Manuela D’Ávila vai prestar esclarecimento na Câmara sobre mensagens

Manuela D'Ávila foi chamada para explicar o contato que fez entre o hacker de autoridades brasileiras e o jornalista Glenn Greenwald

São Paulo — A Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado da Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira (13) um requerimento para que a ex-deputada Manuela D’Ávila preste esclarecimentos sobre seu envolvimento com os vazamentos de mensagens que vêm sendo divulgados pelo site The Intercept Brasil.

A proposta aprovada foi apresentada pelo deputado Capitão Augusto (PSL-SP). Ainda não há data marcada para a participação da ex-deputada.

Segundo o parlamentar, como o nome de Manuela foi citado no depoimento do hacker Walter Delgatti Netto, o “Vermelho”, preso em operação da Polícia Federal, em 23 de julho, é necessário que ela faça esclarecimentos.

“Tendo em vista que esse grupo de hackers é investigado justamente pelos graves crimes ocorridos, o envolvimento da referida senhora com esses indivíduos precisa ser esclarecido, para entender qual sua vinculação com os investigados e,  eventualmente, com a ação ilícita de que são acusados”, afirma o requerimento.

Em seu perfil oficial no Twitter, Manuela afirmou que “vai amar ir na Câmara falar sobre crimes cometidos por autoridades do Estado brasileiro”.

Relação com hacker

Em 26 de julho, “Vermelho” revelou que a ex-deputada foi a intermediária entre ele e o jornalista Glenn Greenwald, editor do site The Intercept Brasil.

A informação foi dada em depoimento de Walter para a Polícia Federal e confirmada pela própria Manuela.

Segundo “Vermelho”, em março de 2019, ele teria descoberto a maneira com a qual hackeou autoridades. À PF, Delgatti diz ter invadido o aplicativo Telegram de um promotor de Araraquara que o denunciou por tráfico, envolvendo apreensão de remédios em sua casa.

A partir da conta do promotor, acessou um grupo de Procuradores da República. Em seguida, teria acessado o ex-procurador-geral Rodrigo Janot, e, em seguida, de três procuradores da força-tarefa da Lava Jato, como o coordenador Deltan Dallagnol.

“Vermelho” diz acreditar que as mensagens de Telegram não podem ser alteradas em razão do “formato” do aplicativo. O hacker afirma ter invadido também celulares de procuradores da Operação Greenfield, mas não encontrou irregularidades.

No depoimento, “Vermelho” declarou que ligou para Manuela D’Ávila no dia das Mães, relatou que “possuía o acervo de conversas do Ministério Público Federal contendo irregularidades” e pediu o número de Glenn.

O hacker contou que a ex-deputada não estava acreditando, então, ele decidiu mandar a ela uma gravação de áudio entre os procuradores Orlando e Januário Paludo, da força-tarefa da Lava Jato.

Em uma nota publicada no dia do depoimento, a ex-deputada afirmou que também teve seu celular invadido pelo hacker, que lhe ofereceu o que chamou de “provas de graves atos ilícitos praticados por autoridades brasileiras”.

Manuela disse que pensava se tratar de uma armadilha política, por isso passou o contato de Greenwald ao invasor. A ex-deputada também declarou que em momento algum sabia a identidade do hacker, pois ele lhe mandou mensagem se passando por outro contato do celular dela.

Entenda os vazamentos

Desde o dia 09 de junho, o Intercept vem revelando uma série de conversas privadas que mostram Moro e procuradores, principalmente Deltan Dallagnol, combinando estratégias de investigação e de comunicação com a imprensa no âmbito da Operação Lava Jato.

Segundo as revelações, o ex-juiz sugeriu mudanças nas ordens das operações, antecipou ao menos uma decisão e deu pistas informais de investigações nos casos envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O site é de Glenn Greenwald, um jornalista americano vencedor do prêmio Pulitzer por ter revelado, em 2013, um sistema de espionagem em massa dos EUA com base em dados vazados por Edward Snowden.

Como as revelações vieram a público por uma reportagem, ainda será necessária uma extensa investigação, provavelmente conduzida pela Polícia Federal, para confirmar as implicações jurídicas.

O vazamento de informações sigilosas no âmbito da Lava Jato tem sido comum desde o início da operação em 2014.

(Com Estadão Conteúdo)