém iria chorar?”. Bolsonaro, não custa lembrar, está lá há sete mandatos.

Em ambas as declarações, foi aplaudido. A importância da claque para Bolsonaro bota em xeque seu ímpeto para agendas impopulares, caso chegue ao Palácio do Planalto. A declaração da bomba H mina ainda mais sua influência já restrita no Legislativo. O protecionismo em relação à China, principal parceiro comercial do Brasil, faz torcer o nariz de liberais. Paulo Guedes, contudo, ao que indicam os sinais, topou participar de alguma forma do projeto de Bolsonaro.

A distância de visões faz de Bolsonaro-Guedes uma “dupla inesperada”. O termo é o mesmo usado pelo ex-ministro Thomas Traumann para definir um recente duo de presidente e ministro da Fazenda: o Dilma-Levy. As semelhanças não param por aí.

A ex-presidente Dilma Rousseff é economista fundamentada na escola desenvolvimentista, caracterizada pela intervenção de um estado forte para controle da políticas econômicas. Chamado de “nacionalista”, Bolsonaro tenta gradualmente se afastar dessa vertente. O primeiro passo foi a carta aos brasileiros, em que defende o Banco Central autônomo e o “tripé macroeconômico”. Dias antes,passou aperto em entrevista à RedeTV! ao parecer não saber que a expressão significava os três pilares da economia desde 1999 — centrada na política de câmbio flutuante, em metas fiscais e de inflação.

Assim como o deputado, ao convidar o economista Joaquim Levy — também cria da Universidade de Chicago — para o Ministério da Fazenda em 2015, a ex-presidente também fez uma guinada em sua agenda tradicional em busca de sanar a crise econômica que dava os primeiros sinais no início de seu segundo mandato. Desde que Levy foi anunciado, as previsões eram de uma relação tensa com a chefe. “Vai haver uma relação instável porque são dois economistas que pensam de maneira diferente”, disse o economista Felipe Salto em uma previsão ao jornal O Globo em 2014. “O conflito será a chave da questão para que se possa antecipar o que vai acontecer com o resultado fiscal. Mas não será fácil”. O resultado se conhece: Levy durou apenas 11 meses no cargo e foi substituído por Nelson Barbosa.

A principal diferença entre Dilma e Bolsonaro nesta questão é a aderência da agenda liberal no processo eleitoral. Nas eleições de 2014, quando a sociedade sentia de leve a crise, mas iniciava uma insatisfação com as estatais na esteira da Operação Lava-Jato, ganhou a agenda do PT, contrária a privatizações e ajuste fiscal recessivo. Hoje, a situação é contrária. Há entendimento de que a reforma da Previdência é urgente para a recuperação da economia e as privatizações são uma alternativa para ganhos de produtividade e para tirar peso do orçamento da União.

Ainda assim, o prognóstico é de desconfiança de que o “namoro”, como chamou o candidato, possa dar certo. “Paulo tem ideias muito firmes sobre o que fazer em uma possível gestão da economia e ele dificilmente aguentaria o tranco da decepção que Bolsonaro imprimiria pela falta de trânsito no Congresso. A união duraria meses”, afirma o ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria, Maílson da Nóbrega. “Mais: não tem nenhum caso no Brasil de um ministro da Fazenda inteiramente inexperiente, que nunca trabalhou no setor público. Menos ainda associado a um presidente sem preparo. Seria um governo que nasceria em crise”.

Para o também ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero, a provável dupla Bolsonaro-Guedes não terá força para bater candidaturas mais tradicionais a partir do momento que efeitos da recuperação da economia se refletirem na vida do brasileiro, “em meados de abril ou maio”. “Não levo a sério essas pílulas no quadro geral da campanha”, afirma Ricupero. “A campanha, quando começar de fato, vai apresentar um panorama diferente da situação do país. A recuperação da economia e a disposição para articular uma candidatura de centro vai se fazer sentir”.

A impressão no mundo político é parecida, dos tradicionais aos pré-candidatos mais alternativos. No mesmo evento de VEJA, a ex-senadora Marina Silva (Rede) afirmou que Bolsonaro depende do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para se “capitalizar” e vice-versa. Segundo estudo da consultoria Bites, especializada em monitoramento de redes sociais, Bolsonaro tira o máximo da reação de seu público sempre que se apresenta como “anti-Lula” e em debates polêmicos de cunho conservador.

A dúvida é quanto mais Bolsonaro precisará mudar seu discurso e suas propostas para chegar a um público mais amplo, sem perder seus eleitores cativos. O risco de se aproximar de nomes influentes, mas com visão de mundo diferente da sua, como o de Paulo Guedes, não é só criar um governo de difícil gestão. É criar uma chapa esquizofrênica. Bolsonaro, há 10 meses das eleições, é um candidato em construção.

Comentários

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  1. Paulo Cezar Santana

    So vejo que se vai por um lado, é criticado, se vai para o outro é criticado!!!

  2. Não adianta mais criticar o Capitão…Agora já é!

  3. Hermes Sursena

    Voces nao tem VERGONHA nessa fuça nao? Perseguem o candidato que o povo quer, faça ele o que fizer! Voces sao RIDICULOS e essa turminha de “especialistas” deveriam estar PRESOS por terem compactuado tanto tempo com o ROUBO à nação brasileira!

  4. Já entendi vocês da revista preferem o Lula sinovial ou todos que tem rabo preso no caso todos envolvidos em corrupção… só pra não perder o costume vocês podem chamar Bolssonaro de tudo menos deque mesmo !? Lembrando da entrevista de Fernandinho Beira-Mar ao Cabrini do SBT oque ele disse mesmo sobre Bolssonaro !?

  5. Só pra refrescar a memória de vocês…qual foi uma das principais promessas de campanha se Lula se ele fosse Presidente !? Vamos eu vou lembrar vocês (transposição do Rio São Francisco)isso estou do primeiro mandato do (Lula desgustador profissional de cachaça) porquê seria chamá-lo de cachaceiro pois não gostaria de ofender a classe.

  6. Era bom a operação lava-jato se estender também aos meios de comunicação que não comunicam simplesmente mais atacam uns e defende outros cadê a imparcialidade …o problema da imprensa é essa … insistir nisso acabou o tempo da ignorância …o lulismo estampado na maioria se não em todas matérias que publicam…chega o povo não é gado somos seres pensantes nos respeitem.

  7. Não importa a verdade é dim o interesse de cada “empresa” a Abril, globo.Exame,isto é…certo amigo!!!

  8. Paulo Cezar Barbosa

    Está na hora de mostrar para o Brasil, a verdade absoluta … antes de vocês da imprensa vermelha ficarem dia após dia apresentando matérias para desqualificar o Dep. Jair Bolsonaro… façam uma reportagem sobre como ele é recepcionado em todos os aeroportos do Brasil e como ele é assediado por toda a sua legião de fans … (espontâneos …) em todos os lugares á onde chega !!!! Isso nenhum desses políticos atuais conseguiram … pois o povo já decidiu o se presidente, só vocês da imprensa é que não querem aceitar !! Quanto mais vocês baterem no Deputado… mais o povo irá á favor dele pois todos sabem qual é á vertente á qual a imprensa é devota !!!

  9. Paulo Cezar Barbosa

    Se querem prestar grande ajuda ao povo do Brasil …. façam uma reportagem seria sobre uma fraude chamada ( smart Magic …) vocês sabem o que estou falando não é ….. imprensa ” brasileira” tenham coragem e digam á verdade para o povo ! Fraude… este é o nome em questão ….

  10. Paulo Cezar Barbosa

    O nome é (smart Matic)…. essa é a grande fraude.