O que as notas do Enem revelam sobre a educação no Brasil?

Números decepcionantes reforçam necessidade de outras mudanças antes da reforma do Ensino Médio

* O Inep admitiu, no dia 5 de outubro, que excluiu 96% dos institutos federais da lista de divulgação dos dados. Com isso, as notas que você vê a seguir podem sofrer alterações assim que o instituto divulgar novos dados

Brasília – O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou mais cedo as notas por escola da edição de 2015 do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Veja quais  são as escolas com as melhores notas

No ano passado, o desempenho das escolas no Enem piorou em Matemática, Linguagens e Ciências da Natureza em relação à edição de 2014. Só houve melhora em Ciências Humanas e Redação.

Mas, afinal, o que as notas do Enem revelam sobre a educação no Brasil? A EXAME.com, o presidente do Instituto Alfa e Beto, João Batista, destaca que os números são preocupantes, mas não são novos.

“A febre continua alta. Essa percepção ruim sobre as condições vem piorando ao longo dos anos. É lamentável, porém, que nada tenha sido feito para melhorar a educação básica do país”, diz Batista.

Nesta terça-feira (4), foram divulgadas as notas de 1.212.908 estudantes de 14.998 escolas – o critério de divulgação inclui todas as escolas em que pelo menos 50% dos estudantes matriculados no terceiro ano do ensino médio participaram do exame.

Enquanto a nota de redação subiu 52 pontos, passando de 491 pontos para 543 pontos, em Ciências Humanas, o aumento foi de 546 pontos para 555 pontos.

Por outro lado, a nota de Matemática recuou de 481 pontos em 2014 para 475 pontos. Em Ciências da Natureza, a queda foi de 487 pontos para 478 pontos. Já em Linguagens, saiu de 511 para 504.

“Antigamente, as notas de matemática e de redação iam na mesma direção. Nesse ano, isso não aconteceu. São duas as possibilidades: ou a prova de matemática estava mais difícil do que o habitual ou a correção da redação foi benigna demais”, afirma o presidente do Instituto Alfa e Beto.

Para Batista, a acomodação dos alunos do ensino privado contribui para os resultados alarmantes. De acordo com o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), o desempenho dos cinco melhores alunos do país equivale ao nível médio dos estudantes europeus.

“Os resultados do Enem 2015 apontam para a urgência da reforma do ensino médio. Quanto mais a escola for amigável, mais acolhedora para os projetos de vida dos nossos jovens, eles se interessarão muito mais pelos conteúdos”, afirmou Maria Inês Fini, presidente do Inep, durante coletiva de imprensa na manhã de hoje. 

Os números decepcionantes, no entanto,  reforçam a necessidade de outras mudanças antes da medida provisória para tratar da reforma do ensino médio. Batista acredita que a reforma seja essencial para que a qualidade da educação evolua, “mas antes é precisar elevar o nível da educação básica”.

Outros fatores apontados como mais emergenciais que a MP da reforma do ensino médio estão: a adesão de um programa de políticas para a sala de aula, a contratação de professores qualificados e a profissionalização da gestão escolar.

Quais outras mudanças precisam ser estabelecidas? Além da melhora da estrutura, o “governo precisa parar de querer arrumar tudo ao mesmo tempo”. Ao mesmo tempo, segundo ele, o principal desafio do Ministério da Educação é fazer com que os alunos permaneçam na escola até o fim.

A atual crise política que assola o país tem interpretação dúbia quando o assunto é educação: representa oportunidade e dificuldade ao mesmo tempo. “Com base aliada rachada, fica difícil emplacar todas as mudanças necessárias. Porém, por ser um governo de transição, o governo pode ousar mais e propor medidas menos populares por não pretensões de se reeleger”, diz Batista.