O que pensa a futura ministra dos Direitos Humanos sobre LGBT e mulheres

Em série de vídeos no YouTube, a então pastora diz que Brasil vive ditadura gay e nega que "milhões de mulheres" morram com abortos

São Paulo — A nova ministra do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, a pastora Damares Alves é advogada de formação e, hoje, atua como assessora parlamentar do senador Magno Malta, um dos articuladores de campanha do presidente eleito, Jair Bolsonaro.

No Congresso Nacional, ela é, ainda, assessora jurídica da Frente Parlamentar Mista da Família e Apoio à Vida, da Frente Parlamentar de Combate as Drogas e da Frente Parlamentar Evangélica.

Damares Alves, que já declarou ter sofrido abuso quando tinha seis anos de idade, é fundadora do Movimento ATINI – Voz pela Vida de proteção e defesa da criança indígena. Também é secretária geral do Movimento Nacional Brasil Sem Aborto e conselheira do Movimento Nacional Brasil Sem Drogas.

Ela é, ainda, coordenadora do projeto Adota Brasil e conselheira do Instituto Flores de Aço de combate à violência contra a mulher e de cuidado com a infância.

Sua indicação recebeu apoio de entidades, igrejas, organizações não governamentais e ativistas pró-família. O Instituto Infância Protegida divulgou nota de apoio à nova ministra.

“Damares Alves tem experiência de mais de 20 anos na defesa da vida e promoção da dignidade humana, na defesa da família, da infância, contra a pedofilia, infanticídio, suicídio e automutilação, bem como contra o consumo e a possibilidade de liberação das drogas, que de forma tão violenta tem ceifado a vida de nossos jovens no Brasil”, informa a nota, que complementa que ela representa a perpetuação dos valores morais, da família e da mulher.

O pensamento de Damares pode ser conhecido mais profundamente através de um culto de uma hora e meia ocorrido em maio de 2016 e publicado no YouTube.

A então pastora diz que “chegou a nossa hora” e que “é o momento de a Igreja ocupar a nação. É o momento de a igreja dizer à nação a que viemos. É o momento de a igreja governar”.

A futura ministra disse que “só há um lugar seguro em que o seu filho está protegido nesta nação. É o templo, é a igreja, é ao lado do seu sacerdote”.

O que disse sobre aborto

A Folha de São Paulo reportou que a ministra falou sobre o tema aborto após sair de reunião com o presidente eleito na sede do governo de transição, em Brasília.

“Se a gravidez é um problema que dura só nove meses, o aborto é um problema que caminha a vida inteira com a mulher”, disse ela.

“Eu sou contra o aborto. ​Nenhuma mulher quer abortar. Elas chegam até o aborto porque, possivelmente, não foi lhe dada nenhuma outra opção. A mulher aborta acreditando que está desengravindando (sic), mas não está”, declarou.

A futura ministra também disse que “a pasta não vai lidar com o tema aborto, vai lidar com proteção de vida e não com morte”. O tema também é tratado em seu DVD, publicado no YouTube em fevereiro de 2014:

Em um dos vídeos com a pastora, publicado em abril de 2013 no YouTube, ela diz que os movimentos feministas manipulam dados para inflar o número de mortes causadas pelo aborto no país:

“[Ex-ministros da Saúde] dizem que no Brasil milhões de mulheres morrem por causa do aborto. Cadê os milhões de túmulos? Pastores, quantas mulheres vocês já fizeram o culto fúnebre e enterraram porque morreram por causa do aborto? Mentira! Não existe milhões de mulheres morrendo por causa do aborto no Brasil. Eles manipulam dados e estatísticas para impor na sociedade brasileira uma cultura de morte”.

O que disse sobre LGBT

Ao jornal O Globo, a futura ministra afirmou nesta quinta-feira (06) que é preciso inserir transsexuais no mercado de trabalho. 

“É essencial ter um diálogo com a travesti que está na rua, que está se prostituindo. Será que está lá por opção, ou porque não ingressam no mercado de trabalho? Gostaria muito de conversar sobre isso. Tenho encontrado travestis dotados de uma inteligência extraordinária e com o corpo machucado. O corpo na rua sendo machucado. Será que não está na hora de a gente começar a ver esse ser, que foi por tantos anos discriminado, e se perguntar: por que para o travesti sobra só a prostituição? Por que só esse caminho, por que não trazer eles para as universidades?”.

Questionada sobre o casamento homoafetivo, Damares disse que esse é um direito adquirido pois “direitos conquistados não se discute mais. Então, pra mim, é uma questão vencida, tanto é que o movimento gay nem tem mais isso como pauta, é uma questão superada, um direito civil garantido.”

Mas o seu histórico de declarações sobre o tema de direitos LGBT tem um tom menos conciliatório.

Em um trecho do seu DVD, ela diz que estamos vivendo uma “ditadura gay” e defende uma diferenciação entre os homossexuais, que devem ser amados e acolhidos, e as associações do movimento gay, que estão “milionárias” e “jogam sujo”.

“Falam que os religiosos são homofóbicos, mas não tem um crente, um evangélico na cadeia preso porque matou um homossexual. Quem há anos está nas ruas acolhendo os homossexuais dessa nação são os evangélicos (…) O movimento gay é um movimento partidário, ideológico e político e eles estão dispostos a enfrentar todas as outras instituições que são contrárias ao que eles pensam”.

No vídeo de 2013, ela também diz, entre outras coisas, que “não há uma prova científica de que o gay nasce gay. Se tivesse eles já tinham jogado isso na nossa cara. Não existe. A homossexualidade ela é aprendida a partir do nascimento, lá na infância, lá no berço, a forma que se lida com a criança. Ninguém nasce gay”.

O que disse sobre ideologia de gênero

A pastora já afirmou diversas vezes que não acredita na “ideologia de gênero” e defende que homens e mulheres são diferentes, apesar de precisar de direitos iguais.

“Atuo contra a erotização de crianças e adolescentes e, consequentemente, estou há anos na estrada no combate à ideologia de gênero, pois a erotização de crianças é um dos pilares desta terrível ideologia.”

“Eu tenho uma posição muito forte em relação à teoria de gênero. É uma teoria furada, sem nenhuma comprovação científica. Mas homens e mulheres não são iguais. E isso eu tenho certeza. Mulher é mulher, homem é homem. É muito ruim dizer que somos iguais, porque eu não consigo carregar um saco de cimento nas costas, e o homem que está do meu lado não consegue fazer todas as coisas que eu faço ao mesmo tempo.”

“Todos os meninos vão ter que entregar flores para as meninas nas escolas, para entender que nós não somos iguais”, completa.

“Quando a teoria de gênero vai para a sala de aula e diz que todos são iguais e que não tem diferença entre menino e menina, as meninas podem levar porrada, porque são iguais aos meninos. Somos frágeis, mas somos muito especiais, fazemos coisas que eles não conseguem fazer”, diz Damares.

O que disse sobre papel da mulher na sociedade

Na entrevista para o Globo, ela diz também que “a mulher nasceu para ser mãe, porque a mulher nasceu com útero. Nesse planeta Terra, a fêmea nasce com útero para gerar. Então eu não menti. A mulher nasce para ser mãe. Se ela não quer ser mãe, é uma opção dela, mas a mulher nasceu, sim, para ser mãe.”

“É raça humana. O homem é protetor, provedor, cuidador. Mas a raça humana mudou. Então a gente briga com a natureza”, completa.

“Eu gostaria de ter um mundo em que a mulher só trabalhasse se quisesse. Meu sonho é estar numa rede, numa tarde e meu marido trabalhando muito, muito, muito para me sustentar e me encher de jóias”, diz a futura ministra.

Desafios

Para Jacira Melo, diretora executiva do Instituto Patrícia Galvão, um dos maiores desafios da nova ministra será ampliar as ações de combate à violência contra a mulher e a desigualdade racial no país.

Segundo a especialista, apesar dos avanços nessa área nos últimos anos, o Brasil ainda tem índices alarmantes quando o assunto é o feminicídio ou agressões por raça ou gênero.

“Apesar de termos avanços, principalmente, a partir do final dos anos 1990 na defesa dos direitos humanos, o Brasil está deixando muito a desejar no combate às desigualdades. Espero que as ações não sejam pautadas pelo caminho ideológico ou religioso, e sim com dados estatísticos”, disse Jacira Melo.

No Brasil, 13 mulheres são assassinadas por dia. Em 2016, 4.645 mulheres foram assassinadas no país, o que representa uma taxa de 4,5 homicídios para cada 100 mil brasileiras, um aumento de 6,4% no período de dez anos, segundo dados do Atlas da Violência 2018, feito pelo IPEA.