O que torna o Rio uma das cidades mais inteligentes do mundo

Eduardo Paes, que fala hoje no EXAME Fórum, usa o Waze para monitorar o trânsito em tempo real e o WhatsApp para se comunicar com a equipe. O Rio de Janeiro inova em várias frentes - mas ainda há muito a fazer

De um lado, as casas apinhadas e o verde do Morro da Providência, considerada a primeira favela do Brasil. Do outro, as pistas da movimentada avenida Presidente Vargas e as ruas comerciais da região da Cidade Nova. Mais adiante, os guindastes do porto na costa oeste da Baía de Guanabara.

O prefeito Eduardo Paes (PMDB) tem uma vista privilegiada. Do último andar do prédio da prefeitura, onde está seu gabinete, Paes enxerga a capital fluminense de vários ângulos. Mas o que o detém, numa tarde quente de novembro, é um mapa da cidade indiana de Nova Délhi.

“Baixei esse aplicativo ontem à noite”, diz Paes, com os olhos em seu iPhone 5s. Na tela aparecem círculos coloridos e símbolos sobre as ruas, indicando o nível de segurança de cada bairro. “São avaliações feitas pelos cidadãos”, afirma Paes. “Acho que uma versão carioca teria muito potencial.”

O app Safetipin havia sido lançado há apenas três dias quando foi parar no smartphone do prefeito do Rio de Janeiro. Ele faz parte de uma extensa coleção de downloads armazenados no aparelho e checados por Paes todas as noites, antes de dormir. “Desde moleque economizava meu dinheiro para comprar o computador de última geração”, diz Paes. “Não tem mulher que é tarada por sapato? A minha tara é a tecnologia.” O vício por inovação influencia diretamente o trabalho de Eduardo Paes na prefeitura.

Em julho de 2013, por exemplo, ele comandou uma parceria com os desenvolvedores do Waze, aplicativo de mapeamento coletivo que permite aos próprios cidadãos reportarem condições do trânsito. Comprado pelo Google, o Waze hoje compartilha dados com a prefeitura carioca para facilitar o monitoramento das ruas. O app complementa as imagens capturadas pelas quase 580 câmeras da cidade e os incidentes reportados pelos mais de 7 500 guardas municipais, a maioria munida de celulares com GPS.

As informações alimentam ainda o Centro de Operações, quartel-general de dados da prefeitura, construído em 2010, em parceria com a IBM. De lá, é possível monitorar a cidade e reagir mais rapidamente a diferentes situações, seja um imprevisto no trânsito, seja um desastre ambiental.

O Centro de Operações e uma série de outras iniciativas digitais estão transformando o Rio de Janeiro em exemplo de uso da tecnologia para a gestão de cidades. Em novembro, o município foi eleito a Cidade Inteligente do Ano na Smart City Expo World Congress, feira sobre cidades inteligentes realizada em Barcelona, na Espanha. Pelo segundo ano consecutivo, o Rio de Janeiro foi ainda apontado como uma das 21 Comunidades Mais Inteligentes do Mundo, pela Inteligent Community Fórum (ICF).

Eduardo Paes, prefeito do Rio, baixa no iPhone 5s aplicativos que o ajudam a gerir a cidade (Edu Monteiro/INFO)

“A tecnologia tem alguns papéis dentro da prefeitura, mas acredito que o principal deles seja o pedagógico”, afirma Eduardo Paes, 44 anos, trocando o smartphone pelo iMac sobre sua mesa de trabalho. “Num mundo cada vez mais tecnológico, ainda temos um analfabetismo digital grave.”

Na tela do computador, Paes mostra imagens de um dos projetos de seu governo. São estruturas envidraçadas, com design moderno e piso de concreto. Nas paredes, grandes painéis sensíveis ao toque. Sobre longas mesas de madeira, há dezenas de computadores com processador Intel i5, tela touchscreen e acesso à internet de 30 Mbps.

São as Praças e Naves do Conhecimento, espaços construídos em sete comunidades dos subúrbios, que oferecem uso ilimitado dos computadores, cursos de inglês, treinamento em diferentes áreas da ciência da computação e atividades de lazer, como cinema ao ar livre. Tudo isso gratuitamente. “O conceito-chave é a interatividade”, diz Franklin Dias Coelho, secretário municipal de Ciência e Tecnologia.

Com 1 000 metros quadrados cada uma, as duas Praças do Conhecimento estão localizadas em Padre Miguel, na zona oeste, e no Complexo do Alemão, na região norte. Elas têm o dobro do tamanho das naves, presentes em cinco bairros periféricos, como Irajá, Madureira e Penha. “Até hoje foram mais de 700 000 visitas. Agora, estamos ampliando a integração com a rede escolar para trabalhar com conteúdo que complementa a sala de aula”, diz o secretário Franklin Coelho.

A qualquer hora do dia, há dezenas de usuários conectados. Às 13 horas de uma quarta-feira de novembro, por exemplo, quase todos os computadores da Praça do Conhecimento de Padre Miguel estavam ocupados. O cenário era o mesmo na Nave de Madureira. “Temos alguns computadores para estudo. Os demais são liberados para qualquer acesso, menos pornografia e conteúdo que incite a violência”, diz o moderador Robson Araújo, 40 anos.

Com formação em processamento de dados no segundo grau, Araújo encontrou nas próprias naves a oportunidade para ampliar sua área de atuação. Ele é um dos 6 400 alunos que passaram por cursos de capacitação oferecidos em parceria com empresas, como a Cisco. “Se fosse pagar, teria de desembolsar pelo menos 1 500 reais”, afirma Araújo. 

Acesso digital em Padre Miguel: Localizadas em sete bairros dos subúrbios, as praças e naves do conhecimento oferecem cursos e atividades de lazer (Guillermo Giansanti/INFO)

Contando a construção e a aquisição de equipamentos, cada nave tem custo que varia de 3 milhões a 5 milhões de reais. A manutenção gira em torno de 200 000 reais ao mês por unidade. Até 2016 a prefeitura tem planos de aumentar a estrutura. Batizado de Rio Digital 15 Minutos, o projeto pretende construir mais 41 Naves do Conhecimento. A intenção é que uma esteja a um raio máximo de 1,5 quilômetro da outra. Ou a 15 minutos de caminhada. Em janeiro será inaugurada a Praça do Conhecimento em Triagem, que será a matriz do projeto.

“Esses espaços são importantes para garantir o acesso à informação”, afirma Ives Rocha, coordenador da ONG Centro de Promoção da Saúde (Cedaps). Há três anos, Rocha lidera um projeto, em parceria com o Unicef, para mapear os problemas da cidade. Munidos de um celular com GPS, jovens de oito comunidades saem às ruas fotografando situações de risco, como possíveis focos de dengue e
locais de desabamento, por exemplo. As fotos vão para um aplicativo, que atrela a informação a um mapa virtual.

Com apoio da prefeitura, o projeto revitalizou praças e colocou os jovens em contato com departamentos como a Defesa Civil. Mas Rocha diz que seria possível criar mais ferramentas úteis se os dados do poder público fossem mais acessíveis. “Muitas informações estão numa grande caixa-preta”, diz.

Uma dessas caixas foi aberta em novembro passado. Após meses de cobrança, as concessionárias de ônibus da cidade aceitaram abrir os dados do GPS de todos os carros. O principal responsável por isso foi o engenheiro da computação André Ikeda, 26 anos.

Como usuário da frota de ônibus, Ikeda sentia falta de dados sobre itinerários e horários. Em 2012, criou um aplicativo para solucionar o problema e submeteu a ideia ao RioApps, concurso promovido pela Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia.

“O primeiro projeto era baseado na colaboração dos usuários e dava informações sobre onde estavam os ônibus em que tinham embarcado”, diz Ikeda. “Fomos campeões, mas logo percebemos que seria mais eficiente usar os dados do GPS do ônibus para dizer a que distância ele estava do ponto”, afirma. As concessionárias se recusaram a abrir os dados e Ikeda lançou seu aplicativo, o Buus, primeiro em São Paulo.

A notícia de que o vencedor do concurso carioca fez sua estreia na capital paulista colocou a prefeitura do Rio de Janeiro sob pressão, que, por sua vez, pressionou as concessionárias de ônibus. “Uma política de dados abertos é importante para atrair desenvolvedores”, afirma Ikeda. “Isso gera um ganho de escala, pois o conjunto de pessoas que pensam e criam soluções se torna a sociedade como um todo.”

André Ikeda, 26 anos, ganhou o concurso RioApps com aplicativo para monitorar ônibus (Guillermo Giansanti/INFO)

A prefeitura carioca parece já ter percebido isso. Além do RioApps, lançou o Rio Ideais, plataforma aberta que, por ano, recebe da população mais de 1 000 sugestões de aplicativos. Os desenvolvedores podem ainda tentar transformar seus projetos em realidade em maratonas de programação, os hackatons.

A base para a criação desses aplicativos é o Rio Data Mine, banco de dados com informações sobre oito áreas da cidade, da hidrografia ao turismo. O conceito já foi adotado por outras metrópoles, como Nova York e Paris. Há dados sobre a localização geográfica de unidades do Corpo de Bombeiros, escolas de samba ou coleta de lixo. “Onde há luz há menos armações e mais transparência”, diz Eduardo Paes, apontando para o lado oposto da sala. “Está vendo por que eu acho o Waze do cacete? Um táxi acabou de enguiçar na Presidente Vargas.”

No monitor pendurado na parede em frente à sua mesa, o prefeito acompanha, em tempo real, as ocorrências registradas no Centro de Operações. Ele vê que um usuário do Waze reportou que um táxi quebrou em uma das mais movimentadas avenidas da cidade. Paes abre o notebook e certifica-se de que um carro da Companhia de Engenharia e Tráfego já está a caminho, e volta a conversar. “Enguiçou, bateu, faltou luz? A população pode informar”, afirma Paes.

A preocupação do prefeito com o trânsito faz todo o sentido. O Rio de Janeiro tem o terceiro pior trânsito do mundo, atrás apenas de Moscou, na Rússia, e de Istambul, na Turquia, segundo um levantamento da empresa holandesa de tecnologia TomTom. São Paulo ocupa a sétima posição.

Carros em avenida carioca: Rio de Janeiro tem o terceiro pior trânsito do mundo (REUTERS/Sergio Moraes)

Na batalha contra os engarrafamentos, o Waze não é a única ferramenta. Há três anos, a prefeitura do Rio de Janeiro integrou os telefones de atendimento ao público de 46 órgãos municipais em um só número, o 1746. O serviço ganhou um aplicativo que permite reportar diferentes tipos de ocorrência. Com 8 milhões de chamadas respondidas, o 1746 gerou mais de 10 terabytes de dados. “Cada vez mais o cidadão é um sensor, talvez o mais inteligente que existe”, diz Antonio Carlos Dias, diretor de cidades inteligentes da IBM.

São esses dados da população, combinados com informações de câmeras e imagens de satélites, que ficam disponíveis em um telão de 80 metros quadrados no Centro de Operações (COR). Construído em 2010, em parceria com a IBM, o prédio localiza-se atrás da prefeitura e concentra 400 funcionários, em três turnos, 24 horas por dia. É de lá que são tomadas as decisões no caso de uma emergência na cidade, como chuvas fortes, um conhecido e recorrente problema do verão.

Em dezembro, as chuvas causaram quatro mortes no Estado do Rio. Ruas e avenidas ficaram intransitáveis e em bairros como o Parque Pavuna a água invadiu as casas. “O Centro de Operações é uma estrutura de primeiro mundo, mas não é uma solução para as enchentes. É um local para minimizar problemas e agir rápido”, diz o engenheiro Alberto Sayão, professor da PUC-RJ e ex-presidente da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica.

Obras que deveriam prevenir enchentes começaram a ser feitas em 2011, mas não estão prontas. É o caso do programa de recuperação da Bacia de Jacarepaguá, que atinge 14 rios e tem previsão de conclusão no segundo semestre de 2014.

Mais do que um quartel-general, o COR transformou-se em um grande banco de dados sobre a cidade. “Os dados servem para conhecer padrões e fazer a correlação entre situações”, afirma Pedro Junqueira, chefe executivo do COR. “Todo mundo sabe que, quando chove, árvores caem. Mas que tipo de árvore desaba a determinada velocidade do vento? Sabendo isso, podemos começar a antecipar os problemas”, diz Junqueira.

A prefeitura possui ainda cerca de 400 terabytes armazenados, com informações sobre impostos e ruas. “Esse universo é um parque de diversões para os analistas de dados”, diz Pedro Paulo Carvalho, secretário municipal da Casa Civil e um dos criadores do Pensa, projeto que reúne uma equipe de cinco profissionais de diferentes áreas, apelidada de Esquadra Geek.

A intenção do Pensa é transformar dados complexos em soluções simples para a cidade. Montado em maio do ano passado, o grupo é inspirado em um time formado pelo ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg. Em poucos meses, o Pensa produziu resultados interessantes. Utilizando algoritmo que distingue o significado das palavras, o grupo percebeu que era possível antecipar quais regiões da cidade seriam mais afetadas por casos de dengue. 

“Além de ser uma ferramenta de gestão das cidades e uma forma de inclusão digital, a tecnologia tem uma terceira vertente, que é permitir a participação popular”, diz Eduardo Paes. Ouvir o cidadão é uma preocupação legítima, especialmente quando a popularidade da gestão também está em jogo.

Quando foi eleito, em 2009, Paes tinha aprovação de 38% da população, segundo o instituto Datafolha. Chegou a 50% em agosto de 2012 e, no mesmo ano, foi reeleito no primeiro turno com mais de 64% dos votos. Mas em outubro, após as manifestações que tomaram diversas cidades do país, a aprovação de seu governo caiu para 30%.

Durante os protestos, o prefeito desenvolveu uma tese que batizou de polisdigitocracia, baseada na ideia de que a tecnologia pode ajudar a resolver os problemas de participação no sistema democrático. “As pessoas querem ser ouvidas. Mas como você ouve 6 milhões de pessoas em uma audiência?”

Os desafios do prefeito digital aumentaram com os jogos da Copa do Mundo no Maracanã, neste ano, e devem continuar até 2016, com a Olimpíada. Uma vibração do telefone interrompe mais uma vez a conversa. Um dos secretários acaba de enviar uma mensagem pelo WhatsApp, o meio favorito de comunicação entre o prefeito e sua equipe.

“Vou te falar uma coisa: esse aplicativo facilita muito a vida”, diz Paes. “No domingo amanheceu chovendo e eu mandei uma mensagem para o pessoal do Centro de Operações. Graças a Deus estava tudo bem, aí consegui relaxar… Já disse que adoro tecnologia?” Já disse, sim, prefeito. Mas nem precisava. 

* Reportagem publicada originalmente na edição 337 da Revista Info EXAME, em janeiro de 2014