Para não ficar mais em recuperação

Leo Branco

Encravado no Andaraí, subúrbio na zona norte do Rio de Janeiro, o Colégio Estadual Chico Anysio, especializado em turmas de ensino médio, tem sido palco de uma revolução pedagógica. Inaugurada há três anos, a escola pensada para ser um modelo de inovação educacional exige que os 300 alunos estudem 7 horas por dia, 3 a mais do que as 4 exigidas pelo Ministério da Educação. As horas a mais não significam mais tempo para copiar o que está na lousa. Cerca de 20% da carga letiva é dedicada a atividades em que os alunos recebem notas pela capacidade de transformar em projetos concretos os conteúdos de que mais gostaram em sala de aula. Em 2014, um grupo interessado em temas relacionados à sustentabilidade se debruçou sobre planilhas de consumo de merendas. O motivo? Eliminar o desperdício mensal de 180 quilos de comida na escola. A meta foi alcançada em quatro meses, após um relatório dos estudantes ajudar a direção na escolha dos ingredientes. A participação dos alunos, que têm de 15 a 17 anos, nos projetos é obrigatória. Eles escolhem os temas preferidos, em geral relacionados com a carreira que almejam para o futuro. Quando um grupo de estudantes demonstra interesse num conteúdo específico, os professores têm autonomia para criar turmas dedicadas a ele. Para ajudar na escolha da profissão, semanalmente os alunos têm encontro individual para receber aconselhamento dos professores.

Tamanho zelo em transformar os assuntos discutidos em sala de aula em algo que vai ser útil para a vida do estudante tem feito os alunos do colégio Chico Anysio colherem resultados bem acima da média dos estudantes brasileiros. Da primeira turma que se formou, em 2015, 70% passaram em vestibulares concorridos em universidades públicas. Naquele ano, o colégio ficou em terceiro lugar entre 1 274 escolas estaduais do Rio de Janeiro no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O índice de abandono dos estudos por ali é zero — no país, em média, um em cada dez estudantes larga os estudos após um ano. A enorme diferença entre a Chico Anysio e a grande maioria das escolas públicas brasileiras fica evidente num cálculo de Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor na escola de negócios Insper. Ele usou como base os resultados do Pisa, avaliação do ensino aplicada em 72 países, divulgados no início de dezembro. Se os 33 000 jovens brasileiros de 15 anos avaliados pelo teste em 2015 tivessem um desempenho em matemática igual ao dos alunos do Chico Anysio, significaria dizer que 73% dos estudantes do Brasil dominariam os conhecimentos esperados para eles no início do ensino médio. Hoje, apenas três em cada dez alunos estão nesse patamar, o que coloca o país num pífio 69o lugar em matemática no ranking internacional. Se o padrão da escola carioca fosse o nacional, o Brasil saltaria para o 38o lugar, à frente de países com sólidos sistemas educacionais, como Estados Unidos e Israel. “Os resultados dão pistas de como o ensino médio brasileiro pode melhorar”, diz Paes de Barros, que é uma das maiores referências em educação no país.

Mais uma “jabuticaba

Em 2017, a reforma do ensino médio deverá entrar definitivamente na discussão sobre o rumo da educação brasileira. Em dezembro, a Câmara dos Deputados aprovou a medida provisória sobre o assunto, editada pelo presidente Michel Temer em setembro. O texto deve passar rapida­mente pelo Senado. “Há acordo dos líderes de par­tidos para aprovar a medida até fevereiro, a tempo do início das aulas”, diz o senador Pedro Chaves (PSC-MS), relator do projeto. Se concre­ti­zada, será a maior mudança no ensino médio do país desde os anos 80, quando o ensino profissionalizante foi separado do regular. O que se viu de lá para cá foi o amadurecimento de mais uma “jabuticaba” brasileira: um ensino mé­dio com alta carga de disciplinas obrigatórias — de 800 horas anuais, ante a média de 658 nos países ricos —, divididas num cipoal de conteúdos com pouca relação entre si ou pouca serventia para a carreira dos jovens. Na origem do inchaço está a pressão de sindicatos de professores, que conseguiram que disciplinas como sociologia e história de etnias fossem agregadas ao currículo básico sem o devido aumento na carga horária.


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O que se pretende agora é retomar o aspecto vocacional do ensino médio que se perdeu nas últimas décadas. Mais que isso, a reforma pretende recuperar o poder de decisão do aluno em escolher uma área do conhecimento com a qual tenha mais afinidade, numa versão turbinada do modelo adotado no colégio Chico Anysio. Não será uma mudança fácil: vai ser preciso romper uma lógica enraizada em professores e alunos, o que explica a grande resistência observada em ocupações de escolas país afora após o anúncio da reforma em setembro. O modelo proposto já funciona há muito tempo pelo mundo com ótimos resultados. “Entre os 30 países mais bem colocados no Pisa em 2015, todos dão liberdade de escolha ao aluno”, afirma a economista Claudia Costin, ex-diretora do Banco Mundial para educação e hoje professora na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Na Finlândia (quinto lugar no Pisa em 2015), que serviu de inspiração para a reforma do MEC, após 30 anos de reformas sucessivas, hoje os alunos têm 7 horas de aula por dia e, para concluir os estudos, precisam cursar pelo menos 75 disciplinas em três anos. Destas, 49 fazem parte de um currículo nacional. As demais estão num cardápio de conteúdos que mudam segundo a vocação econômica local e a disponibilidade de professores.

A reforma do ensino médio no Brasil deve ser gradual e bem mais modesta. O primeiro passo será aumentar a carga horária. O texto em trami­tação no Congresso prevê abolir até 2020 os tur­nos de 4 horas diárias e criar uma política de fo­mento aos estados para ampliar os turnos de 7 horas. A promessa do MEC é agregar 572 esco­las ao regime até 2018. Se cumprida, deverá dobrar a abrangência do ensino integral, que hoje atende só 6% dos 6,4 milhões de estudantes. Pa­ra isso, acena com 1,5 bilhão de reais a fundo per­dido aos estados para que ampliem as salas de aula e contratem professores com dedicação ex­clusiva. O desafio aqui será financeiro: as contas do ministério garantem um investimento anual de 2 000 reais por aluno. O restante virá dos estados. Um estudo da consultoria em gestão es­colar Instituto Aquila, a pedido de EXAME, mostra que o estado de São Paulo, o que mais in­vestiu por aluno em tempo integral, gastou, em média, 4 800 reais ao ano por estudante. Se o padrão for replicado em todo o país, os estados terão de arcar com uma contrapartida de até 2 800 reais por aluno para levar adiante o plano do MEC — conta que deverá bater em 1 bilhão de reais só em 2017. As finanças combalidas dos es­tados lançam dúvidas sobre a execução da reforma. Uma comparação dos gastos em relação ao desempenho escolar, no entanto, mostra que nem sempre gastar mais é sinal de excelência. Melhor colocado em 2015 no Ideb, principal avaliação do ensino no país, Pernambuco investe 3 200 reais ao ano por aluno do ensino médio, a terceira menor despesa entre 23 estados. Já os sul-mato-grossenses, recordistas em gastos, desembolsam cinco vezes mais do que os pernambucanos e ocupam a sétima posição no ranking. “O jeito vai ser gastar melhor ou adiar uma reforma essencial”, diz Frederico Amâncio, presidente do Consed, conselho de gestores das redes estaduais de ensino. Que a lição seja aprendida logo.