Mercado reduz PIB e acelera inflação: isso tem lógica?

Economistas ouvidos por EXAME.com dizem que o esfriamento da economia brasileira não será suficiente para salvar o centro da meta de inflação em 2011

São Paulo – As projeções inflacionárias pioram a cada semana, gerando um consenso de que o centro da meta (4,5%) não será atingido neste ano. Ao mesmo tempo, em resposta a medidas monetárias e fiscais, boa parte do mercado está reduzindo as estimativas para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Se a economia vive um processo de desaceleração, por que os analistas continuam inflando as perspectivas para o IPCA?

No final do ano passado, a expansão da economia brasileira acima dos 4% em 2011 era dada como certa pela ampla maioria. No entanto, o piso das expectativas está virando teto para algumas consultorias. Na Tendências, o crescimento do PIB neste ano foi revisado de 4,4% para 3,9%. “A produção industrial está abaixo do esperado e a massa salarial não deve avançar tanto”, diz o analista Rafael Bacciotti.

A consultoria Rosenberg & Associados está com viés de baixa para a variação de 4,5% do Produto Interno Bruto. “Além do fraco desempenho da indústria, o comércio vai mostrar uma desaceleração”, diz a economista-chefe Thaís Zara.

Enquanto o ajuste fiscal de R$ 50 bilhões permanece envolto por um ar misterioso, as chamadas medidas macroprudenciais, anunciadas pelo Banco Central (BC) em dezembro do ano passado, despertam mais dúvidas do que certezas. Até que ponto elas estão sendo capazes de reduzir o crédito? Um balanço parcial divulgado recentemente pelo próprio BC trouxe algumas pistas. “Nós acreditamos que essas medidas somadas a mais duas altas de meio ponto percentual nos juros terão um efeito importante, embora os preços no segmento de serviços ainda devam seguir bastante pressionados”, avalia Fábio Romão, economista da LCA Consultores, que reduziu de 4,3% para 3,6% a previsão de alta do PIB neste ano.

O boletim Focus do Banco Central ainda mantém em 4,5% a mediana das expectativas para a expansão da economia brasileira neste ano. No entanto, um olhar mais atento mostra que a média das estimativas já está num nível inferior, o que deve ser sentido nas próximas pesquisas do mercado.

O professor do departamento de Economia da PUC-Rio e economista-chefe da Opus Gestão de Recursos, José Márcio Camargo, não pretende reduzir agora a sua projeção para a elevação do PIB neste ano, atualmente entre 4% e 4,5%.Porém, ele reconhece que a economia brasileira está em desaceleração e que a inflação deste ano já está “mais ou menos dada”, na casa dos 5,8% – distante do centro da meta.


Se o PIB vai crescer bem menos nesse ano, por que as perspectivas inflacionárias só pioram? Essa aparente contradição tem ao menos cinco explicações, segundos os economistas ouvidos por EXAME.com.

1) todos os analistas concordam que as perspectivas são fortemente influenciadas pela inflação corrente, que está muito alta.

2) a inflação acumulada no primeiro trimestre deste ano será muito elevada, tornando impossível o retorno ao centro da meta ao longo do ano. “O trimestre já comprometeu o ano por causa da alta de alimentos, educação e transporte público”, afirma Rafael Bacciotii.

3) o reflexo do desaquecimento da economia na inflação leva um tempo para ser constatado. “Um crescimento menor do PIB neste ano só deve ser sentido na inflação de 2012”, diz Thaís Zara.

4) a inflação de serviços, que sofre indexação do explosivo IGP-M e é impulsionada pelo aumento na renda, ainda permanecerá em um patamar elevado durante o ano inteiro, prejudicando o índice total. “Os serviços acumulados em 12 meses devem chegar a 8,4% em fevereiro, encerrando dezembro num patamar ainda elevado de 7,7%”, prevê Fábio Romão.

5) parte da inflação é importada, ou seja, a alta em dólar dos preços das commodities internacionais afeta diretamente o mercado interno. “Como o governo evita uma valorização ainda maior do câmbio, há um forte aumento em reais desses produtos no Brasil”, diz José Márcio Camargo.

Num cenário em que as expectativas inflacionárias só pioram, não deveria haver dúvidas sobre a necessidade de um forte aperto monetário. De fato não há esse questionamento no mercado financeiro. Porém, não se pode ignorar a pressão política do governo do PT para que o Banco Central não exagere na dose, comprometendo o desempenho econômico nos próximos anos. Diz José Márcio Camargo: “Esse risco (de exagerar na dose) existe, ainda mais agora que temos uma combinação de ajuste fiscal com medidas macroprudenciais e taxa de juros, cujos efeitos são incertos. No entanto, a prioridade é retomar o controle das expectativas inflacionárias.”

Em outubro de 2008, o Banco Central foi duramente criticado por alguns economistas e principalmente pelos empresários por elevar os juros no momento em que estourava a crise internacional. Naquela época, a inflação elevada era o inimigo premente a ser combatido, pois a alta registrada em 12 meses chegava a 6,41%, segundo dados do IBGE. O quadro atual não é muito diferente. Com IPCA acumulado em 5,99%, restam poucas alternativas aos diretores do BC. Ficar esperando de braços cruzados os preços caírem não parece ser a opção preferida pelo mercado. “Mesmo com a quebra do Lehman Brothers (em setembro de 2008), a inflação ainda demorou dez meses para retornar ao patamar de 4,5%”, lembra Fábio Romão. É o cumprimento da meta de 2012 que está em jogo neste momento.