Mendes e a imagem do Supremo

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, não pode ser acusado de jogar pra torcida. No sábado, jantou com o presidente interino, Michel Temer, no Palácio do Jaburu. Mendes chegou em um carro particular, e o encontro não estava na agenda de ambos. O ministro também é presidente do Tribunal Superior Eleitoral e, de acordo com o Planalto e o TSE, o encontro aconteceu para discutir o orçamento das próximas eleições municipais, em outubro.

Vai saber. O fato é que o momento para a visita não poderia ter sido pior. Gilmar Mendes assume hoje a presidência da segunda turma do Supremo, que avalia a maioria dos recursos de políticos da Lava-Jato.
Na semana que passou, áudios divulgados pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado mostraram a tentativa de envolvidos na Lava-Jato de articular com o tribunal um plano de “salvação nacional”.

Com a posse na segunda turma, o ministro passa a ser ainda mais relevante para a Operação. Como presidente do TSE, ele tem o poder de escolher a ordem e quando os recursos de políticos serão julgados. Além disso, Mendes tem sido criticado por algumas opiniões proferidas, como quando elogiou Temer antes de o então vice-presidente assumir a Presidência, quando criticou decisões de outros ministros da corte, ou quando devolveu com celeridade processos contra o senador Aécio Neves após ter se encontrado com ele na véspera.

“A imagem que Mendes passa não é de independência”, diz uma advogada paulista com bom trânsito nos tribunais. “Cada personagem da República ocupa uma função, e ele, às vezes, extrapola a sua”. Ainda segundo especialistas, encontros como esse de forma alguma significam que Mendes possa ser influenciado ou agir de maneira incompatível com o que se espera de um ministro do Supremo. A melhor resposta às críticas ele deve dar na corte. O Brasil está torcendo – e de olho.