Paulinho da Força, o pragmático

Em meio ao show de horrores que tomou conta da Câmara nos dias de votação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, o deputado paulista Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (SD-SP), conseguiu se destacar. No dia anterior à votação decisiva, subiu na tribuna e parodiou a música Para não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré. Segurando uma placa que dizia “impeachment já”, cantou desafinado: “Dilma vá embora que o Brasil não quer você. Leve o Lula junto e os vagabundos do PT”. Atrás dele, seu companheiro de partido, o deputado paraense Wladimir Costa, fez surgir uma chuva de papéis picados. Esse é Paulinho da Força.

A combinação de eventos que levou Paulinho, um sindicalista que se diz de centro-esquerda a se tornar um dos principais opositores do governo petista é para corações fortes. No caminho, ele virou um dos principais aliados do ex-presidente da Câmara Eduardo. “Não sou amigo do Eduardo Cunha, nos aproximamos por afinidades nas pautas em votação”, diz Paulinho.

Nesta semana, Paulinho foi a principal voz na defesa de Cunha. Na manhã de quinta-feira, quando o ministro Teori Zavascki decidiu o afastamento do deputado, Paulinho o visitou. Também articulou o documento de apoio a Cunha com a assinatura de líderes de seis partidos aliados. O difícil é saber até onde vai tamanha fidelidade. “O Paulinho é pragmático. Ajudou muito o Cunha porque tinha seus interesses, mas como a situação se agrava a cada dia, acho que o ele terá seus limites”, diz o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ). “Os colegas de Câmara ajudam a carregar o caixão dos amigos, mas ninguém pula na cova junto”.

A proximidade de Cunha e a força que demonstrou na luta pelo impeachment de Dilma fizeram com que o nome de Paulinho se tornasse um dos mais populares na Câmara nos últimos meses. “Ele se tornou uma pessoa forte na política em meio a esse debate. Apostou o cacife político para ter mais peso na balança da Câmara”, diz João Carlos Gonçalves, o Juruna, secretário-geral da Força Sindical e aliado histórico de Paulinho. “Ele é pragmático. Se fortalece para poder exigir no futuro”, diz Juruna. Aparentemente, vem dando certo.

Paulinho é presidente da Força Sindical, a segunda maior central sindical do país, desde 2000. A maior é Central Única dos Trabalhadores, a CUT, uma das bases de fundação do PT e até hoje um dos pilares do partido. Com a possível saída da legenda do poder, Paulinho pretende se colocar como a principal interlocução entre os trabalhadores e o Planalto. Ele chegou a ser cogitado como próximo ministro do Trabalho em um possível governo de Michel Temer, mas negou. “Eu não vou ser ministro”, disse a EXAME. Mesmo assim, o cargo deve ser ocupado pelo Solidariedade, partido do qual Paulinho é presidente. Nas últimas semanas, foram incontáveis as visitas de Paulinho ao Palácio do Jaburu.

A guinada

Embora tenha apoiado a candidatura de Dilma em 2010, não demorou a que as relações entre Paulinho e a presidente azedassem. “Só havia votado no PT em 1982, quando Lula foi candidato ao governo de São Paulo. Votei em Dilma em 2010 e em janeiro de 2011 começamos nossas desavenças”, diz o deputado.

O apoio da Força Sindical à candidatura de Dilma Rousseff em 2010 foi decidido em uma reunião em um bairro da Zona Leste de São Paulo antes de um comício no dia 15 de outubro daquele ano. De acordo com um dos presentes na negociação, Dilma prometeu que aposentados que ganhavam acima do salário mínimo teriam reajuste real em seus vencimentos caso ela assumisse o governo – até então, apenas os que ganhavam salário mínimo vinham tendo esse benefício.

Dois dias depois de assumir o governo, o reajuste anunciado para os aposentados foi pouco acima do INPC – que mede a inflação para as camadas mais pobres da população. A Força Sindical, que agrega o maior sindicato de aposentados do país, com mais de 350.000 filiados, não ficou nada feliz com a notícia. Resultado: com menos de 10 dias de governo, depois de uma reunião das centrais sindicais com Dilma no Planalto, Paulinho bandeou.

Nos meandros de Brasília, obviamente nem tudo é preto ou branco dessa forma. O rompimento, que começou a ganhar corpo naquela reunião, virou realidade na medida em que o deputado foi se sentido desprestigiado. “Paulinho só rompeu com o PT após perder cadeiras em conselhos importantes, como no BNDES”, diz o deputado Paulo Martins, do PSDB do Paraná. O episódio do BNDES aconteceu em 2008. Por meio de um acordo não escrito, a Força Sindical era responsável pela indicação de um membro do Conselho de Administração do banco de fomento.

Até que a operação Santa Tereza descobriu que, em troca da facilitação de dois empréstimos, membros do conselho indicados pela Força receberam propina da prefeitura de Praia Grande (SP) e da rede de lojas Marisa. De acordo com a investigação, parte desse dinheiro foi repassada a Paulinho por meio da ONG de sua mulher, a Meu Guri, que tem sede no mesmo prédio da Força Sindical. Por causa desse processo, o deputado virou réu de uma ação penal no Supremo Tribunal Federal em setembro do ano passado. Ele responde por lavagem de dinheiro, crime contra sistema financeiro e formação de quadrilha.

A agenda 

Na teoria, pode parecer estranho um deputado sindicalista ser ferrenho opositor do Partido dos Trabalhadores. Na prática, tudo se explica. Ou quase. Na Câmara, Paulinho de fato faz da defesa dos trabalhadores sua bandeira. Mas suas posições costumam ser polêmicas. Ele foi favorável ao projeto de terceirização aprovado em 2015 na Câmara dos Deputados que, entre outras coisas, pretende permitir que empresas possam contratar funcionários terceirizados para as chamadas “atividades fins”, e não somente para serviços como limpeza e segurança.

Paulinho diz que foi favorável porque o projeto traz garantias mínimas para os terceirizados. Um político próximo ao deputado disse a EXAME que o objetivo do deputado era unir sindicatos de terceirizados à Força Sindical e, ao mesmo tempo, ganhar força junto aos donos de indústrias.

Paulo Pereira da Silva nasceu em Porecatu, uma pequena cidade do Norte do Paraná em 1956. Com 20 anos, mudou para São Paulo, onde estudou no SENAI e começou a trabalhar em indústrias metalúrgicas da cidade. Logo se aproximou dos sindicatos e passou a militar no Partido Comunista do Brasil, que ainda estava na ilegalidade. Até 1987, Paulinho fazia parte dos sindicalistas que acordavam cedo e iam para a porta das fábricas para conversar com os trabalhadores antes do expediente e só depois seguiam para o trabalho.

Naquele ano, foi eleito segundo-secretário do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e deixou de trabalhar na indústria para focar na carreira sindical. Desde então, foi galgando postos até ser eleito, em 2002, para a presidência da Força Sindical após a saída do presidente eleito. Enquanto a CUT e o sindicato dos metalúrgicos do ABC, de onde Lula apareceu para a politica, faz um sindicalismo ideológico, ligado a correntes à esquerda, a Força faz o que especialistas costumam chamar de “sindicalismo de resultado”, que defende o aumento salarial e o ganho de direitos. A discussão política fica em segundo plano. Sempre foi assim – e Paulinho utilizou isso a seu favor.

Influente nas negociações entre sindicatos e patrões, o deputado foi citado na delação premiada do dono da construtora UTC, Ricardo Pessoa, que disse ter doado 1,65 milhão de reais com o objetivo de ter a liberdade para pedir ao deputado interceder com sindicalistas quando isso fosse desejo da empreiteira. De acordo com Pessoa, isso aconteceu ao menos uma vez, em uma negociação sobre o dissídio coletivo durante a construção da hidrelétrica São Manoel, na divisa entre Mato Grosso e Pará. O Supremo Tribunal Federal arquivou a menção ao deputado.

O protagonismo na Força Sindical levou Paulinho à vida política. A primeira eleição que disputou foi em 2002, quando foi candidato a vice-presidente na chapa de Ciro Gomes, de quem havia se aproximado enquanto Ciro era ministro da Fazenda do governo Itamar Franco. Procurado, Ciro não deu entrevista. Depois, Paulinho tentou duas vezes a prefeitura de São Paulo, em 2004 e 2012, mas teve fraco desempenho nas eleições. Em 2006, elegeu-se deputado federal, posto que ocupa desde então. Perguntado sobre suas ambições, o deputado desconversa. O certo é que, se Dilma de fato for afastada na quarta-feira, Paulinho não vai se contentar com em ficar em segundo plano no governo Temer – não depois de toda aquela cantoria.

(Gian Kojikovski)