Novo governador de Minas Gerais quer secretários “voluntários”. Funciona?

Falta de salário não será problema para governador eleito, que tem patrimônio de 69 milhões de reais, mas pode ser obstáculo para secretariado

São Paulo – Romeu Zema se tornou neste domingo (28) o governador de Minas Gerais e o primeiro nome eleito para o Executivo pelo Partido Novo, que estreou nas eleições 2018.

Em seu primeiro dia como governador eleito, Zema se reuniu com dirigentes partidários em Minas e criou um grupo de trabalho para a transição de governo e formação do secretariado.

Entre os consultores já definidos está o ex-presidente do Banco Central no governo Fernando Henrique Cardoso e um dos criadores do Plano Real, Gustavo Franco, coordenador econômico do partido.

Franco não aceitou o convite para a secretaria de Fazenda, mas contribuirá na gestão das finanças: “Ele terá um cargo consultivo e virá uma vez por semana para nos auxiliar”, disse Zema.

Zema já havia dito que se Franco não aceitasse, a Fazenda seria ocupada com alguém de perfil similar e a escolha do nome para todas as pastas, segundo ele, terá critérios técnicos e não políticos.

“Minas é como um paciente em fase terminal e não podemos pecar na escolha dos médicos, senão o paciente morre. É a mesma coisa com o governo”, ressaltou Zema.

Os critérios serão avaliados pelo grupo de trabalho: “Vamos contratar uma empresa de recrutamento para nos dar alguns nomes que estejam dentro do que avaliamos como fundamental para cada pasta. Será uma gestão o mais profissional possível”, disse o governador eleito.

Desafios

Um dos entraves para uma gestão “mais profissional possível”, como Zema costuma falar, é a governabilidade.

O governador eleito diz que sua gestão não será um “balcão de negócios”, com apoio no Legislativo trocado por cargos no governo. Mas o Novo elegeu somente três deputados estaduais em uma Assembleia Legislativa com 77 representantes, e não fez coligação com outros partidos.

Zema não vê problema nessa configuração e promete ser o governador que mais vezes irá à Casa para dialogar com os deputados: “É um trabalho longe de ser fácil, mas muito longe de ser difícil”.

Paulo Paiva, professor de Gestão Pública associado da Fundação Dom Cabral (FDC), disse que para estratégia dar certo sem o ‘toma lá, da cá”, Zema precisará de uma habilidade grande de convencimento.

O segundo desafio é cumprir a promessa de campanha de que ele, seu vice, Paulo Brant, e todos os secretários não receberiam salário até equalizar os pagamentos do funcionalismo público.

Desde 2009, o gasto com inativos avançou 233% enquanto as receitas subiram 114%. Desde 2016, em função da situação fiscal, os servidores públicos recebem salários de forma parcelada.

A falta de salário não será um problema para o governador: ele é dono do Grupo Zema, que tem desde negócios de moda aos postos de combustíveis, passando pelo carro-chefe que são as lojas de eletrodomésticos e móveis.

O grupo faturou no ano passado, 4,5 bilhões de reais e o governador eleito declarou patrimônio de 69 milhões de reais ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE). 

Mas como encontrar profissionais na iniciativa privada que tenham conhecimento dos processos da gestão pública e estejam dispostos a trabalhar de forma “voluntária” por pelo menos dois anos?

“Ele pode não recrutar os melhores por não ter como pagar o salário. As pessoas trabalham e precisam receber. E acho que isso nem passou pela cabeça dele (Zema), mas quem aceitar uma das secretarias não pode receber por fora, da iniciativa privada. Isso é corrupção. Acho que ele terá dificuldades de encontrar as pessoas mais competentes”, disse Paiva.

Segundo o professor, para resolver essa questão, os indicados podem ser funcionários de carreira do estado ou aposentados que se disponham a viver apenas com a renda da aposentadoria.

“Ele está pensando de forma criativa, mas é complexo esse movimento. Acredito que ele pode perder muita gente competente por isso”, diz Paiva.

A questão foi levantada por seu rival Antonio Anastasia (PSDB) no primeiro debate do segundo turno, realizado pela Band Minas no dia 19:

“Os secretários serão todos milionários? Governo de ricos só pensa em pessoas ricas. O governador deve ter sensibilidade com os mais humildes”.

Reforma administrativa

Zema também prometeu na campanha que vai reduzir o número de secretarias no estado das atuais 21 para apenas 9. Para realizar esta reforma, ele precisará da aprovação da Assembleia Legislativa.

Segundo Paiva, há dois caminhos: um deles é fazer um acordo com o atual governador Fernando Pimentel (PT) para que ele envie para o Legislativo um projeto de lei para dar plenos poderes para o próximo governo mudar a estrutura administrativa do estado.

“Ou ele pode nomear alguns secretários fundamentais ao estado, aquelas secretarias que não serão extintas, e depois mandar um projeto de lei para a Assembleia para realizar a reforma. Mas, de todo jeito os deputados precisam aprovar as mudanças”, explicou o professor.