O que as manifestações pró-Bolsonaro significam para a Previdência

Para especialistas ouvidos por EXAME, protestos deste domingo fortalecem agenda do governo ao mesmo tempo em que acirram disputa no meio político

São Paulo — As manifestações a favor de Jair Bolsonaro neste domingo (26) ajudaram a fortalecer a agenda do governo mas não resolvem a dificuldade da aprovação no Congresso Nacional.

Para cientistas políticos ouvidos por EXAME, a grande novidade dos atos foi colocar a reforma da Previdência como uma pauta da rua.

“É a primeira vez que vejo uma reforma tão impopular sendo ovacionada pelo povo”, pontua Fernando Schüler, cientista político e professor do Insper. “É óbvio que o apoio é genérico e a grande maioria não discute o que isso acarretará. Mas o apoio, tão necessário para o governo, no entanto, já está lá”.

Christopher Garman, diretor para as Américas da consultoria de risco político Eurasia, escreve em nota que não consegue lembrar de qualquer passeata a favor de cortes em benefícios previdenciários e que foi a primeira vez que o presidente conseguiu unir sua base em torno de uma agenda positiva.

Isso poderia mobilizar deputados mais sensíveis à opinião pública e ajudar a neutralizar protestos subsequentes contra a reforma. O ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a ter seu nome entoado em coro pela multidão:

As últimas pesquisas de opinião mostram que o governo vem perdendo confiança do mercado e frustrando parte do eleitorado que o apoiou no segundo turno, mas mantém sua base mais fiel.

O grande desafio para o governo continua sendo organizar sua base para fazer avançar a sua agenda com o Congresso. Por ser uma emenda constitucional, a reforma da Previdência exige apoio de dois terços de deputados e senadores em votação em dois turnos.

A Eurasia calcula que o balanço dos protestos é positivo para Bolsonaro e que a chance de aprovação da reforma está em 80%, mas isso não significa que o governo tem maioria consolidada, como destacou Lucas de Aragão, analista da Arko Advice, no Twitter.

 

Um dos principais alvos dos manifestantes neste domingo foi o chamado Centrão, grupo de partidos sem orientação ideológica clara e identificados com o fisiologismo.

O discurso foi endossado pelo próprio presidente que afirmou que o povo foi às ruas como um recado “para aqueles que, com suas velhas práticas, não deixam que o povo se liberte”. Em entrevista neste domingo, o presidente preferiu destacar que está em “harmonia” com os outros poderes.

“Bolsonaro cometeu equívocos ao dizer que ele tinha feito tudo que podia para aprovar as reformas e que a bola estava com o Congresso. Em um sistema presidencialista como o nosso, cabe ao presidente organizar sua base e coordenar os trabalhos para que seus interesses sejam aprovados. Dar a entender que o Congresso é quem está atravancando o processo é perigoso”, diz Marcelo Issa, da consultoria Pulso Público.

Declarações de líderes do Centrão vão na mesma direção. O líder do PRB na Câmara, Lafayette Andrada (MG), disse que o presidente Bolsonaro fica botando “gasolina na fogueira” no sentimento contra a classe política, o que seria uma “burrice”.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, que é um dos principais articuladores das reformas econômicas desde o governo Temer, também foi um alvo privilegiado das manifestações.

No Rio de Janeiro, uma das cidades com maior adesão aos atos, um boneco inflável de Maia foi batizado de “Nhonhozeco”, segurava um símbolo de cifrão e vestia camiseta com logomarcas de empresas relacionadas a denúncias contra ele, como a Gol e a Odebrecht, além de uma inscrição de Judas, traidor de Cristo.

“O Rodrigo Maia é o único que sustenta o governo ainda hoje. Ataque a ele é um tiro na testa, e não no pé”, disse o presidente do Solidariedade, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força.

Pautas radicais

Pautas radicais de ataques às instituições, como fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso Nacional, estiveram presentes na convocação das manifestações e geraram críticas de aliados do seu governo.

Movimentos conservadores importantes do movimento pelo impeachment de Dilma Roussef, como o MBL, não deram apoio formal ao protesto. No final, as pautas antidemocráticas não foram totalmente abandonadas mas apareceram como coadjuvantes.

“O saldo das manifestações pró-Bolsonaro é ruim para os conservadores. A mobilização não foi pífia, mas mostra uma direita muito mais dividida do que estava em 2018”, escreve o cientista político e colunista de EXAME, Sergio Praça, em seu blog.

Para garantir o discurso civilizado, o próprio presidente fez comentários em seu Twitter sobre as pautas “legítimas e democráticas” vistas nas ruas do país.

O ministro Sérgio Moro, da Justiça e da Segurança Pública, também reforçou uma visão das manifestações como essencialmente democráticas:

De acordo com Andre Perfeito, economista-chefe da corretora Necton, o mercado financeiro tende a ignorar o protesto por julgar que eles não mudam a correlação de forças e que Maia tem interesse próprio na aprovação da reforma.

No início desta segunda-feira o índice Ibovespa registrava um avanço tímido e o dólar registrava leves variações ante o real em um dia com movimentação fraca no mercado de divisas devido ao feriado nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Resposta às manifestações contrárias

As manifestações deste domingo foram marcadas em resposta aos protestos do dia 15, contrários ao governo e às medidas relacionadas à educação, mas é difícil fazer uma comparação.

“Questionar se elas foram maiores ou menores parece injusta para qualquer um dos lados. No caso do dia 15, as manifestações foram realizadas durante a semana, o que é mais difícil de atrair mobilização. Ao mesmo tempo, as de ontem havia grupos mais organizados à frente, com grande mobilização online”, diz Thiago Vidal, da consultoria Prospectiva.

Foram até agora registradas 156 cidades com protestos pró-Bolsonaro, número inferior tanto ao número de cidades com protestos convocados (300) quanto ao número de cidades que tiveram protestos pela educação (222).

As imagens aéreas das capitais também sugerem uma adesão menor, mas não há contagem oficial de manifestantes consolidada.

Uma nova rodada do conflito acontece no próximo dia 30, quando estão marcadas novas manifestações a favor da educação e contra o governo Bolsonaro.