Os planos da AGLO para ocupar o Parque Olímpico

Autarquia do Ministério do Esporte explica plano para atrair eventos, atletas e projetos sociais para o palco da Rio-2016, subutilizado desde o ano passado

Rio de Janeiro – Um ano após o encerramento das Paralimpíadas de 2016, o Parque Olímpico do Rio de Janeiro voltou a receber um grande evento nesta sexta-feira. A área que pertence ao consórcio RioMais, controlado pela empreiteira Odebrecht, recebe os sete dias de shows do Rock in Rio, que vai até o próximo domingo, dia 24. Dentre as atrações, estão bandas como Maroon 5, The Who, Guns N’ Roses e Red Hot Chili Peppers. A expectativa é atrair 85.000 pessoas por dia.

Paralelamente, as Arenas 1 e 2 recebem o Game XP, um dos maiores eventos de games e cultura geek do país, promovido também pelo Rock in Rio. As instalações fazem parte do pacote de equipamentos olímpicos geridos pela Autoridade de Governança do Legado Olímpico (AGLO), estas, sim, públicas e ligadas ao Ministério do Esporte. A verba de locação do espaço será destinada a reparos e adaptações nas arenas, para transformá-las em área de treinamento de esporte de alto rendimento e palco de ações de formação de novos atletas e projetos sociais. Só esse evento vai render 880.000 reais em benfeitorias.

Quem detalha os planos para o Parque Olímpico é Paulo Márcio Dias Mello, presidente da autarquia, indicado pelo ministro do Esporte, Leonardo Picciani (PMDB-RJ). Ele recebeu a reportagem no escritório improvisado da AGLO, embaixo da arquibancada do Velódromo. Encher uma agenda de eventos e reinvestir o dinheiro no Parque Olímpico é a estratégia para devolver aos cariocas o prometido “legado” dos Jogos. A promessa é de que agenda esteja completa até novembro, e que nada de dinheiro público seja gasto com custeio a partir do ano que vem.

O parque poderia estar sendo usado pela população, mas está vazio. Por quê?

É preciso voltar às atribuições de cada um. A Prefeitura, no final do ano passado, tentou uma PPP. Só uma empresa participou, e foi desclassificada. Houve um equívoco. Se esperava muito de uma PPP que acabou não ocorrendo. Como não havia plano B, isso retarda o trabalho. A Prefeitura, com receio de não ter recursos, passou quatro arenas para a União em dezembro. Arenas 1 e 2, Velódromo e Tênis são da União; Arena 3, da Prefeitura. Handebol e Aquático estão com a Prefeitura, mas serão desmontadas. A Via Olímpica também está com a Prefeitura. O resto está com a iniciativa privada. O ministro do Esporte criou uma autarquia federal com independência administrativa e financeira para gerir toda a estrutura do Parque Olímpico. Entendo a ansiedade da população e da imprensa no sentido de gerar ocupação, mas o parque nunca esteve abandonado. O período de transição acontece no mundo inteiro. Londres demorou dois anos para entregar à população, a China também.

Ainda não há data então?

Estamos construindo uma autarquia federal do zero. Começamos a ter um primeiro planejamento estratégico. Queremos trazer as federações e confederações e ver como proporcionar a utilização desse legado por atletas de alto rendimento, de base, projetos de inclusão social e população. Assinamos três termos de cooperação — com o Comitê Olímpico Brasileiro, com o Comitê Paralímpico Brasileiro e com o Comitê Brasileiro de Clubes. Tenho o calendário completamente preenchido até o final do ano. Tivemos aqui uma etapa do Mundial de Vôlei de Praia, tênis de mesa, carioca de ciclismo, jiu-jitsu pró, além de projetos de inclusão social, como o Esporte e Cidadania para Todos. Nós tivemos também o Brincando com Esporte, em janeiro, que visava tirar as crianças das comunidades carentes no período de férias; foram atendidas cerca de 800 crianças das comunidades do entorno.

São todos projetos em fins de semana. E nos outros dias? Não há treinos?

Até novembro, queremos ter um calendário de eventos durante a semana completamente preenchido. E a partir de novembro, teremos treinamento de alto rendimento. Queremos que todas as federações que desejem tenham uma sala aqui, para que seus atletas venham treinar. Fizemos uma parceria da AGLO com todos os hotéis da redondeza, e todos os atletas e corpo técnico poderão se hospedar ao preço de 90 reais a diária com café da manhã. Acredito que isso atraia a possibilidade de os atletas virem treinar no Parque Olímpico. Os hotéis aqui, depois que a Olimpíada terminou, sofrem um processo de ocupação mínimo. Temos uma ocupação em torno de 8%. Mas o maior desafio agora é locar as arenas, para conseguir arrecadar fundos para fazer centro de treinamento sem qualquer investimento público.

Há exemplos?

A Confederação Brasileira de Vôlei realizou dois eventos aqui. O Rock in Rio vai fazer um evento internacional aqui; também teremos ComicCon e Games XP, eventos de porte internacional. Com esta verba vamos adaptar nossos centros de treinamento de alto rendimento. Fiz um orçamento para colocar o drywall na Arena 2 e custava 48.000 reais. Teria que fazer um processo licitatório para contratar uma empresa. Tem uma burocracia que às vezes atrapalha o gestor público de realizar, num curto espaço de tempo. Agora, os próprios ComicCon e Games XP vão colocar esse drywall e descontar como contrapartida. Isso proporcionou à Arena que outros eventos fossem realizados, inclusive com licença do Corpo de Bombeiros, que não tínhamos. Acabamos preenchendo essas lacunas de benfeitoria para o legado num curto espaço de tempo.

É um plano de financiamento com potencial permanente?

Vamos fazer uma outra etapa. A primeira é planejamento de ocupação nos fins de semana e nos dias de semana. Depois, um projeto de auto sustentabilidade, em que o legado consegue caminhar sem qualquer necessidade de investimento público. Paralelo a isso, estamos estudando um projeto junto ao BNDES, que prevê uma possível PPP, sob novos moldes, com a iniciativa privada sabendo que isso pode gerar benefícios financeiros. Também acabo de assinar um termo de cooperação com o professor Roberto Gesta. Ele é o maior colecionador do mundo de acervo olímpico, tem medalhas da época da Grécia, de valor inestimável. E vamos criar aqui dentro do Velódromo um Museu Nacional do Esporte. Sem qualquer investimento público; todo ele será montado com a ajuda da iniciativa privada. Os caminhos foram dados.

Hoje o parque é muito fechado, cercado por grades. Todos os carros que chegam aqui têm os porta-malas checados na entrada. Até quando vai durar isso?

A passagem pública, a pé, está aberta, ninguém é revistado. Carros são revistados porque, segundo informações obtidas do consórcio RioMais, tivemos informações de furtos, muito antes mesmo da existência da AGLO. A revista é feita por uma empresa contratada da RioMais, e nós respeitamos.

Quais as dificuldades para a manutenção dos equipamentos, além da questão de verba?

Reparos. O laudo foi apresentado à Prefeitura, e a resposta está sendo analisada pela equipe de infraestrutura, com relação às arenas que a União toma conta. A Prefeitura informou que eles estariam acionando as empresas que construíram as arenas para que, dentro da garantia, elas efetuassem esses reparos.

Quanto se gasta hoje com a manutenção do Parque?

Não estamos gastando nada. Na manutenção, estamos ainda em fase de licitação. A previsão de gasto anual é de 45 milhões de reais. Isso entra tudo: manutenção predial, água, luz, limpeza, pessoal, vigilância, uma série de serviços. Tenho monitorado mensalmente uma planilha de custos.

E como está sendo a entrada de dinheiro?

Este ano, especificamente, todo o nosso orçamento corre por conta do Ministério do Esporte. Quando nós precisamos de recursos para fazer uma licitação, o ministério transfere esses recursos para a AGLO.

Qual vai ser o plano de atração dos atletas para cá?

A primeira coisa foi fechar essa parceria com os hotéis. Depois, fizemos termos de cooperação: temos o COB aqui do lado, ocupa o Parque Maria Lenk. Tão logo nosso centro de treinamento esteja pronto, já tem gente doida para vir para cá e colocar os atletas para treinarem. Muitos não têm estrutura. Já tivemos diversas reuniões com federações e confederações, buscando justamente um plano estratégico de desenvolvimento de atletas, não apenas para melhorar a preparação de atletas do atual ciclo, mas também para descoberta de novos atletas. Assinamos um termo de cooperação com a UERJ, onde vamos trazer para cá um centro de estudo e pesquisa, voltado justamente para isso. Acabando o ComicCon e o Games XP, será foco total.

 

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