O que pensam os manifestantes contra e a favor de Judith Butler

Para pesquisadora, ideologia de gênero é só uma parte da história dos protestos no SESC de São Paulo

São Paulo – O SESC Pompeia, na zona oeste de São Paulo, foi palco de manifestações contrárias e favoráveis à palestra da filósofa Judith Butler na última semana. O Núcleo de Etnografia Urbana e Audiovisual da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (NEU-FESPSP) realizou uma pesquisa com os manifestantes que estavam lá, e chegou a conclusões interessantes.

Para a antropóloga e professora Isabela Oliveira, que coordenou a pesquisa da FESP, a questão da “ideologia de gênero”, que motivou o protesto, é só o aspecto mais superficial de uma discussão mais importante que permeia o enfrentamento: qual é o papel da escola e da sociedade na educação das crianças.

O primeiro sintoma de que a discussão é mais profunda do que parece veio da pergunta sobre o uso do SESC: 73% dos manifestantes contrários a Judith Butler não costumam frequentar o local, enquanto 90% dos manifestantes que defendiam a filósofa vão lá com alguma frequência.

Como a pesquisa foi dividida entre questionários e entrevistas em profundidade, além de monitoramento das redes sociais, Isabela Oliveira diz que as motivações apareceram na conversa.

“Quando perguntamos se os manifestantes contrários tinham ido lá para impedir o evento, eles disseram que não, que tinham certeza que ele ia ser realizado, mas que o protesto era para marcar posição sobre questões políticas que eles achavam importante debater”, afirma.

Além disso, no discurso propagado pelas redes, a pesquisadora notou que há uma certa confusão do SESC como um espaço “público”, o que indica que os manifestantes estão dispostos a disputar espaço no debate sobre as diretrizes da educação, da sociedade e do uso do dinheiro público.

Gênero x Sexualidade

As pessoas que foram até o SESC protestar contra Judith Butler (e até queimar uma boneca representando a filósofa) não são necessariamente contra o debate sobre gênero na sociedade, entre adultos. A pesquisa mostrou que para 64,9% dos que foram ao protesto a discussão não é nada importante, mas que para 35,1% o debate é importante ou muito importante.

Os manifestantes também foram questionados sobre quem deveria ser o responsável pelo ensino de sexualidade às crianças, e 97,3% responderam que era a família.

“O interessante é que havia uma opção no questionário que era “não se deve discutir sexualidade com as crianças”, que ninguém escolheu. Ou seja, os manifestantes acreditam que se deve falar sobre sexo com as crianças, mas que são exclusivamente os pais que têm que fazer isso”, disse Isabela Oliveira.

Essa mesma questão levou a um vácuo durante as entrevistas pessoais. “Esses mesmos pais foram questionados sobre como eles falavam de sexo com os filhos, e a maioria respondeu que não fala, ou fala pouco, ou que tem filhos ainda muito pequenos para que o assunto seja abordado. Além disso, quase 65% desses adultos acham que não é importante debater gênero, mas são esses mesmos pais que acham que só eles podem falar sobre sexualidade com as crianças”, explica Oliveira.

“Na minha avaliação, isso mostra que existe uma repulsa a falar sobre ‘gênero’, ao termo em si, de uma forma que não existe repulsa ao termo ‘sexualidade’. Mas essa sexualidade diz respeito só aos aspectos reprodutivos, entre casais heterossexuais, e não inclui falar sobre uso de preservativos, métodos contraceptivos”, diz a pesquisadora.

Questão de parâmetro

A certa altura do questionário, os manifestantes tiveram que concordar ou discordar da seguinte afirmação: “toda família deve ser composta por um casal de homem e mulher com ou sem filhos”. 89% dos contrários a Butler concordaram com essa afirmação.

No entanto, mais adiante, a afirmação era: “casais de pessoas do mesmo sexo e transexuais não deveriam criar e/ou adotar filhos”, mas nesse caso a parcela dos que concordaram caiu para 51,3%. Isabela Oliveira explica que a ordem das questões foi proposital.

“A maioria das pessoas que estava protestando contra a Judith Butler vem de uma família com pai, mãe e filhos, então quando é questionada com essa afirmação, pensa “é óbvio”. Quando você coloca outras alternativas é que elas lembram que casais podem ser homossexuais, que filhos podem ser adotados, e aí algumas repensam a opinião sobre isso”, descreve a antropóloga.

Outro aspecto da pesquisa que merece atenção são os critérios de idade, classe e raça que apareceram: no grupo favorável a Butler, pessoas mais brancas, mais escolarizadas e com renda mais alta; entre o grupo dos contrários, menos brancos, menor escolaridade e renda mais baixa.

“Isso não quer dizer, no entanto, que o segundo perfil é naturalmente mais conservador, e sim que o recorte específico desse evento, a palestra de uma filósofa destinada ao circuito acadêmico, a diferença observada foi essa”, pontuou Oliveira.

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