O abismo entre escolas públicas e privadas

Nesta terça-feira, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgou o ranking das escolas com melhor pontuação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). E a desigualdade entre as condições de escolas públicas e privadas é marcante. A média geral das escolas brasileiras é 525 pontos, mas 91% das escolas públicas estão abaixo da média.

E os dados são claros ao mostrar que o fator que mais influencia a nota das escolas é a renda dos alunos. Quando o Indicador de Nível Socioeconômico é considerado muito alto, a média é 599; quando é muito baixo, ela cai para 454. Outros fatores como o tamanho da escola, o nível de qualificação dos professores e o índice de permanência na mesma escola ao longo de todo o Ensino Médio não têm tanto impacto no resultado final.

A participação no Enem, por si só, já demonstra desigualdade. No Brasil, são mais de 2 milhões de alunos matriculados no 3º ano do Ensino Médio, mas apenas 58% se inscrevem e realizam a prova em sua plenitude. Tanto que as escolas de renda média-alta, alta e muito alta, juntas, representam 65% do total de escolas que participam do teste. “O que a gente espera de uma reforma do ensino médio é o entendimento dessa diferença. Precisamos criar condições distintas para quem tem condições distintas – é a única forma de reduzir esse abismo”, diz Alexandre Oliveira, cofundador da Meritt Educação, empresa especializada na análise de dados educacionais.

Um bom exemplo é o da cidade de Sobral, município no interior do Ceará distante mais de 200 km de Fortaleza. No final da década de 1990, Sobral decidiu fazer testes de aceleração para os alunos em nível incompatível com a série que cursavam e decidiu focar as ações nas escolas que apresentavam menores índices. O modelo foi replicado no estado e, em 2015, das 10 escolas grandes com alunos de renda muito baixa que tiveram melhores notas no Enem, nove são do Ceará. Apesar da baixa renda, os alunos cearenses estão participando da prova – o problema é que a melhor escola atingiu a nota 467,78, ainda bem abaixo da média nacional. Fica claro que uma reforma do ensino médio que não leve em conta essas diferenças só vai agravar as desigualdades.