“O Brasil envelhece como a Suécia e adoece como a África do Sul”

Patrícia Ellen e Claudio Lottenberg, autores de "A revolução digital na saúde", falam sobre o futuro digital e os desafios do acesso à tecnologia na saúde

São Paulo — A transformação digital que a área da saúde vem enfrentando fica cada dia mais complexa, principalmente no Brasil, onde a cada ano os gastos com medicina aumentam em função do envelhecimento da população.

Segundo dados do Banco Mundial, a relação entre a despesa federal primária do Brasil com saúde vem subindo continuamente, passando de 6,7% em 2008 para 8,3% em 2017. No ano passado, o gasto primário da União na área totalizou R$ 117,1 bilhões. Nesse ritmo, as estimativas apontam que, nos próximos dez anos, haverá um crescimento real de 25,9% na demanda por despesas primárias.

Esse panorama, no entanto, não será sustentável, uma vez que o investimento atual está condicionado a regras do teto dos gastos, vinculado à inflação. Há, contudo, exemplos internacionais que podem ensinar ao Brasil formas de aplicar a tecnologia para reduzir gastos com saúde e agregar componentes necessários para humanizar o atendimento médico no Brasil.

Esse desafio foi o ponto de partida que provocou Patrícia Ellen da Silva, Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, Sidney Klajner, presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein, e Claudio Lottenberg, presidente do Conselho Deliberativo do Hospital Albert Einstein e Chairman do UnitedHealth Group Brasil, empresa dona da Amil, a escreverem a obra “A revolução digital na saúde — como a inteligência artificial e a internet das coisas tornam o cuidado mais humano, eficiente e sustentável”, lançado nesta terça-feira (05), em São Paulo.

De forma didática, mas com informações complexas, o livro provoca o leitor a refletir sobre qual é o caminho para um bom futuro digital na assistência à saúde e quais são as lições que o Brasil deve aprender para se destacar no cuidado da sociedade. Em entrevista exclusiva a EXAME, Lottenberg e Patrícia citam quais são as principais lições da obra. Leia os principais trechos:

EXAME: O livro “A revolução digital na saúde” traz uma discussão aprofundada sobre o uso da tecnologia na área da saúde. Qual sua expectativa da repercussão da obra?

Claudio Lottenberg: No meu primeiro livro, “A saúde brasileira pode dar certo” (2007), eu já abordava a importância de os hospitais adotarem um sistema de tecnologia da informação, porque naquela época já existiam sinais de que essa revolução tecnológica poderia acontecer. Durante esses anos, eu percebi que nós [profissionais da saúde] devemos compreender que a tecnologia precisa estar a serviço do cidadão e não ao contrário. Ou seja, precisamos evitar o uso de ferramentas que não agregam transformação.

Nesse sentido, decidimos escrever um livro didático, que pudesse ser entendido por todos os interessados em aprender mais sobre saúde. O ponto principal foi trazer, de maneira concreta, uma contribuição acadêmica, que pode democratizar a saúde em termos de acesso e aprimoramento. É comum dizermos que estamos sem dinheiro para a saúde, mas, na maioria das vezes, estamos alocando mal os recursos.  A amplitude do debate da obra trará reflexões sobre como a medicina pode ser mais previsível se usarmos de forma eficiente a tecnologia.

O livro aponta quatro elementos tecnológicos que dominam a área da saúde hoje: Big Data e inteligencia artificial, internet das coisas, prontuário eletrônico e telemedicina. De que forma essas ferramentas podem ser relevantes para aperfeiçoar o atendimento à saúde? 

Na verdade, esses elementos são quase que interligados. Veja: o prontuário eletrônico é a base de tudo. É o principal documento onde você registra o histórico e os detalhes de um paciente. Se mudarmos a maneira de o médico trabalhar, porque parte dos profissionais não é ativa no mundo digital, conseguiremos gerar uma quantidade enorme de dados, que jamais seria possível agrupar de maneira manual.

O prontuário eletrônico é o ponto de entrada para o Big Data, porque quando tivermos uma grande quantidade de informações, será possível treinar a inteligência artificial para auxiliar nos tratamentos. Imagine o cenário: um paciente com doença pulmonar crônica está em casa e percebe na balança que ganhou peso, ou seja, está retendo líquido. Como a balança está equipada de inteligência artificial, ela vai acionar um chamado para o médico, que prontamente vai atender às necessidades de saúde do paciente. Essa rede de atendimento, que pode inclusive incluir a farmácia, é a internet das coisas. Atualmente, no entanto, nada disso funciona.

Ao mesmo tempo, quando se obtém mais dados e informações, é possível desenvolver de forma eficiente a telemedicina e conectar pacientes de suas casas ou de áreas remotas a superespecialistas em saúde. Dessa forma, a intervenção vai ser mais precoce.

Em outro trecho, o livro aponta que “estamos em transição permanente da aplicação da tecnologia na saúde”. Como deve ser feito o controle desse avanço para que a tecnologia seja utilizada de forma eficiente e transformadora?

O ponto principal da discussão é garantir que usemos a tecnologia para reformularmos o modelo de pagamento hoje adotado nos serviços de saúde. Atualmente, os consumidores pagam pelo consumo do material e não pelo desfecho do tratamento. Ou seja, quanto mais você consome, mais você cobra. Essa fórmula precisa mudar e isso só será possível com o auxílio de inteligência artificial.

A transformação digital, sem dúvidas, nos permite comparar práticas de assistência, identificar taxas de readmissão para prever gastos e melhorar o atendimento do pós-operatório. Além disso, a tecnologia também pode desenvolver uma infraestrutura para o paciente ser atendido em casa, com um custo mais barato e mais humano. Evidentemente que em um primeiro momento será necessário investimento, mas a longo prazo, o sistema de saúde e a sociedade ganham.

Um dos capítulos mostra o panorama de investimentos em tecnologia de países estrangeiros. Onde o Brasil entra nessa avaliação?

Bom, essa é uma questão complexa porque há vários “Brasis” dentro de um Brasil. Somos o maior sistema universal de saúde do mundo, que apresenta pontos positivos como o programa Saúde da Família, controle na taxa de mortalidade e aumento da expectativa de vida. Por outro lado, temos uma vasta gama de possibilidades para fazer com que a saúde seja mais acessível e democrática.

Podemos ter ganhos em investimento em telemedicina para regiões longínquas, centrais de monitoramento e prontuários eletrônicos. Essa é a parte que precisa passar por um cenário de inovação e investimento nos próximos anos, iniciativa que Israel, Índia e China já fazem há anos.

Quais serão os principais desafios dos próximos anos para que o Brasil avance no atendimento à saúde?

Devemos treinar profissionais com perfis diferentes, investir na atenção primária e desenvolver times multidisciplinares com enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas. Também podemos aproveitar a ampla capacidade de comunicação, que o 4G já traz e o 5G vai melhorar. O governo pode desburocratizar os processos, incentivar as iniciativas de inovação, que ficam em pausa porque a regulação é muito rígida. Por último, incentivar a integração do publico-privado. Uma pitada de liberalismo para a assistência.

EXAME: O livro “A revolução digital na saúde” traz uma discussão aprofundada sobre o uso da tecnologia na área da saúde. Qual sua expectativa da repercussão da obra?

Patrícia Ellen da Silva: A ideia do livro nasceu da urgência e da necessidade de discutirmos a amplitude, sem precedentes, do uso da tecnologia na saúde. Mas, na mesma velocidade em que as novidades são aplicadas, também há muitas lacunas de informação que precisam ser expandidas.

No capítulo do Brasil eu uso a frase: “o Brasil envelhece como a Suécia, morre como a Síria e adoece como a África do Sul, porque ainda somos um país com profundos contrastes”. Em função dessa realidade, se não fizermos nada nos próximos anos, teremos um grande problema a enfrentar mais pra frente.

Hoje, gastamos entre 9% e 10% do PIB, mas a projeção é que isso aumente de 20 a 25% do PIB nos próximos anos. Em todos os capítulos, tentamos trabalhar com o conceito de didatismo, em que o leitor pode achar facilmente as informações. Pegamos um tema complexo e tentamos fazer de forma simples.

A prevenção é destacada na obra como um dos caminhos mais necessários de aplicação da tecnologia. Como essa inserção deve ser feita?

A prevenção tem um papel fundamental para os gastos da saúde: quanto mais cedo você atuar na doença, mais você economiza no futuro. Hoje as estimativas mostram que, pelo menos, 30% dos maiores gastos são usados nos últimos três meses de vida do paciente. Isso porque estamos sempre tratando a urgência.

Em relação à aplicação da tecnologia nesse processo, o livro aborda o conceito de internet das coisas que pode ser aplicada de forma prática na prevenção. No capítulo que dissecamos o sistema do Reino Unido, mostramos como eles aplicam a ferramenta no autocuidado do paciente, com aplicativo de bate-papo, linha telefônica com inteligência artificial treinada com protocolos médicos.

Outro exemplo relevante é na aplicação especifica da telemedicina. Mas tudo isso deve ser pensado levando em consideração a realidade do Brasil. Temos uma questão importante de regulação da telemedicina, que precisa ser resolvida. É urgente desenvolvermos um Plano Diretor Nacional com os direcionamentos da saúde digital, para que comecemos a desenhar a governança, a conectividade, a estrutura física e os recursos humanos necessários.

Qual a principal reflexão que o projeto do livro trouxe para a senhora?

Conseguimos refletir que a tecnologia traz riscos, se ela for usada de forma superficial, deixando os atendimentos e interações mais robotizados. Mas, a tecnologia pensada e aplicada de maneira correta vai melhorar o relacionamento do profissional de saúde com o paciente e a medicina vai ficar cada vez mais humana.