O ano em que cúpula da era Lula foi parar no banco dos réus

O julgamento do mensalão levou à condenação de 25 políticos e empresários por crimes de corrupção ocorridos durante o primeiro mandato do ex-presidente

Brasília – A impunidade e a corrupção, dois males que para muitos são endêmicos no Brasil, foram atacados como nunca neste ano, com a ação penal 470, o julgamento de grandes proporções que condenou à prisão 25 políticos e empresários por crimes de corrupção ocorridos durante o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Foram mais de 50 audiências no Supremo Tribunal Federal (STF) para que os juízes concluíssem que o PT criou e manipulou, entre 2002 e 2005, uma rede de corrupção com a qual financiou suas campanhas e subornou dirigentes de quatro partidos para “comprar” a maioria parlamentar que Lula não havia conquistado nas urnas.

“Foi o mais ousado e escandaloso esquema de corrupção e desvio de dinheiro público descoberto no Brasil”, opinou o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, em um relatório que enviou ao STF com 44.265 páginas repletas de “provas documentais” e mais de 600 testemunhos.

Dos 37 acusados no chamado julgamento do mensalão, 25 foram considerados culpados e condenados a penas que, no total, chegam a 282 anos de prisão por escândalos que tanto Lula como o PT, partido que o ex-mandatário fundou em 1980 sob a bandeira da ética e da honestidade, ainda não aceitam e negam.

Entre os condenados, os mais proeminentes são o ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, o ex-presidente do PT, José Genoino, e o antigo tesoureiro dessa formação, Delúbio Soares, todos do entorno mais íntimo do ex-presidente Lula.

Dirceu, que alega ter sido “vítima” de um “tribunal de exceção” e de um “julgamento político”, recebeu uma sentença de dez anos e dez meses de prisão como “chefe” e “mentor” dos crimes de corrupção.


“(Dirceu) era plenipotenciário e, na prática, operava como um primeiro-ministro” do governo, disse o então presidente do Supremo, Carlos Ayres Britto.

A pena mais dura foi aplicada ao publicitário Marcos Valério Fernandes, que pôs duas de suas empresas a serviço da rede criada pelo PT e foi condenado a 40 anos de prisão.

Nos lances finais do julgamento, e já sentenciado, Fernandes se apresentou à Procuradoria Geral da República (PGR) para negociar uma redução de pena em troca de uma nova declaração, na qual afirmou que Lula, que não foi incluído entre os acusados, “sabia” de tudo, “aprovou” e inclusive obteve “benefícios pessoais” com o esquema.

A tentativa foi em vão, mas serviu para projetar a nuvem do escândalo sobre Lula, que desde o início do processo, em 2 de agosto, se negou a falar sobre o assunto.

Os analistas políticos são unânimes ao dizer que o julgamento foi um duro golpe à impunidade e reverte a ideia, generalizada no Brasil, de que a corrupção nunca é punida.

“As instituições funcionaram e mostraram que pode acabar com a impunidade” e que “os poderosos nem sempre são imunes”, disse à Agência Efe o analista Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais, para quem o processo deixa como “advertência de que não vale tudo na política”.

Reis e outros analistas, no entanto, defendem que o julgamento não afetou a imagem do PT, que nos últimos 10 anos promoveu políticas sociais que favoreceram dezenas de milhões de excluídos e criaram uma nova “classe média” no país.

De fato, e apesar das dimensões de um processo que manteve a política nacional em grande expectativa, a maioria da população não pareceu prestar muita atenção aos fatos.

Embora todas as sessões tenham sido públicas, em cada uma delas sempre houve mais jornalistas que curiosos – que geralmente eram estudantes de direito.

Cada sessão foi transmitida ao vivo pela televisão, mas só por canais a cabo e os níveis de audiência foram mínimos, apesar de o caso ter dominado espaços em todos os veículos de imprensa durante quase seis meses.

O baixo interesse do povo explica, segundo muitos analistas, que o PT tenha sido o partido que mais cresceu nas últimas eleições municipais, em outubro, já durante o processo.