Justiça decreta prisão preventiva do médium João de Deus

Decisão de prender o médium acusado de abusar sexualmente de mais de 300 mulheres se deu dois dias após Ministério Público entrar com pedido na justiça

São Paulo — A Justiça de Goiás decretou, nesta sexta-feira (14), a prisão preventiva de João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus. Ele é acusado de abuso sexual por mulheres que buscaram atendimento espiritual.

Relatos reunidos até o momento indicam que, depois das sessões, o médium supostamente oferecia para as vítimas atendimento particular, momento em que os abusos seriam cometidos. 

Para o Ministério Público, a semelhança nos depoimentos reforçam as suspeitas contra o médium. De segunda a quinta-feira, 330 denúncias foram coletadas pelo órgão.

O pedido de prisão havia sido protocolado no fim da tarde de quarta-feira (12) no Fórum de Abadiânia, município goiano onde o líder espiritual mantém a Casa Dom Inácio de Loyola, local em que faz os “atendimentos espirituais”. 

O MP fundamentou o pedido de prisão preventiva com dois argumentos. Para a Promotoria, em liberdadeJoão de Deus poderia coagir as testemunhas e, caso mantivesse os atendimentos, fazer novas vítimas. 

Após o pedido do MP, a justiça do estado analisou o caso e determinou sua prisão.

Defesa

Classificando o pedido como descabido na quinta-feira (13), o advogado de defesa de João de Deus, Alberto Zacharias Toron, em audiência com o juiz que acompanha o caso, solicitou que o médium permanecesse em liberdade.

Sugeriu ainda que os atendimentos pudessem ser feitos de forma assistida — com a presença de policiais ou monitorado por câmeras.

Toron argumentou que João de Deus tem residência fixa e já se mostrou disposto a colaborar com a Justiça. Na quarta-feira (12), num rápido aparecimento que fez na Casa Dom Inácio de Loyola, o líder espiritual disse ser inocente e que estava nas mãos da Justiça. “João de Deus está vivo”, disse ele, para um público reduzido de fiéis.

Denúncias

Na semana passada, o Programa do Bial trouxe à tona o depoimento de dez mulheres que afirmam terem sido vítimas de João de Deus. Com a repercussão do caso, outras também revelaram abuso do médium.

Até o momento, foram recebidas 330 denúncias em 11 Estados — 18 em São Paulo, já enviadas em vídeo para Goiás.

Há denúncias relativas a supostos abusos ocorridos desde 1980 até outubro deste ano. Em um desses, uma mulher disse ter procurado a casa depois de passar por tratamento de câncer de mama.

Lá, se submeteu a uma cirurgia espiritual e foi orientada a voltar. No encontro, recebeu um pedido de João Deus. “O que eu fizer aqui dentro, você não vai falar para ninguém”, disse a ela.

“Você levante que eu vou te curar. E você vai ter de se entregar. Aí ele pediu para eu ficar de costas e nisso ele começou a passar a mão no meu corpo. Eu comecei a chorar e ficar desesperada. Se eu gritar, pensei, tem milhares de pessoas aí fora que endeusam ele, chamam de João de Deus”, acrescentou.

Ela só se sentiu encorajada a denunciar nesta semana. Como foi o caso de outra vítima, que diz ter sido abusada por João de Deus quando estava grávida, há 12 anos. “Na hora você não tem força, você não tem autoridade diante de uma pessoa enviada com uma missão divina.”

Consequências

Desde as primeiras denúncias, o movimento na Casa Dom Inácio de Loyola caiu. Pelos cálculos de funcionários, o local recebeu nesta quinta-feira cerca de um terço do número costumeiro de visitantes. A estimativa é de que o médium atraia mensalmente cerca de 10 mil pessoas, das quais 40% são estrangeiras.

A cidade aguarda dividida os desdobramentos. Com 17 mil habitantes, boa parte da economia do município gira em torno das atividadede João de Deus.

O prefeito da cidade, José Aparecido Alves Diniz, calcula que a casa gere direta ou indiretamente 1.300 postos de trabalho. “Não há como negar que vai ser um baque para o município”, disse. 

Fiéis, por sua vez, estão divididos. Apegados à fé, muitos afirmam ser necessária a distinção entre o que faz o homem e a entidade. Outros não acreditam nas denúncias.

“Mas é claro que as investigações têm de ser feitas. Não devemos julgar apressadamente nem contra ou a favor”, disse a paulista Elizabeth Cozza. Mesmo diante das denúncias, ela decidiu vir para Abadiânia em busca de tratamento. 

Em entrevista, Luciano Miranda Meireles, coordenador do Centro de Apoio Operacional Criminal, disse estar impressionado com o relato das vítimas e afirmou não ter dúvida de que, uma vez formalizadas as denúncias, o caso João de Deus tem potencial para superar o do ex-médico Roger Abdelmassih, condenado por abusar sexualmente de suas pacientes.

Meireles ponderou que o número de casos é maior — pois não se restringe a uma pequena parcela de pacientes.”Fora o tempo. Há relatos de abusos cometidos há 20 anos.”