O PMDB e o poder

Desde que foi criado, partido de Michel Temer sempre esteve em uma posição muito próxima ao poder

No primeiro volume de seu livro de memórias, chamado Diários da Presidência, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso relembrou uma passagem do dia 25 de julho de 1996, quando, após uma reunião com deputados do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, o PMDB, se deu conta do poder que a legenda tinha nas mãos. “Seja eu ou qualquer outro que venha a me suceder, ninguém vai poder governar o Brasil sem ampla base de apoio”, pensou na época. Para ele, no Congresso, não existia “ampla base de apoio” sem o PMDB. Nada mudou em 20 anos.

Hoje, a sigla tem quase 2,4 milhões de filiados e o maior número de diretórios regionais, governadores, prefeitos, vereadores e, como consequência de toda essa força espalhada pelo país, é a agremiação com mais poder no Congresso Nacional. Tem o maior número de deputados, 65, e de senadores, 19, além de ter a presidência das duas Casas, com Eduardo Cunha e Renan Calheiros.

Com mudanças pequenas em números e nomes, sempre foi assim, desde que o partido foi criado em 1980. “O PMDB entendeu como nenhum outro partido brasileiro o presidencialismo de coalizão e, desde então, vem sabendo se beneficiar disso”, diz Rafael Mucinhato, cientista político da Universidade de São Paulo e especialista na formação histórica do partido. Desde 1994, com o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia, o PMDB não tem um candidato à Presidência da República, deixando o principal cargo do país em segundo plano e focando a construção de uma base para ser necessário ao governo.

Criado em 15 de janeiro de 1980, depois da dissolução do MDB, partido de oposição durante a ditadura militar, no final de 1979, o PMDB começou sua história como um partido de centro-esquerda, liderado pelo deputado Ulysses Guimarães, e reunia membros da extrema-esquerda, como os integrantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), e até social-democratas, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-governador de São Paulo Franco Montoro. Em 1982, liderados por Tancredo Neves, membros do Partido Popular, que reunia ex-integrantes da Arena e do MDB mais alinhados com a direita, aderiram ao partido por dificuldades legais na disputa da eleição daquele ano.

Em 1985, por meio de eleições indiretas, o próprio Tancredo foi levado ao poder, conduzindo pela primeira vez o PMDB à Presidência. Quem assumiu, no entanto, foi o vice José Sarney, que se filiou ao partido para disputar as eleições, mas fazia parte da Frente Liberal. Ainda em 1985, com a aprovação do novo Código Eleitoral, o PMDB começou a perder integrantes de correntes internas esquerdistas, que reavivaram o PCdoB, o PCB e o PSB, extintos durante a ditadura.

A última grande ruptura pela qual o partido passou foi em 1988, com a saída da ala social-democrata paulista, que perdeu espaço no partido com a ascensão de Orestes Quércia e viria a criar o PSDB. “Naquele momento, o PMDB perdeu a maior parte das linhas ideológicas que compunham o partido na sua criação”, diz Mucinhato. O partido terminou a década de 80 como o principal jogador do “centrão” no espectro político nacional, posição que ocupa até hoje.

Os três expoentes
Mesmo quando foi oposição, como no início do mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o partido sempre teve dissidentes contrários à corrente defendida pela maioria. Essa bipolaridade que permite à sigla escoar de um lado para o outro sem constrangimentos se tornou a marca do PMDB. Embora seja um partido de caciques regionais que dividem o protagonismo nacional, três expoentes aparecem como os mais fortes da legenda atualmente.

O primeiro é Michel Temer, o vice que pode assumir o poder em caso de afastamento de Dilma Rousseff. Temer presidia o PMDB desde 2001, mas se licenciou do cargo recentemente para evitar interpretações de que estaria usando o partido para se opor à presidente Dilma. Seus principais aliados nas articulações nos últimos meses são Moreira Franco, ex-governador do Rio de Janeiro e ex-ministro das secretarias de Aviação Civil e Assuntos Estratégicos; Eliseu Padilha, também ex-ministro da Aviação Civil (a pasta fazia parte da cota pessoal de Temer no governo); e Geddel Vieira Lima, ex-ministro da Integração Nacional. Mais recentemente, Romero Jucá, que assumiu a presidência do partido no lugar de Temer e já foi governador de Roraima, se aproximou do grupo. Jucá manteve-se aliado de todos os presidentes desde José Sarney, atuando como líder da bancada do governo no Senado com FHC, Lula e Dilma. Até o final de 2015, Jucá era tido como o principal aliado de Renan Calheiros na Casa.

O segundo expoente é o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, membro do partido desde 2003 e no quarto mandato como deputado federal pelo Rio de Janeiro. Cunha ganhou influência defendendo projetos conservadores, como o Estatuto da Família e o aumento do poder de igrejas, e sendo um exímio conhecedor dos meandros da Câmara. Ele exerce influência sobre uma grande bancada do Congresso, o chamado “baixo clero”, composto de membros de diversos partidos e estados. O governo credita esse apoio à ajuda que o carioca deu a esses deputados para que conseguissem financiamento para suas campanhas. Fontes dizem que ele ajudou a financiar pelo menos 200 campanhas para deputado federal por meio de desvios em diretorias de estatais, como a Petrobras e a Caixa. De acordo com a delação premiada do senador Delcídio do Amaral, a disputa política de Cunha com Dilma Rousseff teve início quando a presidente, recém-eleita, retirou dele a direção de Furnas.

Por fim, está o presidente do Senado, Renan Calheiros. Calheiros é um desafeto histórico de Temer e comanda parte do partido na Região Nordeste. Ele é senador desde 1995 e antes foi deputado federal de 1983 a 1991. Recentemente, perdeu influência tanto no governo quanto no partido, com o crescimento dos outros dois expoentes. A pressão que Cunha impôs ao governo na Câmara fez com que o alagoano perdesse indicações importantes em sua cota no governo, como a do Ministério do Turismo. Embora nunca tenha assumido posição, com a perda de espaço e poder, Calheiros foi obrigado a jogar mais próximo do governo, mas sem nunca se comprometer com ninguém. Jogam ao lado de Renan os senadores Valdir Raupp, de Rondônia, e Eunício Oliveira, do Ceará.

Agora, pela primeira vez desde que Sarney deu lugar a Fernando Collor na Presidência da República, o PMDB pode voltar a ocupar o cargo mais importante do país. “Dos três políticos mais fortes do partido, o único que almejava esse cargo era o Cunha, mas era um desejo pessoal. A cara do PMDB é o Renan Calheiros, que atua como pano de fundo para manter seus espaços de poder”, diz Mucinhato. Em um partido com tanta volatilidade de posições, é impossível saber como as peças vão se reorganizar num eventual governo Temer.