Oliveira, do Pacto Global: foco em 2030

Camila Almeida

O I Fórum do Pacto Global aconteceu nessa quarta-feira, no auditório do Museu de Arte de São Paulo (Masp), com o tema “Setor privado rumo aos objetivos de desenvolvimento sustentável”. O Pacto Global é uma iniciativa promovida mundialmente pela ONU com o objetivo de mobilizar a comunidade empresarial para a adoção de práticas sustentáveis. A rede brasileira, fundada em 2003, conta com quase 700 signatários. No mundo, já são 9.146 empresas em 168 países engajada na execução dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos em 2015 pela ONU. São quatro plataformas principais de atuação: meio ambiente, direitos humanos, trabalho e anticorrupção. O presidente do Pacto Global no Brasil, André Oliveira, também diretor jurídico da BASF, conversou com EXAME Hoje sobre os desafios brasileiros nessa agenda sustentável e o papel do setor privado em sua implementação.

O Pacto Global já existe há mais de dez anos no Brasil. Por que só agora esse primeiro fórum?

Ele nasceu de uma ambição dessa nova gestão de posicionar o Pacto como uma das referências de sustentabilidade corporativa no Brasil. Antes, o Pacto não tinha esse papel de destaque. Ele tinha uma dinâmica um pouco mais secundária nas discussões de sustentabilidade no Brasil, até por uma questão de maturação. Com base nesse novo viés do pacto, de assumir protagonismo no que tange à sustentabilidade corporativa no Brasil, a gente entendia que a gente tinha que se mostrar mais. No passado, o pacto estava vinculado ao Instituto Ethos. Em 2011, nos tornamos 100% independentes e 100% conectados às Nações Unidas. O fórum surge num momento importantíssimo, que são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Embora lançados no ano passado, o momento é bastante propício, porque esse período nos deu uma condição de avaliar o quanto a sociedade está sensível a esses desafios e o quanto a sociedade está compromissada a esses desafios dentro da agenda 2030 das Nações Unidas.

Como tem sido a adesão do setor privado ao Pacto? As empresas estão comprometidas o bastante com as propostas?

Eu vejo um aumento cada dia mais crescente na participação. A rede tem crescido mais de 10% ao ano em número de participantes, o que demonstra que o empresariado está interessado e tem se guiado pelo Pacto para implementar suas estratégias. A gente tem identificado um engajamento enorme, tanto dos signatários antigos quanto dos novos. E eles têm tomado conhecimento por meio de alguma ação ou treinamento que a gente tem feito. Então, temos conseguido mobilizar o setor privado e nos posicionar naquela ambição de protagonismo dos temas de sustentabilidade corporativa aqui no Brasil.

A agenda para 2030 é ambiciosa e pesada – são 169 metas, divididas em 17 objetivos. Que passos a gente tem que seguir para que esse processo seja bem-sucedido?

A gente não tem muito tempo. Já não são 15 anos, são 14. A gente está numa contagem regressiva e todo momento conta. Mas o trabalho da rede não começou hoje. Começou na perseguição dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM), lançados em 2000, e na construção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – um processo bastante participativo em que tivemos uma participação muito ativa. Quando eles foram lançados, já estávamos trabalhando com nossos signatários nesse sentido. Muitas das metas que existem já estão sendo executadas pelas empresas signatárias do pacto. Ao mapear o que elas estão fazendo, a gente já identifica ações bastante evoluídas em termos de iniciativa. Muito ainda precisa ser feito, mas a gente já consegue visualizar casos concretos no alcance das metas.

A adesão ao pacto é voluntária e é natural que a empresa que se voluntarie a participar já esteja adotando algumas práticas e já seja mais consciente. Como fazer com que essas iniciativas extrapolem o Pacto e sejam cada vez mais universais no Brasil?

Na maioria dos casos, as empresas já estão engajadas, é verdade. Mas a gente também tem um contingente significativo de empresas que partem do zero, que querem ter um olhar diferente no futuro e começam a verificar o que existe disponível no mercado em termos de referência. Muitas empresas não têm absolutamente nenhuma iniciativa, e o Pacto entra para apoiar essas pequenas organizações e para elas se tornarem membros dessa empreitada rumo a 2030. 60% das empresas que hoje compõem o pacto são pequenas e médias. As grandes, de certa forma, já estão melhor estruturadas e podem avançar mais nas discussões, trazendo a riqueza da experiência que possuem. Para atrair mais gente, trabalhamos com parcerias. Com ONGs, com governos. Entendemos que só mobilizando os mais diferentes parceiros nós vamos conseguir fazer com que atingir esse objetivo seja factível. A gente não tem a ambição de ser o responsável por essa implementação. Ela é um objetivo da sociedade e cada ator tem o seu papel nessa dinâmica.

A agenda da sustentabilidade, muitas vezes, é deixada de lado ou atrasada dentro das empresas porque é vista como uma agenda cara, que não cabe no orçamento. Faz sentido esse tipo de pensamento?

Acho que esse pensamento já foi. Pelo menos nas 800 signatárias que compõem o pacto esse olhar já está completamente superado. A sustentabilidade ainda tem um olhar de custo, mas isso está sendo superado pelo olhar do diferenciado. O consumidor cada vez mais quer um produto sustentável, quer que a empresa respeite as leis locais no que tange ao trabalho, à corrupção. O nosso grande desafio é tornar visíveis ao setor privado essas questões que são demandas da sociedade. E queremos que a sociedade comece a enxergar esse setor privado sustentável como diferenciado, como aquele que será escolhido para ser fornecedor. Acreditamos que com o tempo, essa questão do custo vai se tornar menos importante. O produto sustentável tem um custo razoável, mas é papel do setor privado trazer soluções que sejam sustentáveis e viáveis. 

 

Que soluções já estão sendo colocadas para esse tipo de questão?

Um exemplo. Temos um programa chamado “Menos Perda, Mais Água”, que trata sobre a redução de perdas de água na distribuição. A gente fica muito focado no desperdício de água em casa, mas a perda de água tratada antes de chegar ao consumidor é gigantesca. A gente começou, então, a estabelecer uma política junto aos municípios para influenciá-los a rever suas estações de tratamento e suas redes para evitar o desperdício e, com isso, diminuir o valor da água. A cidade de Piracicaba foi adotada como piloto para rodar esse projeto. Existe uma interlocução empresarial, governamental e com institutos como a Agência Nacional de Águas e a Fundação Getúlio Vargas para estudar soluções, olhando a questão econômica. Através de exemplos como esse, a gente ajuda o meio ambiente, ajuda a economia, ajuda a sociedade – e é esse o grande mote dos ODS.

Dentre as metas a cumprir, qual o maior gargalo brasileiro?

Temos desafios nos quatro pilares. A questão dos direitos humanos é importante. Criamos uma iniciativa de empoderamento das refugiadas para trazê-las para o mercado de trabalho. Temos exemplos de mulheres extremamente capacitadas, que falam três idiomas, tinham cargos de altíssimo nível nos países onde viviam e hoje estão aí, disponíveis no mercado. Nas questões de meio ambiente, temos o grande desafio da economia de baixo carbono. Não preciso nem falar da parte de anti-corrupção. O que estamos vivendo agora é triste, mas é importantíssimo em termos de oportunidade. E a questão de trabalho: todos são testemunhas do alto desemprego e recuperar o poder de empregabilidade passa por capacitação. Difícil dizer qual é mais importante. Temos o compromisso de abraçar os 17 objetivos. A gente entende que precisa trabalhar de forma contundente e integrada em cada um deles. Tenho consciência de que o Pacto não vai fazer tudo. Ele consegue mobilizar o setor privado e interagir com o setor público, mas a gente precisa mobilizar a sociedade e alinhar todos os setores com o mesmo direcional para atingir os objetivos até 2030.