Marina Grossi: é hora de repensar a energia

Durante a Conferência do Clima das Nações Unidas, a Cop-21, realizada em dezembro, em Paris, o governo brasileiro alardeou algumas metas de combate às mudanças climáticas. Uma delas foi obter uma melhoria de 10% de eficiência energética no setor elétrico até 2030. Nenhuma estratégia que revele como esse número será alcançado foi divulgada até o momento. E não é de se esperar que isso aconteça num futuro muito próximo. A economista Marina Grossi, porém, é otimista. Há seis anos como presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, o Cebds, que reúne 70 grandes companhias e é referência na discussão da sustentabilidade no setor privado no país, ela está convicta de que o governo de Michel Temer terá de colocar esse tema na agenda. “É a forma mais barata de atender à demanda”, afirma. Ela concedeu a seguinte entrevista a EXAME Hoje.

A questão da eficiência energética está nas metas de redução de emissões do Brasil, mas sabemos que nenhum governo até hoje deu importância ao tema. Alguma chance desse assunto finalmente entrar na agenda do governo de Michel Temer?
Nosso desempenho nesse tema é realmente sofrível. A título de comparação, em um ranking de eficiência energética com as 16 maiores economias do mundo, o país ficou na penúltima colocação, melhor apenas que o México. Há chances, porém, de melhorar esse cenário, pois é um tema que tem ganhado cada vez mais protagonismo no setor empresarial. Fizemos um estudo que mostra que, se alcançados os 10% de ganhos de eficiência energética, as tarifas de energia poderiam ser reduzidas em 17% até 2030. Ou seja, trata-se de uma estratégia barata para atender à demanda. Só que o governo tem de agir e sinalizar escolhas que indiquem ganho futuro. A implementação de nossas metas climáticas demandará um planejamento estratégico e há uma questão importante a ser superada: a transposição das barreiras à eficiência energética.

Que barreiras seriam essas?
Um dos principais entraves é justamente a falta de informação sobre o potencial de eficiência energética existente. Os consumidores desconhecem as tecnologias de conservação e o seu custo-benefício. Faltam também linhas de financiamento para impulsionar esses investimentos. Por isso o estudo que lançamos trata disso: apresentamos potenciais, como aproveitá-los e quais são os benefícios em números. O setor empresarial vem estudando saídas, de maneira que governos de todas as esferas, independentemente de vínculo partidário, encontrem um direcionamento para agir de forma mais rápida e eficaz.

Um cenário futuro que vai exigir muita austeridade nas contas públicas pode ser benéfico para impulsionar a eficiência energética no país?
Sabemos que haverá, inevitavelmente, priorização de agendas de curto prazo, dificuldade de concessão de incentivos e também de contração do crédito público. Será necessário alocar os recursos disponíveis em escolhas que façam sentido no curto, médio e longo prazos. Investimentos em eficiência energética podem gerar uma redução importante na tarifa da energia elétrica de até 27%. Essa é uma questão crucial para a indústria, para o consumidor doméstico e para a inflação no país. Sabemos que, ainda que as medidas de eficiência energética se paguem rapidamente, há um investimento inicial necessário, no que se refere aos recursos públicos. Porém, o setor empresarial vem trabalhando para ganhar autonomia nesse processo, buscando alternativas de financiamento, preparando essa agenda para que, quando a economia ganhar fôlego novamente, possa implementar tais medidas de imediato.

Os especialistas defendem que impulsionar a eficiência energética demanda, sim, investimentos num primeiro momento. Mas que esses investimentos se pagam. O quanto esse estudo ajuda a endossar esse raciocínio?
Definitivamente, o estudo endossa essa perspectiva. Primeiro porque ele apresenta resultados líquidos para o sistema elétrico, que são economias que vão de 58 a 90 bilhões de reais em custos de operação e em investimentos para a expansão da oferta. Além disso, o trabalho indica uma priorização de medidas a serem adotadas por tempo de retorno do investimento. Algumas delas apresentam um tempo de retorno inferior a um ano. Estamos falando de práticas como tirar aparelhos da tomada nas casas e empresas, além de instalar equipamentos mais eficientes nas fábricas.

É sabido que precisamos estabelecer padrões mínimos de eficiência energética para dezenas de produtos e também para alguns equipamentos usados na indústria. Isso, porém, exigiria investimentos da própria indústria, o setor mais penalizado com a crise. Que mecanismos seriam ideais para impulsionar essas mudanças?
Ainda que, no cenário atual, o dinheiro esteja escasso, a economia de baixo carbono oferece muitas oportunidades a serem aproveitadas. Sabemos que medidas de eficiência energética, em especial para a indústria, que foi responsável, em 2014, por cerca de 38% da energia consumida no Brasil, gerariam economias em um prazo muito curto.

Que medidas, por exemplo?
Investimentos no aumento da eficiência de motores elétricos, um equipamento crítico para o consumo de energia do setor industrial, seriam recuperados em um ano e meio. Iniciativas mais simples, como a troca de lâmpadas fluorescentes por LED, já começam a dar retorno em curtíssimo prazo. Também sabemos que é possível gerar a realocação de recursos. Para isso, instrumentos de precificação de carbono são eficazes e eficientes economicamente. À medida que a emissão passa a ter um preço e que emitir passa a não ser mais grátis, quem emite menos torna-se mais competitivo. Essa é uma agenda global, que envolve os tomadores de decisão de todos os setores: governo, empresários, instituições financeiras e investidores.

Há algum plano de apresentar o estudo ao ministro de Minas e Energia, Fernando Bezerra Filho?
Sim, à medida que o novo governo se estabeleça, faremos esse contato porque queremos que o nosso Conselho de Líderes tenha interlocução com os ministros. Precisamos mostrar que algo novo pode ser realizado de uma maneira nova. O empresariado não está de mão estendida, pedindo soluções, incentivos. Ao contrário, quer contribuir com sua capacidade técnica, conhecimento de mercado e convicção de que o futuro pertence a uma economia de baixo carbono. Trata-se de um rumo irreversível, e o Brasil deve tomá-lo de imediato.

(Ana Luiza Herzog)