Má notícia: corrupção não conta na hora do voto. Saiba por quê

Pesquisas apontam que a corrupção pode impactar negativamente o comparecimento às urnas, mas costuma não ser considerada na decisão do voto

A corrupção é tema caro para o brasileiro. Segundo uma pesquisa divulgada no início do ano pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o segundo maior problema do país em 2017 foi a corrupção, citada por 55% dos entrevistados. O tema só perdeu para desemprego, mencionado por 56%, mas chegou a superar até a saúde (47%).

Apesar da importância do tema para os brasileiros, ele pode não ter efeito prático nas urnas. Outra pesquisa da CNI, de julho deste ano,  mostrou que 45% dos eleitores estão pessimistas com as eleições de outubro. O principal motivo apontado para o pessimismo foi, de longe, a corrupção, citada por 30%. A não confiança nos governos e candidatos vem em seguida, com 19%.

O problema é que, diferentemente do que se poderia imaginar, a corrupção não leva os eleitores às urnas para mudar o quadro de políticos eleitos ou tirar os corruptos do poder —estudos apontam que, na verdade, a corrupção não é nem levada em conta na hora de votar.

Impacto no comparecimento

Dois pesquisadores das universidades da Califórnia e de Pittsburgh, nos Estados Unidos, se uniram para mostrar que a indignação com a corrupção impacta negativamente o comparecimento às urnas. Miguel Carreras e Sofia Vera incluíram uma pergunta experimental em uma pesquisa de opinião nacional na Colômbia, conduzida entre agosto e outubro de 2016, para avaliar o impacto da corrupção na participação eleitoral. Eles decidiram realizar o experimento na Colômbia por ser um país com níveis altos de corrupção —segundo o AmericasBarometer, 80% dos colombianos afirmaram, em 2012, que a corrupção era “muito generalizada” em seu país.

Na pergunta, os pesquisadores alternavam os registros variados de corrupção de um candidato hipotético concorrendo para o Congresso. A conclusão foi que, diante de candidatos corruptos, os eleitores se sentiam menos motivados para comparecer às urnas, e não em votar em alguém honesto (ou menos corrupto).

No Brasil, onde o voto é obrigatório, dados da pesquisa da CNI reforçam essa tese em relação ao índice de brancos e nulos: 29% dos eleitores apontaram o fato de todos os candidatos serem corruptos como razão para anular o voto.

Uma pesquisa de Nara Pavão, professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco, mostra um cenário ainda mais desalentador: quanto maior a corrupção em um país, menor o peso que ela tem como fator para a escolha do voto. Por isso, governantes corruptos sobrevivem nas democracias e não são punidos nas urnas.

“Existia uma expectativa teórica de que a democracia traria governos menos corruptos, porque, entre outras coisas, a democracia traz a possibilidade de jogar o lixo fora”, explicou Nara em entrevista a EXAME. “Minha pesquisa olhou para 80 eleições ao redor do mundo, e o peso que os eleitores dão para a corrupção é muito pequeno. Mostra que era uma expectativa irrealista.”

A pesquisadora usou dados de dois levantamentos do projeto de pesquisa colaborativo Estudos Comparativos de Sistemas Eleitorais (CSES, na sigla em inglês), que conduz entrevistas pós-eleições em mais de 40 países. Uma das perguntas é sobre o grau de corrupção no país. Cruzando esta resposta com o resultado eleitoral, a pesquisadora conclui que a corrupção como fator determinante para a escolha do voto tem pouco peso ao redor do mundo. Mas esse peso é ainda menor nos países com mais corrupção.

Em um estudo posterior com americanos, Nara fez um experimento para manipular a percepção sobre a corrupção nos Estados Unidos. O resultado confirma o anterior: o grupo que passou a acreditar que os EUA tinham um alto índice de corrupção tornou-se mais tolerante à corrupção quando comparado ao outro grupo, que ouviu que o país possuía baixos níveis de corrupção.  

A corrupção como parte do sistema

Nara argumenta que o eleitor percebe a corrupção de forma diferente do que outros temas eleitorais. Na hora de avaliar um candidato em busca de reeleição por suas propostas econômicas, por exemplo, há elementos concretos que podem ser considerados: a inflação, a taxa de desemprego, o poder de compra. Com a corrupção, não é possível fazer esse tipo de avaliação, já que ela não é uma política pública, mas sim parte da forma de governar.

Há ainda outro agravante: em países como o Brasil, onde a corrupção é vista como parte —e não resultado— do sistema político, todos os candidatos são percebidos como “farinha do mesmo saco”. Ao não conseguir diferenciar os políticos corruptos dos não-corruptos, o eleitor deixa de considerar tanto o tema para definir seu voto.  Na pesquisa da CNI, 54% dos entrevistados concordaram com a frase: “se todos os candidatos são corruptos, então não faz diferença em quem eu voto”.

“A corrupção entra no cálculo do voto como qualquer assunto eleitoral, mas ela é um problema muito diferente. Por ser uma forma de governar, as pessoas olham com certo ceticismo. Elas não acreditam que os políticos sejam capazes de resolvê-la ou mesmo que fariam algo para mudar uma prática que os beneficia, por mais que a corrupção seja vista como um grande problema”, explica Nara.

É o que ajuda a explicar o “rouba, mas faz”, eternizado por Paulo Maluf. É também o que explica, em partes, os 39% do eleitorado que declaram voto em um candidato preso desde abril por corrupção passiva. Ou o que faz Aécio Neves, réu na Lava-Jato, confiar que será o deputado mais votado em Minas Gerais. A atitude dos eleitores, infelizmente, não é ilógica. Apenas segue a lógica política.