País do futuro ou do presente?

Uma agenda para o Brasil escapar definitivamente desse dilema foi o tema do segundo EXAME Fórum. Os debates mostraram um consenso sobre os principais pontos a ser atacados pelo próximo governo

Apesar de estar repleto de desafios, o caminho que o Brasil deve trilhar para crescer mais rapidamente e de forma sustentável não tem grandes mistérios – há razoável consenso em torno de pontos-chave mesmo entre correntes de opinião e posições políticas diferentes. A agenda modernizadora passa pela realização de reformas como a tributária, a da Previdência e a trabalhista, além da adoção de medidas microeconômicas para aprimorar o ambiente de negócios. São providências para diminuir a carga de impostos, a burocracia e o inchaço da máquina estatal, permitindo que as empresas brasileiras sejam mais competitivas nos mercados interno e global. Porém, caso não faça a lição de casa, o Brasil corre o risco de desperdiçar uma oportunidade histórica – gerada pela atual combinação de estabilidade econômica com condições demográficas favoráveis – de tornarse uma das cinco maiores potências econômicas nas próximas décadas. Esse foi o eixo dos debates do segundo EXAME Fórum – evento promovido em São Paulo no dia 31 de maio -, com o tema “Brasil: a construção da quinta maior economia do mundo” (os melhores momentos do evento podem ser vistos em www.exame.com.br). Além de contar com a presença dos dois pré-candidatos à Presidência líderes nas pesquisas – Dilma Rousseff, do PT, e José Serra, do PSDB -, o evento reuniu o economista Nouriel Roubini, professor da New York University, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e um time de líderes empresariais, analistas econômicos, acadêmicos e consultores. Entre os participantes dos painéis de discussão estiveram Eike Batista, presidente do grupo EBX; Marcelo Odebrecht, presidente do grupo Odebrecht; Luiza Trajano, presidente do Magazine Luiza; Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do Bradesco; José Olympio Pereira, corresponsável pelo banco de investimento do Credit Suisse; Marcos Lisboa, vice-presidente do banco Itaú; e Bernard Appy, diretor da BM&F Bovespa. “Se aprovar as reformas, o Brasil poderá crescer tranquilamente de 6% a 7% ao ano”, disse Roubini na abertura do fórum. “Mas o país também precisa investir no capital humano, sobretudo em educação e saúde.” Em mensagem lida pelo presidente executivo do Grupo Abril, Giancarlo Civita, o presidente do Conselho de Administração do Grupo Abril, Roberto Civita, chamou a atenção para o risco de uma perda de foco com a euforia suscitada pelas atuais estatísticas favoráveis da economia brasileira: “Como sabemos, o desenvolvimento é uma corrida de maratona, não um tiro de 100 metros. Chega lá quem conseguir identificar prioridades e atacar os problemas com competência, obstinação e seriedade”.

Ao contrário da política monetária, que tem permitido que o país conviva com níveis civilizados de inflação, o front das contas públicas é mais preocupante. “Gosto de citar o conto O Empréstimo, de Machado de Assis, que fala de um personagem com a vocação da riqueza, mas sem a vocação do trabalho”, disse o economista Eduardo Giannetti, professor do Instituto Insper e participante do painel sobre macroeconomia. “No caso do Brasil, temos a vocação do consumo, mas não a da poupança. Por isso, os surtos de crescimento sempre resultam em crise de inflação ou de balanço de pagamentos.” Segundo Giannetti, dados o tamanho colossal e a ineficiência do Estado, hoje o país tem um “limite de velocidade de crescimento” da ordem de 4,5% do produto interno bruto ao ano. Quando o crescimento supera esse patamar, como agora, há um repique inflacionário, causado por gargalos na infraestrutura, na formação de mão de obra e na capacidade industrial do país. Daí a necessidade premente das reformas. “Nos próximos 20 anos, além da emergência da nova classe média, teremos uma população em idade economicamente ativa maior que a de idosos e crianças”, disse Alexandre Schwartsman, economista-chefe do banco Santander. “Trata-se de um cenário ideal para o aumento do tempo de contribuição para a aposentadoria, permitindo que o sistema previdenciário se equilibre.”


Diante de mais de 300 representantes do setor produtivo, os candidatos Dilma e Serra se comprometeram com a racionalização da cobrança de impostos e o aumento nos investimentos em infraestrutura. “Não precisamos esperar pela reforma ideal. Podemos fazer alguns ajustes microeconômicos”, disse Dilma, referindo-se à reforma tributária, à desoneração da folha de pagamentos e a uma maior agilidade na devolução de créditos tributários aos exportadores. A candidata petista também prometeu atrair o mercado de capitais para financiar o desenvolvimento. “Precisamos dos fundos de pensão e temos de incentivar os investimentos privados em infraestrutura. Sozinho, o BNDES não dará conta dessa tarefa”, afirmou ela. Já o candidato tucano José Serra criticou o que chamou de “descoordenação macroeconômica” do governo. “Para sermos a quinta potência em 2040, precisamos vencer três tipos de barreira: as baixas taxas de investimento, a alta carga tributária e a falta de coordenação entre juros e câmbio”, disse. Para Serra, a taxa de câmbio está levando empresas a migrar para países de ambiente de negócio mais favorável.

Ao abordar as carências da infraestrutura, especialistas e empresários do setor enfatizaram a necessidade de regras adequadas, bons projetos e agilidade no licenciamento ambiental. “Além da ineficiência no transporte, temos questões urgentes de mobilidade urbana e saneamento para resolver”, disse Marcelo Odebrecht. “Hoje, 74 milhões de brasileiros não têm esgoto, o que representa um enorme custo social para o país.”

A fim de galgar a escada do desenvolvimento sustentável, o país precisará melhorar outro ativo estratégico – o capital humano. Nesse quesito, ainda que enfrente obstáculos como um sistema educacional deficiente, o Brasil encontra- se numa situação promissora, com a emergência da nova classe média. “Nas próximas décadas, os consumidores das classes C e D irão impulsionar cinco setores da economia: computação, turismo, educação, bancos e o varejo em geral”, disse Renato Meirelles, especialista em mercado de consumo. De sua parte, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, apontou a necessidade de redução da informalidade das camadas mais pobres. “No Brasil, tem mais gente com celular do que com conta em banco”, disse. “Se não conseguirmos bancarizar 90 milhões de pessoas nos próximos dez anos, não teremos dado certo.” O Brasil será mesmo a quinta potência mundial em 2025, como prevê a consultoria americana PricewaterhouseCoopers? Não dá para saber. O que se sabe, desde já, é que o próximo presidente da República terá uma oportunidade de ouro para começar a construir a estrada que nos levará à condição de uma nação realmente desenvolvida.