A tocha acende, o país queima 

Talvez você não tenha se dado conta, mas as Olimpíadas do Rio começam dentro de três meses. A partir desta terça-feira, mais de 12.000 pessoas vão carregar a tocha em sua passagem pelo Brasil. Mão a mão, o fogo vai percorrer 329 cidades. A viagem deveria simbolizar uma trégua entre os povos. Nada mais distante do momento brasileiro.

Hoje, a presidente Dilma Rousseff recebe a tocha em Brasília, mas quando os jogos começarem no dia 5 de agosto, no Rio de Janeiro, quem deve representar o país é o atual vice Michel Temer. A três meses da abertura, o Brasil tem um ministro do esporte interino – o secretário de alto rendimento Ricardo Leyser, que assumiu há um mês no lugar de George Hilton. Só Deus sabe quem será o ministro em agosto.

Os estádios e as instalações estão praticamente prontas. Mas, como é rotina no Brasil, o orçamento foi estourado em 50%. Obras de infraestrutura importantes, como a limpeza da Baía da Guanabara, não foram feitas. A ciclovia Tim Maia, que entrou no pacote dos jogos, desabou.

A crise econômica e a epidemia do vírus zika podem não entrar em quadra, mas já estão comprometendo os Jogos. No início do mês, o comitê organizador desistiu de bancar o custo da tocha, de 2.000 reais por cada um dos condutores. Os ingressos estão encalhados – até agora, só metade dos 7,4 milhões totais foram vendidos.

Tudo isso somado, a bicampeã de vôlei Fabiana Claudino, o matemático Artur Ávila, a professor Aurilene Vieira de Brito e outros 11.997 brasileiros escalados para levar a tocha devem ter seu brilho ofuscado.